Bruna Braz
Eu tinha entre 11 e 12 anos quando aconteceu um acidente que, até hoje, lembro com muitos detalhes. Minha tia estava dando banho no meu primo e pediu que eu ou a irmã dele buscássemos uma toalha. Como duas crianças que queriam fazer tudo primeiro, começamos a disputar quem ficaria com ela. Depois de um pequeno cabo de guerra, eu consegui pegar a toalha.
Saí correndo, toda feliz por ter “ganhado”. Só que a comemoração acabou rápido. Escorreguei e caí em um lugar onde havia cacos de vidro e pedaços de telha quebrada. O impacto foi todo no meu braço. Quando olhei, percebi que ele estava completamente torto. Naquele momento, não senti dor. O que senti foi medo. Acho que o susto foi tão grande que não consegui pensar em mais nada.
Minha tia largou meu primo na pia e veio correndo na minha direção. O que mais ficou na minha memória não foi a queda nem a ida ao hospital, mas ela gritando repetidamente: “Socorro! Socorro! Socorro!”. O curioso é que Socorro era o nome da cuidadora da sogra dela. Quando ela apareceu, estava tão nervosa quanto minha tia e ninguém parecia saber exatamente o que fazer.
Depois a ambulância chegou e fui levada ao hospital. Passei cerca de três meses com o braço engessado. Apesar do acidente, lembro desse período com certa leveza. O gesso logo ficou cheio de assinaturas e desenhos. O que começou como um grande susto acabou se transformando em uma lembrança que hoje consigo contar até com um pouco de humor.
É curioso como a memória escolhe o que guardar. Poderia dizer que a imagem do meu braço quebrado foi o que mais me marcou, mas não foi. O que nunca saiu da minha cabeça foi a voz da minha tia chamando por ajuda. Sempre que lembro desse dia, antes de qualquer imagem, é aquele “Socorro, socorro, socorro” que volta primeiro.