Conquista do espaço fortalece projetos culturais e ações de preservação da memória afro-brasileira na Região Tocantina.
Edlene Galeno
Laís Rocha
Vitória Guajajara

Durante anos, o sonho de ter um espaço próprio coube em salas emprestadas, prédios alugados e espaços cedidos temporariamente. As reuniões precisavam se adaptar ao calendário de terceiros, projetos eram interrompidos pela falta de estrutura e parte da memória construída ao longo de décadas acabava se perdendo a cada mudança de endereço. Agora, o som das ferramentas, o cheiro da poeira e o trabalho coletivo de quem coloca a mão na massa anunciam um novo capítulo dessa história. Depois de mais de duas décadas de reivindicações, o Centro de Cultura Negra Negro Cosme (CCN-NC) está prestes a ocupar, pela primeira vez, uma sede própria em Imperatriz. Mais que um imóvel, o espaço representa a consolidação de uma trajetória marcada pela resistência, pela preservação da cultura afro-brasileira e pelo combate ao racismo.
Enquanto paredes são recuperadas e salas começam a ganhar forma, militantes, voluntários e parceiros trabalham em mutirão para transformar um prédio público, antes sem utilização, em um centro permanente de formação, cultura e cidadania. A expectativa é que a nova estrutura permita ampliar projetos sociais, atividades educativas, ações culturais e iniciativas voltadas à promoção da igualdade racial, fortalecendo uma instituição que, desde sua fundação, atua como referência para o movimento negro na região Tocantina.
A conquista não aconteceu de forma repentina. Ela é resultado de uma mobilização iniciada ainda nos primeiros anos de existência da entidade, fundada em 2002, e atravessou diferentes administrações municipais, mudanças políticas e uma longa caminhada burocrática até chegar ao momento atual.
Poucas pessoas acompanharam essa trajetória tão de perto quanto Maria Luísa Rodrigues, segunda presidente da entidade e atual presidente de honra. Presente desde os primeiros passos do Centro de Cultura Negra, ela relembra que a busca por uma sede própria sempre esteve entre os maiores objetivos da organização, “essa é uma luta que vem desde quando o Centro foi criado. Sempre sonhamos em ter um espaço onde pudéssemos desenvolver nossas atividades sociais, culturais e artísticas, realizar reuniões, fortalecer nosso grupo de teatro e construir nossa história sem depender de locais emprestados”.

Ao longo dos anos, segundo a presidenta de honra, a ausência de um espaço permanente limitou o crescimento de diversos projetos e provocou perdas materiais e históricas. Documentos, equipamentos e iniciativas deixaram de ser desenvolvidos por falta de um local adequado para armazenamento e funcionamento, “é muito importante porque muitas coisas já se perderam justamente por não termos uma sede própria. Agora teremos um lugar onde as futuras gerações poderão dar continuidade ao trabalho que começamos”, ressalta.
Para Maria Luísa, o significado da nova sede ultrapassa a estrutura física. Ela simboliza a continuidade de uma luta coletiva contra o racismo e pela valorização da identidade negra.
Embora a concessão do prédio tenha sido oficializada, outro desafio começou a surgir: transformar o imóvel em um espaço apto para receber atividades. Atualmente, a reforma acontece de forma colaborativa. O presidente do Centro de Cultura Negra, Divaldo Pereira, explica que a maior parte do trabalho realizado até agora dependeu da mobilização dos próprios integrantes da entidade. “Estamos trabalhando em mutirão. Quem pode ajuda na obra; contribui com materiais ou recursos financeiros. Até o momento, tudo o que está sendo feito é custeado pelo próprio Centro de Cultura Negra.”
Neste primeiro momento, a reforma concentra esforços em cinco salas que apresentam melhores condições estruturais. A intenção é reunir equipamentos, acervo e parte das atividades que hoje estão espalhadas por diferentes locais da cidade. Mesmo antes da inauguração, o presidente já projeta uma nova fase para a instituição, “durante muito tempo nosso trabalho ficou muito concentrado em palestras e atividades dentro das salas de aula. Agora queremos levar nossos projetos para as periferias. A sede vai permitir ampliar esse alcance”, afirma.
Nos planos da nova sede estão incluídas oficinas culturais, cursos de formação, atividades voltadas para crianças e jovens, fortalecimento do teatro, incentivo à capoeira, valorização da cultura afro-brasileira e ampliação das ações realizadas durante o mês da Consciência Negra. A tradicional programação do dia 20 de novembro também deverá ganhar novas proporções. Depois da primeira corrida organizada pela entidade que reuniu cerca de 300 participantes, a expectativa é ampliar significativamente o evento, “nossa meta agora é fazer uma corrida ainda maior. Queremos envolver cerca de mil participantes e mostrar que o Centro de Cultura Negra é um espaço aberto para toda a sociedade”, expressa.
A concretização desse sonho também exigiu um longo percurso administrativo. Responsável pelos trâmites finais enquanto ocupava a Secretaria Municipal de Governo, Eduardo Albuquerque explica que o processo precisou seguir todas as etapas previstas pela legislação, “não houve resistência por parte do poder público. O que existiu foi a necessidade de cumprir todos os procedimentos legais. A documentação passou pela regularização fundiária, pela Procuradoria do Município e por outras secretarias até que fosse possível formalizar a concessão do imóvel.”
Segundo ele, o prédio encontrava-se sem utilização e passou a cumprir uma função social ao ser destinado à entidade, “o Centro de Cultura Negra presta um serviço de utilidade pública. Desenvolve ações educativas, culturais, de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial. Apoiar instituições como essa é dever do poder público” defende.
A articulação política que permitiu destravar o processo também contou com a participação do então vice-prefeito da época e um dos fundadores do Centro de Cultura Negra, Alcemir Costa. Ele relembra que o pedido por uma área pública começou ainda entre 2017 e 2018, quando a entidade protocolou oficialmente a solicitação junto ao município. Na época, um dos principais obstáculos era encontrar um imóvel público disponível que atendesse às necessidades da instituição, “a maior dificuldade era justamente localizar um espaço adequado, porque muitos imóveis públicos já estavam ocupados.”
Quando percebeu que o processo havia perdido ritmo, Alcemir passou a atuar diretamente na articulação entre diferentes órgãos da administração municipal, “conversei com os secretários envolvidos, apresentei uma alternativa de imóvel e articulamos a tramitação junto à Procuradoria, à Secretaria de Governo e ao prefeito para que a concessão pudesse acontecer.”
Para ele, a importância da nova sede vai além do funcionamento administrativo da entidade, “um espaço como esse preserva a memória do povo negro e cria condições para que as novas gerações conheçam sua própria história. A contribuição da população negra está presente na construção do país, na música, na literatura, na culinária, na economia e em tantos outros aspectos da nossa cultura, destaca.
Mesmo antes da conclusão das obras, o prédio já representa um símbolo para quem acompanhou décadas de mobilização. Cada parede recuperada, cada sala preparada e cada material doado refletem o esforço coletivo de pessoas que se recusaram a deixar esse sonho pelo caminho. Mais do que oferecer um endereço definitivo, a nova sede do CCN-NC consolida um espaço de pertencimento, memória e resistência. É lá que oficinas, apresentações culturais, debates, cursos, ações educativas e projetos sociais deverão ganhar continuidade, fortalecendo a identidade afro-brasileira e ampliando o diálogo com toda a comunidade.

Depois de tantos anos de espera, a casa própria deixa de ser um projeto para se tornar parte da história. Uma história construída por muitas mãos, sustentada pela persistência de diferentes gerações e que agora ganha um lugar permanente para continuar sendo escrita. “Eu me sinto muito feliz porque eu contribuí, eu lutei e eu sempre trabalhei para ver o Centro de Cultura Negra bem estruturado, bem organizado, para para que as futuras gerações possam, dar continuidade no trabalho de combate ao racismo” relata Maria Luísa emocionada.