Pedro Bezerra
Minhas memórias são as memórias dele, então não me lembro bem como era minha vida antes de morar aqui. Comecei na rua, eu acho, me davam alimento e eu ficava por lá, até que um dia me levaram, sem perguntar se eu queria ir, para uma casa em uma rua onde a civilização terminava e o mato começava. Gostei do pouco que consegui ver enquanto era transportado, muita terra e verde, fiquei curioso. Mas lá dentro foi um sufoco, tinha uma cachorra doida que pulava em tudo, e o latido! Nunca mais quero ouvir. Os três gigantes donos da casa eram até simpáticos, um as vezes dava gritos que penetravam meus tímpanos alertas, mas era meu preferido ainda assim. Tinha também um irmãozinho branco que estava doente, e outro misturado. Não lembro se me dei bem com eles, fiquei escondido o tempo todo, o medo me paralisa desde que nasci, especialmente numa noite de lua cheia como aquela, onde tudo se vê.
Sofri escondido por um tempo, até que vieram me levar embora de novo. Parece que aconteceu uma confusão, e o irmãozinho branco nem era para estar ali, que se confundiram quando pegaram ele, pensando que era eu, não sei bem. Só sei que me botaram em um monstro de metal que ronronava numa altura assustadora, mais alto que meus choros e clamores. Mas chegando no novo novo lugar, me assustei e me alegrei ao mesmo tempo pelo tamanho. Fiquei tão curioso que não levou muito tempo para sair explorando as plantas, o quintal, as caixas dentro de caixas. Porém algo tomou conta de mim, aquele medo inato que é um amalgama de todos os pensamentos nefastos que alguém pode ter sobre a própria existência.
Por dias e dias me enfurnei nas tralhas no fundo do quintal, não conseguia sair por nada, pelo menos não durante o dia, já que o gigante que me botava comida e água não me deixava quieto, toda hora ia me olhar. Ele foi o mesmo que me trouxe, era um bicho magrelo, cabeludo, olhos enormes, mas simpático no final, não me fez mal para além da minha própria imaginação. Havia outros três gigantes, um ruim, terrível, uma engraçada que falava comigo só com uma voz estranha, e a última nunca quis saber de mim e até hoje não entendo bem por quê.
Depois de uma semana, houve um momento em que todos saíram e ficamos só eu e o gigante magrelo. Ele me arrancou dos meus entulhos e me levou para finalmente explorar o resto da casa. Aceitei o gesto e bisbilhotei por vários minutos todos os cantos que encontrei, percebi muitos cheiros novos que me falavam sobre aquele lugar, e meu nariz não torceu. Quanto mais conheço menos medo tenho, percebi, mas ali ainda não tinha conhecido o suficiente. Quando os outros retornaram voltei para o meu esconderijo, meio iluminado pelo quarto crescente lunar.
Como todos já sabiam meu esconderijo, e conseguiam até me tirar dele, me aventurei para achar outros. O primeiro deles, eu logo descobri, foi uma ideia terrível: o maquinário embaixo do monstro de metal que os gigantes usam de transporte. Primeiro porque logo me descobriram, segundo porque levei o maior susto da minha mísera existência quando o monstro acordou de repente num rugido que me estremece cada pelo do bigode até hoje. Depois, com maior sucesso, fui para detrás da churrasqueira. Cheio de teias de aranha, sujo, escuro, ninguém havia sequer olhado dentro daquele buraco desde a construção daquela casa, e o melhor, ninguém conseguia me tirar de lá. Passo dias escondidos, mas a curiosidade e a fome me forçam a sair de vez em quando.
A esse ponto, o gigante magrelo já havia ganhado um pouco da minha confiança, admito. Eu ainda me escondia, não baixava a guarda na sua frente, mas ele nunca tinha me feito mal, me alimentava, e tentava sempre falar comigo, mas, provavelmente por algum acontecimento obscuro de infância, eu não conseguia devolver a gentileza para ele.
A novíssima Lua chega, escura e libertadora. Meus olhos se dilatam em grandes orbes. O mundo não me enxerga, mas eu enxergo o mundo, e tudo que me ameaça, deixa de ter dentes e garras e tudo que me grita não tem voz, e percebo que assim são suas verdadeiras formas. Vou até o gigante simpático e me deito do seu lado, e recebo um carinho nas costas sob a proteção do escuro.

Produto jornalismo literário Quem vive conta. Crônica desenvolvida por acadêmicos da turma 2026.1 do curso de jornalismo UFMA/Imperatriz na disciplina de Produção textual I. Coordenado pelas professoras Camila Rodrigues e Milena Silva. Edição por Nathalia Monteiro.