A AMIZADE INUSITADA NAS RUAS DE RIBEIRÃOZINHO

Em abril deste ano, quem andava pelas ruas movimentadas do município de Governador Edison Lobão, popularmente conhecido pela população local como Ribeirãozinho, cidade que fica a 32 quilômetros de Imperatriz, certamente já se deparou com uma cena que desafiava a lógica tradicional da convivência animal. No vaivém dinâmico do trânsito e na rotina pacata daquela importante localidade da Região Tocantina, dois personagens de espécies completamente distintas decidiram selar um pacto de companheirismo absoluto. Um jumentinho e um bode que não se sabe como foram parar nas ruas, transformaram as vias públicas em seu próprio cenário de exploração diária, caminhando lado a lado e atraindo os olhares curiosos de quem quer que cruzasse os seus caminhos.

O fenômeno, que rapidamente tomou conta das redes sociais locais e virou o principal assunto nas esquinas da cidade, não se tratava de um encontro esporádico ou de uma mera coincidência de pastagem. A dupla dinâmica adotou uma rotina puramente urbana, circulando de forma livre, desimpedida e extraordinariamente pacífica entre carros, motocicletas, bicicletas e pedestres. Para a comunidade local, ver os dois animais caminhando em perfeita sintonia tornou-se um acontecimento diário que misturava entretenimento, perplexidade e, acima de tudo, um profundo sentimento de carinho comunitário.

O morador de Governador Edison Lobão, Andrew Mattos, relata com entusiasmo e admiração o impacto real que a presença da dupla causava no cotidiano da cidade. Ele confessa que, embora os visse com uma frequência moderada, o magnetismo daquela parceria entre as espécies era simplesmente inegável. “Eu via eles muito pouco, mas é muito intrigante. Todo mundo para pra olhar o jumentinho e o bode juntos”, revela o morador, sorrindo ao lembrar das cenas urbanas. Segundo Andrew, o comportamento dos animais chamava a atenção principalmente pela lealdade recíproca. “O interessante é que eles não se separam. Ele descansa junto, um deitado no outro, andam juntos sempre. Não se separam. Eles também são tão tranquilos e não mexem com as pessoas. Todo mundo para pra tirar foto”, complementa o morador, evidenciando o status de celebridades locais que a dupla alcançou.

MASCOTES DA CIDADE

A presença constante e harmoniosa dos animais acabou por transformá-los em verdadeiros símbolos vivos de Ribeirãozinho. O afeto espontâneo da comunidade moldou uma relação de proteção informal e coletiva, na qual os motoristas reduziam preventivamente a velocidade e os comerciantes locais ofereciam pequenos agrados e alimentos adequados. No entanto, a circulação livre dos animais em uma via de intenso fluxo de veículos também suscita um debate sobre segurança viária e os instrumentos legais disponíveis para o poder público lidar com esse tipo de situação.

Embora o Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/1997) não trate especificamente da permanência de animais soltos em vias urbanas, ele prevê mecanismos que podem ser utilizados pelos órgãos de trânsito quando há risco à circulação. O artigo 269, inciso X, autoriza a adoção da medida administrativa de remoção de animais sempre que necessária para preservar a segurança e a fluidez do trânsito. Paralelamente, o Código Civil, em seu artigo 936, estabelece que o proprietário ou detentor do animal responde pelos danos por ele causados, salvo se comprovar culpa exclusiva da vítima ou ocorrência de força maior, atribuindo ao tutor a responsabilidade civil por eventuais acidentes envolvendo animais em vias públicas.

Apesar da existência desse respaldo na legislação federal, a realidade de Governador Edison Lobão apresenta uma lacuna normativa em âmbito municipal. Durante a apuração desta reportagem, foi analisado o Código de Posturas do Município (Lei Municipal nº 09/2002), sem que fossem encontrados dispositivos que regulamentem a apreensão, o recolhimento, o controle ou a permanência de animais soltos em vias públicas. Também não foram identificados decretos ou normas municipais que estabeleçam procedimentos administrativos para atuação do poder público nesses casos. Em diversos municípios brasileiros, legislações locais disciplinam a apreensão de animais encontrados em vias públicas, definem responsabilidades dos proprietários e estabelecem protocolos para recolhimento e destinação dos animais, realidade que não se verifica em Governador Edison Lobão.

Diante da enorme repercussão popular e da rotina urbana que esses animais consolidaram no coração do município, a Secretaria Municipal de Obras foi formalmente consultada sobre a existência de reclamações ou riscos de acidentes relacionados à permanência da dupla nas ruas. Daniela Muniz, secretária da pasta, esclareceu que o município não registrou ocorrências dessa natureza. Quando questionada se o departamento de trânsito ou a secretaria haviam recebido notificações formais de moradores ou registrado algum quase acidente envolvendo diretamente os animais, foi categórica: “Não. Pra mim não chegou nada.”

A ausência de medidas de recolhimento por parte da administração também esteve relacionada ao comportamento dos animais durante o período em que permaneceram circulando livremente pela cidade. Segundo Daniela Muniz, não houve necessidade de uma atuação conjunta entre as secretarias de Obras, Meio Ambiente ou Saúde para retirá-los das vias. “Não, tendo em vista que eles não ofereciam risco à população”, explicou. A gestora também esclareceu que o encerramento da presença dos animais no espaço urbano não ocorreu por intervenção do poder público. “Não foi o poder público que recolheu, e sim o dono que vendeu”, concluiu.

SEGURANÇA E PROTEÇÃO

Por mais poética, lúdica e cativante que a presença dos animais parecesse aos olhos dos moradores e visitantes, a realidade nua e crua das ruas escondia perigos diários severos. O fluxo constante de veículos pesados, comum nas cidades da Região Tocantina, aliado à ausência de uma estrutura de pastagem adequada e segura, representava uma ameaça silenciosa, porém constante, à integridade física de ambos os bichos. Felizmente, o destino final do bode e do jumentinho não foi traçado pela fatalidade de um acidente ou pela frieza de uma apreensão institucional, mas sim pela sensibilidade e intervenção de cidadãos engajados.

A grande reviravolta na trajetória dos mascotes ocorreu em maio, quando o antigo proprietário dos animais, compreendendo a inviabilidade e os riscos de mantê-los soltos nas vias públicas a longo prazo, tomou a decisão de comercializá-los. Foi nesse exato momento que a história de Ribeirãozinho ganhou novos personagens centrais: a moradora Camila Araújo e seu esposo. Cientes da enorme fama e do imenso carinho que a dupla despertava em toda a população local, o casal não hesitou em agir para garantir um futuro digno, seguro e confortável para os dois célebres companheiros de jornada.

“Eles dois andavam juntos. Eu e meu esposo compramos e levamos para uma das nossas propriedades. Está sobre os nossos cuidados”, explica Camila Araújo com orgulho e satisfação. A nova proprietária relata que a transação foi diretamente motivada pela clara percepção do risco iminente que as ruas com asfalto afora representavam para os bichos, além do desejo genuíno de adotá-los como animais de estimação protegidos. “Eles sempre andaram juntos pelas ruas. Aí não teve mais como eles ficarem nas ruas, o antigo dono resolveu vender e a gente comprou para deixar como estimação”, detalha Camila, ressaltando o compromisso de manter o elo afetivo que unia os dois animais.

NOVO LAR SEGURO

Camila Araújo já tinha total conhecimento do profundo impacto emocional que os animais exerciam sobre os moradores de Governador Edison Lobão muito antes de consolidar legalmente a compra. Ao ser questionada se já conhecia a célebre história e sabia que eles eram considerados os autênticos “mascotes” de Ribeirãozinho, ela respondeu prontamente de forma afirmativa: “Sim, já sabia”. Para ela e sua família, ver a dupla agora desfrutando de um espaço amplo, controlado e inteiramente livre dos perigos automobilísticos traz um sentimento incomensurável de dever cumprido e alívio.

O contraste entre o asfalto quente e perigoso das avenidas e a calmaria da nova pastagem é evidente na rotina atual dos animais. “Sim, nas ruas era um risco muito grande. Agora estão sendo bem alimentadas e estão em um lugar seguro”, pontua a proprietária. A transição definitiva das ruas para a propriedade rural privada encerra com chave de ouro um longo ciclo de incertezas e vulnerabilidade urbana, assegurando que a amizade inseparável entre o bode e o jumentinho continue firme e forte, mas agora resguardada por cuidados veterinários preventivos, abrigo contra as intempéries e alimentação de alta qualidade.

Para acalmar e confortar os corações dos inúmeros admiradores e moradores que acompanharam e torceram fervorosamente pelo bem-estar da dupla ao longo de suas andanças públicas, Camila Araújo faz questão de enviar um recado oficial e carinhoso a toda a comunidade de Ribeirãozinho. A mensagem final encerra de forma emocionante uma das crônicas urbanas mais singulares e afetuosas da história recente da Região Tocantina: “Gostaria de agradecer o carinho de todos e dizer que eles estão bem”, conclui com afeto. Com a segurança plenamente garantida, a lenda da amizade inseparável de Governador Edison Lobão permanece viva, eternizada tanto na memória afetiva das ruas quanto no aconchego tranquilo de seu novo lar.


por: Felipe carneiro e Naomi Rodrigues