Voz Literária · Quem vive conta

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Entre a partida e o retorno

Kalyne Dutra

Eu tinha 14 anos quando deixei o Maranhão. Minha mãe havia conseguido
uma oportunidade de trabalho em São Paulo, e eu fui com ela. Naquele
momento, eu não estava apenas mudando de cidade. Estava me despedindo
da minha família, dos meus amigos de infância, das ruas onde cresci e de tudo
o que fazia parte da minha história. Algumas partidas acontecem antes de
estarmos prontos para elas, mas a vida nem sempre nos dá a opção de
escolher o momento.


São Paulo me ensinou muito. Foi lá que amadureci, que aprendi a lidar
com desafios, que construí novas amizades e vivi experiências que moldaram
quem eu sou hoje. Cresci acompanhando o sonho da minha mãe, entendendo
os sacrifícios que existem por trás de cada conquista e descobrindo que toda
mudança carrega consigo uma dose de coragem. Com o passar dos anos, fui
construindo minha própria trajetória. Iniciei a faculdade de Publicidade, fiz
planos e imaginei caminhos. Até que, aos 20 anos, a vida me apresentou uma
oportunidade que mexeu profundamente comigo: fui aprovada na Universidade
Federal do Maranhão para cursar Jornalismo.


E, naquele instante, percebi que havia chegado a hora de seguir o meu
próprio sonho. Voltar não foi uma decisão simples. Significava deixar para trás
a cidade onde eu havia crescido durante os últimos anos, os amigos que fiz, a
rotina que construí e a segurança do que já era conhecido. Mas algumas
escolhas não são feitas pela lógica. São feitas pelo propósito. Muita gente não
entende quando conto que saí de São Paulo para voltar ao interior do
Maranhão. Para quem vê de fora, parece um caminho contrário. Parece abrir
mão de oportunidades. Parece loucura. Mas quem sonha sabe que nem
sempre o melhor caminho é o mais óbvio. Às vezes, é preciso renunciar a
certas comodidades para viver aquilo que faz o coração bater mais forte.
Hoje entendo que minha história nunca foi apenas sobre ir embora ou
voltar. Foi sobre ter coragem para recomeçar quantas vezes fosse necessário.
Aos 14 anos, eu parti acompanhando o sonho da minha mãe. Aos 20, voltei
para realizar o meu. E existe algo muito bonito nisso: perceber que a mesma
estrada que um dia me levou para longe foi a que me trouxe de volta para
quem eu sempre fui.


Porque alguns lugares nunca deixam de ser casa. E alguns sonhos são
grandes demais para serem ignorados. Eu voltei sozinha, mas carregando
comigo tudo o que vivi. As memórias de onde vim, os aprendizados de onde
estive e a certeza de que vale a pena abrir mão de muitas coisas quando o
destino nos aproxima daquilo que realmente queremos nos tornar.

Produto jornalismo literário Quem vive conta. Crônica desenvolvida por acadêmicos da turma 2026.1 do curso de jornalismo UFMA/Imperatriz na disciplina de Produção textual I. Coordenado pelas professoras Camila Rodrigues e Milena Silva. Edição por Nathalia Monteiro.

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