Noite de magia no Embiral

Texto de Ana Clara de Araújo, Giovanna Paixão e Laiza Cristina

Às margens do rio Tocantins no povoado Embiral, redes, barracas e cadeiras de praia dão forma ao local que irá abrigar o público da rave Magic Night pelas próximas 24 horas. A ideia é trazer conforto e ter um espaço pronto para descansar ao longo do período da festa. A partir das 18h, com o sol se pondo e o vento fresco da beira do rio, amantes de rave de todos os estados chegam e se preparam para um dia inteiro ao som de música eletrônica.

Os sets são divididos por horas. Cada um combinando com o momento. A DJ Amanda Soares descreve a experiência musical como “sensorial” uma junção de energia que transcende qualquer explicação lógica. “Não tem uma receita de bolo. A gente consegue colocar na rave todo tipo de gente com suas culturas, suas cores, sua linguagem e seu sotaque. Independente de onde tu vens, a gente vai curtir junto, e isso é muito bonito”, completa a artista e administradora de 28 anos, que viajou de Castanhal (PA) para o Maranhão.

Ponto de vista dos músicos da Magic Night. Foto de Acervo Magic Night.

O convite à desconexão urbana atrai um público cativo. Para a estudante de Arquitetura Lanna Evelyn, de 21 anos, o refúgio natural é o grande atrativo da festa. “Sinto muita reconexão com a natureza e comigo mesma. Acho que encontrei o meu lugar”, relata a jovem, que frequenta a cena há apenas dois meses. Já para a vendedora Pablinny Carvalho, de 22 anos e veterana de quatro anos nas pistas, o evento é uma válvula de escape e acolhimento. “É muita gente que quer tirar um dia para sorrir, caçar conversa e dançar até o corpo cansar. A música hipnotiza demais”, conta.

Essa peregrinação eletrônica acaba criando um ponto de encontro interestadual. Maranhenses, paraenses e tocantinenses dividem o mesmo front. Essa mistura transforma o evento em um polo de trocas, onde novas amizades surgem ao som das batidas aceleradas.

Estigmas

Engana-se quem pensa que a Magic Night se restringe a música alta. A rave possui uma estética própria e códigos bem definidos. Ludmilla Carvalho, de 23 anos, que trabalha com produção de sucos, destaca o visual e a dança como formas de expressão únicas do movimento. “É todo um estilo. Na estrutura, nas roupas da galera, na maquiagem. E na dança também. Nunca tinha visto uma dança igual àquela, com os passinhos do Popotrense”, reflete.

Ludmilla também faz questão de quebrar os estigmas que ainda cercam os amantes da música eletrônica. A associação automática do ritmo ao uso de substâncias ilícitas é uma visão limitante. “As pessoas acham que esse povo só gosta dessas coisas quando está ‘chapadão’, mas não é. Eu escuto trance para trabalhar, me anima, me coloca para cima. Eu fico no meio da obra com o fone no ouvido”, defende.

Pessoas de diferentes estilos unidas pela paixão por música eletrônica. Foto de Acervo Magic Night

Raízes e resgate histórico

A cena eletrônica na região Tocantina carrega uma herança histórica de resistência. O produtor de eventos Gildean Barbosa, que atua na área há quatro anos, relembra que o mercado já teve dias de glória muito antes de chegar em Embiral. “Em meados de 2004, acontecia em Carolina (MA) o tradicional Festival Fora do Tempo, que era considerado um dos maiores festivais do Brasil”, explica. O evento acabou inviabilizado pela construção da Usina Hidrelétrica de Estreito, forçando a cena a se reinventar em cidades como Imperatriz, e sobrevivendo, mais recentemente, aos duros impactos da pandemia.

Hoje, essa reconstrução busca dialogar com o local. O DJ Lótus (Marcus Vinicius), de 25 anos, natural de Ananás (TO), enxerga o movimento muito além da pista. Para ele, a rave amazônica incorpora narrativas sobre o rio Tocantins e referências aos povos originários. “O desafio é equilibrar referência e pertencimento. Nem todo uso de símbolos regionais representa valorização cultural; às vezes pode se tornar apenas estética. A cena tocantina se fortalece quando dialoga com os saberes locais”, analisa o músico, ressaltando o encontro entre a tradição local e a globalização eletrônica.

Impacto e desvalorização

A chegada de centenas de jovens em busca de entretenimento movimenta Embiral. Parte do público opta por alugar chalés e quartos, enquanto outros preferem ficar diretamente no local da rave e consomem o que é oferecido pelos vendedores locais. Pabllínio e Amanda concordam que a injeção financeira é visível. No entanto, a organização mantém os pés no chão: para Gil, o impacto ainda não é significativo a curto prazo, mas é uma semente plantada para o fortalecimento da economia do povoado no futuro.

Contudo, a economia dos bastidores revela uma realidade menos glamourosa para quem faz a festa acontecer: os artistas regionais. Lótus expõe a desvalorização sistemática enfrentada pelos músicos locais. Com cachês que giram em torno de R$ 300, ele relata que a falta de respeito dói mais que a remuneração baixa.

Ele relembra um episódio recente em que teve seu pedido de transporte negado por um produtor após o evento, sendo deixado à própria sorte em uma avenida na madrugada. “Ouvir frases como ‘vire um headline foda para ter essas regalias’ levanta uma questão: desde quando cuidado, segurança e respeito passaram a ser tratados como privilégios? Valorização não é favor, é ética”, desabafa o DJ, ecoando um sentimento comum entre aqueles que, mesmo com as dificuldades, continuam sendo a engrenagem principal que mantém a batida pulsando viva na região.