Terapia entre a arte do artesanato

Centro de Artesanato recebe artesãos que buscam um espaço de acolhimento e oportunidade de fonte de renda

Por Gabriel Jordan e Thalisson Freitas

O Centro de Artesanato de Imperatriz, fundado em 2008, a partir da iniciativa da Associação de Artesãos de Imperatriz em parceria com a Prefeitura Municipal e o Governo Federal, promove na cidade cultura e geração de renda. Distribuídos entres boxes com mensalidade de 120 reais, o Centro conta com mais de 30 artesãos que são capacitados e aptos para estarem associados ao local. Entre seus principais artefatos estão: crochê, fuxicos, artesanato, biscuit, bordados, amigurumis, entre outros.

Entre os quase 20 anos de fundação, fomenta oportunidades entre associadas, incentivando a participação em editais e fundos de amparo. Além desses incentivos, a ASSARI também recebe incentivos da Lei Aldir Blanc de Fomento à Cultura, lei nº 14.399, criada em 8 de julho de 2022

Para se manterem como artesãos, a Associação de Artesãos de Imperatriz, a ASSARI, disponibiliza a carteira que homologa a pessoa física como artesão. Isso ocorre por meio do Programa do Artesanato Brasileiro, o PAG, criado em 21 de março de 1991 e hoje em dia desenvolve ações para a valorização do artesanato brasileiro por meio de políticas públicas. E uma delas é essa: o reconhecimento do artesão como profissional, por meio da Carteirinha do Artesão. Dessa forma, o artista pode apresentar suas obras em qualquer lugar do país, sem impedimentos para comprová-lo como artesão.

Isso é importante pois o Centro de Artesanato recebe muitos convites para participações em feiras e eventos na cidade, e a Carteirinha ajuda a identificar o artesão. Lucilene dos Santos Lucena, vice-presidente da ASSARI e do Centro de Artesanato, relata a participações em feiras com patrocínios de empresas privadas e conta ainda que o PAG arca com os custos de viagens nacionais “Participamos anualmente da FECOIMP, com patrocínio da Equatorial, feiras nacionais em Brasília, Recife e São Paulo, entre outras feiras na região tocantina.”

O fuxico de Maria de Fátima

Dona Maria em seu box chamado Fatoca Ateliê, no Centro de Artesanato de Imperatriz. Foto: Gabriel Jordan

Maria de Fátima Pereira Silva está há três anos no Centro de Artesanato de Imperatriz, e foi através do seu filho e nora que descobriram o centro enquanto faziam uma compra. Lá perceberam que seria benéfico para ela, pois Maria estava em crise emocional e pesava 90,6 kg na época. Foi aí que o filho alugou o espaço e pagou o primeiro mês, incentivando-a a entrar.

O amor pelo artesanato surgiu desde a infância, enquanto observava suas irmãs trabalharem com fuxico e crochê, despertando assim sua admiração por essas artes. “Eu lembro que naquele tempo, não era assim tão valorizado igual hoje, porque o fuxico era pra pobre, né. Hoje, hoje é moda, hoje é pra, pra rico. Nem todo mundo pode comprar uma peça. Mas eu já tinha esse amor”, completa.

Dona Maria confessa que entrou no artesanato por necessidade de cura emocional, após um período de divórcio e depressão. “Vindo pra cá, deixei de tomar a medicação para depressão, para os nervos. Eu sentia muita sinusite, muita dor de cabeça. Teve dia que colocava na mão treze comprimidos, e não adiantava nada, parece que cada dia só piorava. Aqui, eu não tomo mais remédio nenhum.”

O fuxico é uma técnica com raízes na época da escravidão, quando retalhos eram transformados em roupas pelas escravas. Maria utiliza retalhos doados para criar peças como: capas de almofada, roupas, bonequinhos, chaveirinhos, imãs de geladeira, lembrancinhas para bebês e festas infantis.

Maria acredita que o público de Imperatriz ainda não valoriza suficientemente o fuxico. Ela vende suas peças principalmente durante viagens, pois não tem loja on-line. Hoje ela compartilha seu trabalho no Instagram como @Fatoca_Ateliê, onde divulga peças e recebe pedidos.

O crochê e a costura de Dona Sula

Sula mostra seu “sous plat”, em português “prato de baixo”. Foto: Gabriel Jordan

Sulamita da Silva deu os primeiros passos no crochê aos oito anos de idade. O interesse pela técnica surgiu ao observar uma senhora que produzia peças com um ponto especial, hoje conhecido como ponto secreto.  Na época, não haviam aulas, ela aprendeu observando uma senhorinha na porta de casa e começou a criar peças como calcinhas de bebê, meias e saias.

Aos 11 anos, já fazia crochê para si mesma, pois foi criada sem a mãe, que morreu quando Dona Sula tinha apenas nove anos. Ela testemunhou a morte da mãe, que segurou sua mão até falecer. Após três anos, começou a costurar sozinha, depois de aulas com uma costureira próxima à sua casa.

Dona Sula revela que não deixou de costurar e fazer crochê em vários períodos da sua vida, inclusive na maternidade. “Eu criei meus filhos, eu me casei, toda vida trabalhando. Eu, de noite eu ia costurar, depois que eu largava a costura, aí eu ia pro crochê. Aí eu conciliava as duas coisas: fazer crochê e ainda criar os filhos ainda pequenos.”

Ela conta que parou de costurar profissionalmente há dois anos e hoje, realiza apenas pequenos consertos como troca de zíperes, bainhas, ajustes de roupa (aperto e folgo). Há cerca de dez anos, tornou-se associada na ASSARI e por meio da Associação, começou a receber encomendas, fazendo os trabalhos em casa e dispondo para venda no local.

Para ela, o crochê é uma terapia: mantém a mente ocupada, evita pensamentos negativos e exige atenção constante para conferir os pontos, pois se errar um ponto, o resultado final fica totalmente comprometido.

O crochê permite viajar, conversar e se distrair, sendo uma companhia e forma de socialização. Ela afirma. “Minha vida é essa, eu gosto muito de fazer crochê”.

A reutilização romântica de Flory

A artesã, ao redor de suas criações, em um de seus dois boxes. Foto: Gabriel Jordan

Flory Silva Soares é artesã há mais de quarenta anos, começando a tecer enquanto esperava o nascimento de seu único filho. Desde 2018, está no Centro de Artesanato, onde ocupa um box.

Sua principal fonte de inspiração são revistas antigas, especialmente a revista Fada do Lar. “É uma revista que vem com gráficos de crochê. É totalmente diferente dessas que tem no Facebook, no Google, porque elas são mais delicadas e românticas”. A artesã valoriza o romantismo em seus trabalhos, diferenciando-se das tendências atuais encontradas, segundo ela.

Além do crochê tradicional, ela também utiliza técnicas inovadoras com reutilização de materiais, como sementes de açaí, CDs e lacres de refrigerante, e ainda se preocupa em buscar novas referências constantemente, incorporando novos tipos de linhas e materiais que enriquecem seus produtos.

Flory admira suas artes, focando em uma toalha com uma frase bordada em inglês “I Love You”, em português, “Eu Te Amo”. Fonte: Thalisson Freitas

Para Dona Flory, fazer crochê é uma verdadeira terapia e fonte de qualidade de vida. Enquanto tece, ela esquece todos os problemas, o que proporciona bem-estar emocional e mental. Isso tudo acontece porque ela leva o seu trabalho com amor e prazer, aliado ao romantismo, sua inspiração nas suas artes.