Violência contra a Mulher. FOTO: Gil Ferreira/Agência CNJ

Não banalize o que não é normal. Denuncie!

Nenhuma violência deve ser banalizada ou ignorada. Entre elas há violência verbal, psicológica, física e violência sexual. A diversidade dessa prática é observada principalmente nas vítimas do gênero feminino, nas relações familiares, matrimoniais, trabalhistas, em namoros, amizades e terceiros. A cada uma hora seis mulheres morrem sendo vítimas de feminicídio no mundo, de acordo com o relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) de 2017. O crime de feminicídio é caracterizado pelo homicídio (morte) de uma mulher apenas pelo fato de ser do sexo feminino, é a morte movida pelo ódio da existência dessa mulher.

É notória a visibilidade que a classe feminina vem lutando e conquistando ao longo do tempo, mas a violência contra ela é um crime que, muitas vezes, é abafado ou ocultado até pela própria vítima. Na cidade de Imperatriz-MA, até novembro de 2018, 783 ocorrências de violência foram registradas na Delegacia da Mulher, este número não contabiliza os registros dos plantões. Em média, mais de duas mulheres por dia registram a agressão no município.

A delegada responsável pela Delegacia da Mulher na cidade, Sylvianne Tenório, declara que a maioria das pessoas que sofrem agressão e vão à delegacia não querem registrar boletim de ocorrência, o desejo é que apenas conversem com o agressor para que, por meio do diálogo, haja uma tentativa de resolver o problema, não por meio da repressão, mas com reeducação, o que não é o papel da Polícia Civil. “O machismo é uma questão ‘histórica’, causando assim a violência, em que por muito tempo a mulher foi vista como subordinada do homem. Muitos homens e mulheres praticam machismo ou são vítimas dele e não sentem assim. Veem isso como normal e não deve ser assim. Então, precisa de uma reeducação.” diz a delegada.

Desde a criação da Lei Maria da Penha, a preocupação é tratar a mulher, existem centros de referência em atendimento a ela para receber ajuda psicológica, social e jurídica. Mas não existem centros para tratar o homem, o agressor. Então, após 18 anos que a lei foi criada, percebe-se no meio jurídico e social que a preocupação também deve ser com o causador da violência, não apenas a vítima, tendo como solução o tratamento da causa para, consequentemente, diminuir o problema. A questão principal hoje é a criação do centro e reeducação desse homem também. É previsto nessa mesma lei a elaboração de um centro de atendimento para o homem, para tratá-lo e reeducá-lo, mas ainda não existe efetivamente esse centro no Brasil. Com essa percepção, os órgãos públicos de vários estados que fazem parte dessa rede encarregada pela mulher já criaram, de forma independente e voluntária, grupos de atendimento ao homem.

Em Imperatriz, a Promotoria responsável em parceria com a Defensoria Pública instituiu um grupo que trabalha a situação do agressor. Nele, há duas assistentes sociais e uma psicóloga, são 10 encontros com duas horas por semana trabalhando, apenas com homens, a questão do machismo. Assim, trata-se a raiz do problema, que é quem o causa, reeducando o comportamento do mesmo.

Em qualquer indício de violência, sendo verbal, física ou sexual, em qualquer relação, a vítima deve denunciar. A denúncia pode ser feita pela mesma e até por terceiros, podendo ser anonimamente, através dos números de telefone “100”, serviço de proteção aos direitos humanos e “180”, central de atendimento à mulher. O sistema é multiportas, ou seja, há várias maneiras de realizar a denúncia, além das ligações à Delegacia da Mulher, Vara Especializada da Mulher, Ministério Público e Defensoria Pública também recebem a denúncia e trabalham com o objetivo de combater esse crime.

 

“Ninguém consegue se colocar no lugar de uma vítima de violência sexual”, diz o delegado responsável pela Delegacia da Criança e Adolescente, Fairlano Aires.

 

 

O medo é o que faz muitas pessoas abafarem o crime, mas a medida protetiva existe para preservar a vida da vítima que está numa situação de violência. Em Imperatriz tem a Casa Abrigo, onde a mulher pode ficar hospedada em segurança por um período transitório até resolver o problema; há ainda o monitoramento eletrônico, a mulher fica com um botão, um dispositivo eletrônico que ao ser apertado chama socorro imediatamente; e ainda a Patrulha Maria da Penha, funcionando na cidade há um ano. A Patrulha passa duas ou três vezes na semana na casa da vítima, fiscalizando o cumprimento dessas medidas protetivas, pra averiguar a segurança. E a novidade jurídica é que o descumprimento dessa medida agora é crime, se houver uma medida instaurada e o agressor descumprir, ele pode ser preso em flagrante só pelo fato de desobedecer a essa ordem.

Delegacia da Mulher em Imperatriz. FOTO: Paulla Monteiro.

Após a denúncia, o primeiro passo é registrar ocorrência e caso solicitado, é instaurado a medida protetiva para resguardar a mulher, protegendo sua integridade física, psicológica e patrimonial. Em 2018, houveram 562 medidas protetivas requeridas na Delegacia; e quatro feminicídios, deste número nenhuma dessas mulheres solicitaram proteção, e apenas uma registrou ocorrência. A medida protetiva é efetiva e oferece suporte à mulher.

 

Então, a mulher tem apoio. Informe-se e não se cale diante da violência. Denuncie!

 

“Denunciem desde o primeiro indício de qualquer violência, psicológica, física ou sexual, estamos aqui para combater esses agressores e ajudar a mulher. Se não denunciar é pior, porque a violência só tende a aumentar. Estamos aqui para ajudar.” — Delegada Sylvianne Tenório.

 

 

 

PARA DENUNCIAR

Imperatriz

 

Disque 180

 

Disque 100

 

 

Delegacia da Mulher

Rua Sousa Lima, 167 – centro

3525-4257

 

 

Ministério Público

Rua Piracicaba, 271 – 401,Parque Sanharol

 

 

Defensoria Pública

Avenida Getúlio Vargas, 1587 – centro

 

 

Vara Especializada da Mulher

Rua Frei Manoel Procópio – centro

3525-4689

 

 

 

 

“Mais de 87 mil mulheres foram vítimas de feminicídio em todo o mundo no ano de 2017. O número significa que seis mulheres perderam suas vidas a cada hora ao longo de todo o ano passado, conforme apontou relatório publicado neste domingo (25) pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Cerca de 58% delas foram mortas por seus companheiros, ex-maridos ou familiares, quase sempre homens.”

 

Fonte: Último Segundo – iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2018-11-26/relatorio-feminicidio-onu.html

 

 

 

 

 

“A cada dez feminicídios cometidos em 23 países da América Latina e Caribe em 2017, quatro ocorreram no Brasil. Segundo informações da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), ao menos 2.795 mulheres foram assassinadas na região, no ano passado, em razão de sua identidade de gênero. Desse total, 1.133 foram registrados no Brasil.”

 

Fonte: Último Segundo – iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2018-11-27/violencia-domestica-brasil.html

 

 

DEPOIMENTOS:

Não identificamos a autoria dos depoimentos para preservar a imagem das vítimas.

“Sofri violência psicológica e física. Tenho 19 anos. Nunca tive uma relação de muita amizade com minha mãe, sempre fui agredida, e violentada psicologicamente, quando escuta que eu era um peso, que eu não iria conseguir ser nada na vida, uma sina, uma cruz pra ela, chamada as vezes de burra, otária entre outros. Apanhei muito já, de ficar marcas no meu corpo e rosto, esse ano foi a gota d’agua. Tiveram 3 brigas que me marcam até hoje, uma neste ano, que foi a que me fez sair de casa. Não só eu que fui agredida, mas a minha irmã de 8 anos também, de ver marcar roxas, e sinais de agressão. Minha mãe já bateu no meu rosto com um chinelo, mandou eu ir embora. Fiquei em casa porque minha vó pediu, mas esse ano depois de toda agressão física, psicológica e todo sofrimento, eu resolvi sair de casa e fui pra casa da minha avó. Infelizmente minha irmã está com a minha mãe, e eu me preocupo muito se ela vai crescer como eu cresci, com tantas agressões e dificuldades. Carrego até hoje dores na alma, de cada palavra e de cada tapa. Nunca denunciei e acho que não vou, mas já pensei muito a respeito. Tem gente que sabe e me apoia. Que minha dor sirva pra alguma coisa nesse mundo. Muito obrigada por ouvir.”

“Relacionamento abusivo por quase 4 anos. A gente nunca acha que vai se meter nesse tipo de situação até se ver nesse tipo de situação. Eu perdi 14 quilos eu digo pra todo mundo que perdi por conta do estresse da OAB, mas não foi não! Ele adoeceu minha cabeça. Sempre começa com ciúmes, “não pode isso, não pode aquilo, não faz”… No começo a gente nem dá bola, só que chega uma hora que pra evitar briga a gente acaba aceitando. Namorei 3 anos e 9 meses. E sempre foi assim. WhatsApp clonado. Pneus só carro furado. Empurrões. E uma série de gritos e discurso de ódio o tempo todo. Sabe quem me ajudou? Ninguém! Eu precisei passar por um inferno pra perceber que ninguém se importa o suficiente pra ajudar alguém essa situação. Até porque são discursos óbvios “É só deixar ele”, “Tu aguenta porque quer”, “É só dizer não”, “Ah ele faz isso porque você deixa, no momento que você não deixar ele não faz mais” … O que não deixa de ser verdade. Eu tive meu carro todo ralado, meu portão quebrado. E eu só continuava com ele porque por trás disso vinha mil pedidos de desculpas. O tempo todo ouvindo todo tipo de desculpa. Enfim, só sabe o inferno que é quem passa por isso. Já me livrei. Já estou bem. Aprendi a tirar lição disso. Mas na época não foi legal não. Não denunciei e quase ninguém sabia.”

“Tenho 22 anos e a minha história começou com violência psicológica. Eu entrei em depressão, fiz muita terapia e tomei bastante remédio. O relacionamento durou cerca de 2 anos, as agressões duraram quase todo esse período, na verdade, se eu conversar com a pessoa hoje, ela vai continuar. Ele me diminuía muito, falava que estava em um curso sem futuro, que eu era sem futuro, uma inútil, preguiçosa, morta, me comparava muito com os antigos relacionamentos, dentre outros insultos que me deixaram péssima. Depois, começou as agressões físicas, quando eu não fazia o que a pessoa queria, levava beliscões, tapas, murrinhos, e ele falava que era na brincadeira. O pessoal que convivia comigo começou a estranhar as marcas em mim e eu sempre mentia dizendo que caí ou bati em algum lugar. Não contei pra ninguém. Com o passar do tempo já estava de um jeito que ele insultava na frente dos meus amigos, mas eu não escutei ninguém. Me afastei de todos os meus amigos e da minha família, porque não concordava com eles. Eu estava cega. Depois que as coisas foram piorando bastante, comecei a contar para algumas pessoas. Ele disse que só continuaria comigo e só acreditaria que um dia eu seria alguém na vida se eu fosse embora de Imperatriz, porque ele estava indo embora e queria que eu fosse junto. Então abandonei tudo aqui e fui. Fomos para Brasília e com uma semana ele arrumou uma amante.  Ele continuava me machucando, me diminuindo na frente da família dele… O ápice de tudo, quando eu realmente abri os olhos, foi no dia que eu estava desabando em lágrimas e ele cobriu meu rosto com um travesseiro e gritava comigo pra eu calar minha boca, me chamando de louca, e abafando meu choro, me sufocando. Eu fui pra casa e tentei suicídio, me pegaram no ato. Então comecei o tratamento psicológico. Eu não conseguia sair desse relacionamento doentio. Ele fez minha cabeça contra todos e eu achava que não tinha mais ninguém além dele. Por muito tempo eu achei que eu fosse a culpada de tudo que aconteceu, porque eu não abri meus olhos, mas eu tinha um sentimento enorme e isso me deixou cega. No dia em que ele me sufocou a ficha caiu, eu percebi que estava sendo vítima de violência tanto física quanto psicológica, eu percebi que meus amigos e família tinham razão. Eu só tive apoio de psicólogo e psiquiatria. Tenho muitos traumas desse relacionamento. Eu não consigo me relacionar com mais ninguém, não tenho coragem de conhecer novas pessoas, não consigo sentir nada por mais ninguém, tenho medo de passar por tudo isso de novo. Eu fiquei muito tempo sem conseguir dormir direito e comecei a beber muito, como se fosse um escape para fugir dos pensamentos… Tem um pouco mais de um ano que terminei, mas eu ainda faço terapia e tomo remédios. Eu nunca denunciei ele porque tive medo. Então, deixei abafado justamente pelo fato de as pessoas não darem ouvido e quando param para escutar nos julgam demais. Quando eu tentava contar pra alguém, eu sempre era vista como culpada, porque eles falavam que eu só continuava com isso porque eu queria, mas ninguém me escutava quando eu falava das ameaças.”

 

Autoras:

Paulla Monteiro

Evellyn Lima

Ana Letícia

Edição de Vídeo:

Helyh Gomes