Voz Literária · Quem vive conta

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Alerta: Estoque baixo – De tempo

Shellry Barbosa

Era um domingo qualquer, final da tarde. O sol se escondia lentamente em
um dia comum na vida cotidiana. A filha visitava sua mãe, que, mesmo jovem aos 53 anos
de idade, já dava indícios da velhice pelas rugas finas no pescoço, pelos cabelos brancos
crespos coroando a cabeça. O que a filha começava a observar eram os pequenos traços
do tempo que já marcavam a pele de sua mãe.

O passar do tempo não é linear, não é justo e muito menos nosso. Ao analisar
aqueles sinais, o sentimento que invade o coração de uma filha que admira sua mãe é a
aflição. Não aquela ruim, triste e angustiante, mas aquela de quem tem ciência de que
nada pode fazer quanto ao pesado passar dos dias, meses e anos.

O cotidiano leva de cada pessoa aquilo que é precioso, necessário e raro: o
tempo. Cada nova observação traz uma surpresa, uma ruga nova, um fato novo que
encontra a gente mais velho, seja um dia, seja um ano. Observar seu grande amor
passando pelo tempo através dessas marcas lembra que o hoje e o agora são o único tempo
que se tem. A filha, consciente da sua pequenez, aproveita sua velha-jovem mãe, se aquele
momento fosse o último, o único.

É domingo. O segundo domingo de maio. A moça recebe uma mensagem de
sua melhor amiga. Aos prantos, a amiga pede colo e revela que aquele é um dia difícil
para ela. Diz que é um dia que a faz sangrar, pois já não tem sua mãe, que foi levada por
um câncer, aos 53 anos – dez anos antes, em um dia comum, sem avisar, sem preparar, só
chegou e levou o amor de muitos para onde não há como visitar.

A jovem refletiu sobre a conversa da amiga, que para ela era uma das
mulheres mais fortes que conhecia. Parecia inquebrável. Até que perdeu a mãe, e a amiga
viu o que a falta de uma mãe pode fazer.

Desde então, sempre que olha para a mãe ajeitando os cabelos na frente do
espelho, reclamando das dores nas costas ou perguntando pela terceira vez onde deixou o
celular, sente um aperto estranho no peito. Antes ela só via a velhice chegando, agora ela
percebe o próprio privilégio de ter a mãe ainda por perto.

Começou a refletir que a amiga não teve tempo de ver os cabelos da mãe
mudarem de cor, não teve tempo de ouvir uma reclamação boba ou um conselho repetido
no almoço de domingo. O câncer levou depressa demais aquilo que o tempo, pelo menos,
teria a delicadeza de levar devagar. E foi ai que ela entendeu e tudo se encaixou.

O tempo nunca pertenceu a ninguém. As pessoas vivem como se pudessem
guardar as outras numa gaveta e voltar para elas quando sobrasse disposição. Como se o
amor pudesse ser guardado, estocado para depois do trabalho, do cansaço do dia a dia…,
mas não pode. Porque tem gente que vai embora sem avisar, enquanto a gente acha que
ainda tem muito tempo.

Ainda é domingo. Já anoiteceu. Naquela noite, ela abraçou a mãe por mais
tempo que o habitual. A mãe, sem entender pergunta: “O que foi menina?”. Segurando o
choro, ela responde: “Nada não mãe, só vontade de ficar e aproveitar você mais um
pouquinho.” E ficou.

Porque existem lições que ensinam tarde demais, e ela não queria aprender o amor pela ausência. Queria aprender pela presença.

Produto jornalismo literário Quem vive conta. Crônica desenvolvida por acadêmicos da turma 2026.1 do curso de jornalismo UFMA/Imperatriz na disciplina de Produção textual I. Coordenado pelas professoras Camila Rodrigues e Milena Silva. Edição por Nathalia Monteiro.

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