O hobby como porta de entrada para o empreendedorismo feminino

Atividades antes vistas como lazer se consolidam como alternativas de geração de renda e protagonismo feminino em Imperatriz

Por Stephany Apolinario, Iago Sousa e Ana Oliveira

Atividades criativas têm se tornado uma das portas de entrada para o empreendedorismo feminino.
Foto: Sharon Becker 

O empreendedorismo e a paixão por algo, seja desenhar, trançar o cabelo de alguém ou produzir velas, em muitos casos andam lado a lado. Paixões são descobertas por um acaso ou por influência de amigos e familiares. Para algumas pessoas isso se torna um hobby, algo que gostam de fazer no seu dia a dia. 

De acordo com o economista Fernando Babilônia, essa é uma atividade muitas vezes ligada ao prazer ou até mesmo como forma de lidar com questões emocionais. “O hobby você faz quando quer, da forma que quer. Quando vira negócio, passa a ter pressão, compromisso e responsabilidade”, explica.

Apesar das mudanças que acompanham a transformação de um hobby em profissão, muitas pessoas enxergam nessa transição uma oportunidade de unir satisfação pessoal e geração de renda. O que antes era apenas uma atividade realizada no tempo livre passa a atender clientes, movimentar recursos e contribuir para a economia local. Em Imperatriz, mulheres têm encontrado nos próprios talentos um caminho para empreender, criando negócios a partir de habilidades desenvolvidas por prazer e aperfeiçoadas ao longo do tempo.

Essa vontade de empreender é muito forte na população de Imperatriz, principalmente para as mulheres. A busca por independência financeira, maior flexibilidade na rotina e a oportunidade de trabalhar com algo que realmente apreciam são alguns dos fatores que impulsionam esse movimento. Entre tranças, velas personalizadas, produtos artesanais e ilustrações em aquarela, elas decidem transformar um hobby em fonte de renda. Seja por insatisfação profissional, necessidade financeira ou pelo desejo de trabalhar com algo de que realmente gostem, muitas mulheres encontram no empreendedorismo uma oportunidade de transformar habilidades e interesses pessoais em fonte de renda e realização profissional.

Segundo dados retirados de um painel de empresas que analisa o cenário do empreendedorismo maranhense, feito pela Junta Comercial do Maranhão (Jucema), em 2026, existem um total de 44.489 empresas ativas em Imperatriz. Desse total de empreendimentos, cerca de 41% são geridos por mulheres. A pesquisa registrou que mais de 15 mil mulheres empreendem na cidade, com predominância para a faixa etária dos 30 aos 39 anos. A maioria dessas mulheres procuram, principalmente, trabalhar no setor de comércio e serviços.

Descobrindo a paixão

A trancista Luana Giovana Reis, 23 anos, decidiu investir no setor dos serviços e abrir um negócio para criar e cuidar de tranças, área fortemente ligada à cultura afro-brasileira de Imperatriz. O nome do espaço surgiu em referência à própria Luana, que era conhecida por ser distraída e viver no “mundo da lua”. O empreendimento iniciou-se em 2020 de maneira informal, mas o “Nalua”, como é conhecido hoje, só ganhou forma e começou a ser tratado e visto por Luana como empresa em 2021.

Entre os diferentes estilos de trança, a nagô é a favorita de Nalua. Foto: Luiza Cruz

“Eu fui diagnosticada com depressão em 2020, e foi nesse período que comecei a aprender a fazer trança”, revela a trancista sobre o motivo de ter entrado nessa área. Logo se tornou autodidata em aprender diferentes tipos de trança no YouTube, a mãe de Luana, observando o talento da filha, a incentivou a empreender, mas na época, investir nas tranças ainda não era uma opção. Para Luana, a trança era apenas um hobby: “No começo, eu não via como um negócio. Eu ainda pensava em seguir outro caminho.”

A capista e ilustradora de rótulos, Sharon Becker, 33 anos, optou por se distanciar do senso comum e seguir um caminho diferente, ao empreender em um nicho bastante específico e não muito popular em Imperatriz: a das ilustrações em aquarela. Ela conta que seu primeiro contato com o universo da ilustração ocorreu por um acaso, quando ainda morava em Brasília, onde trabalhava com confeitaria e fazia em 2019 o curso no Instituto Gastronômico das Américas (IGA).

Entre pincéis e aquarelas, Sharon Becker encontrou um jeito único de empreender e dar cor aos seus sonhos. Créditos: Sharon Becker

Sharon relata que, na época, já estava muito envolvida com a confeitaria, ganhando dinheiro com isso, e pretendia seguir nesse ramo com planos prontos para o futuro. No entanto, mesmo diante dessa realidade, ela optou por mudar o rumo de sua vida profissional e começou a desbravar mais o mundo da ilustração. “Eu pensei: ‘Ah, tenho esse dinheiro. Tipo, eu mereço isso, sabe?’. E aí eu entrei. Fiquei fazendo um curso de seis meses de desenho à mão. Depois mais seis de desenho digital”, diz a capista.

Seguindo os mesmos passos de Sharon, Mayane Milhomem, de 31 anos, optou por investir em uma área bem específica, a da produção de velas personalizadas e produtos artesanais. Ela conheceu esse nicho através de uma amiga e começaram a empreender juntas. “A minha amiga que veio com a ideia das velas e eu ia ficar com os banhos de ervas, escalda pés, essas coisas assim”.

Mayane aprendeu a fazer velas por meio de videoaulas no YouTube.. Foto: Mayane Milhomem 

No entanto, as amigas se separaram, mas Mayane seguiu com o negócio. Percebendo a boa receptividade do público de Imperatriz, a criadora de velas decidiu expandir o negócio e fundou a Triluna Village em 2021. “Eu foquei nas velas e eu vi que as pessoas gostavam mais das velas. Ao mesmo tempo eu sempre amei acessórios. Então, para deixar algo mais diferente, eu incluí os acessórios e deu super certo”.

Meu hobby, meu negócio

Ainda que o trabalho por hobbie seja movido pelo amor, muitas mulheres vivenciam dificuldades de se manter no mercado apenas com a renda de suas empresas, como é o caso de Sharon, que apesar de já receber um valor para se manter, admite que a parceria com o esposo é o que sustenta mais de boa parte dos gastos mensais. Enquanto Mayane precisou dar um tempo do trabalho na loja de velas artesanais para voltar ao trabalho como dentista. 

Mayane aprendeu a fazer velas por meio de videoaulas no YouTube.. Foto: Mayane Milhomem 

Mayane ainda complementa que tem vontade de ter uma única fonte de renda: “Eu tô tentando voltar de novo pra ela virar um complemento. Mas o meu objetivo, um dia, eu espero que dê certo, é ter só a Triluna como minha renda”. Sharon compartilha do mesmo sonho, de um dia viver somente das ilustrações e ter sua própria loja.

Indo em caminho diferente das outras empreendedoras, a Nalua atualmente trabalha exclusivamente no seu negócio, mas também admite que não foi fácil transformar o hobby em fonte de renda. Para ela: “O mais difícil não foi fazer trança, foi entender que aquilo era uma empresa e precisava ser administrada”.

Essa virada de chave aconteceu quando começou a ter muita demanda e já não podia mais tratar como um passatempo, pois não tinha estrutura e planejamento adequado. Tendo que aprender a controlar a agenda, organizar finanças e ter uma rotina. “Eu não tinha noção nenhuma de administração. Foi tudo do zero, aprendendo na prática”, revela a trancista.

A experiência da Luana se torna um exemplo para a explicação do economista Fernando que aponta a falta de planejamento como um dos principais desafios de quem transforma um hobby em negócio. “O erro mais comum é financeiro, é não planejar e não entender o mercado”, explica.

A Nalua atualmente possui uma funcionária, que contratou com o crescimento do negócio Foto: Luiza Cruz

Além das dificuldades técnicas, o processo também exigiu enfrentamento pessoal. Nalua relata que, no começo, lidava com insegurança e incertezas do que faria com o seu empreendimento. O seu espaço no mercado cresceu de forma muito rápida, quando ela decidiu levar o negócio para frente com um ano já tinha se tornado Microempreendedor Individual (MEI), um regime tributário criado pelo governo para quem trabalha por conta própria.

Era pouco tempo para entender como funcionava essa área de forma técnica, mas também pessoal. Acabou que a sobrecarga também marcou esse percurso. Jornadas longas e falta de limites eram comuns nos primeiros atendimentos. “Já teve época de eu começar uma trança à tarde e terminar às cinco da manhã. Eu não tinha noção do limite”, relembra.

Outro obstáculo está no próprio contexto local. Em Imperatriz, segundo ela, o incentivo ao empreendedorismo ainda é limitado, o que faz com que muitas mulheres precisem construir seus negócios praticamente sozinhas. “A gente acaba fazendo acontecer na força mesmo, porque não tem muito incentivo”, afirma. 

A vivências dessas empreendedoras reflete um cenário maior. Para o economista Fernando, ainda existe uma falta significativa de políticas públicas efetivas voltadas para pequenos negócios. “O que existe hoje ainda é muito pouco, é mais discurso do que prática”, avalia. Ele também destaca que o acesso ao crédito é um dos principais entraves: “A maior dificuldade delas hoje é o crédito”.

Mayane começou produzindo velas na cozinha de casa e hoje conta com equipamentos próprios para o trabalho.
Foto: Mayane Milhomem

Isso acaba levando a dependência de vários empregos ou a dificuldade de manter o próprio negócio, como as duas outras empreendedoras Mayane e  Sharon que estão passando por esses empecilhos. Isso reflete o cenário de escassez de incentivos públicos voltados para a economia criativa local, forçando as artistas a assumirem sozinhas o alto custo de investimento. 

Apesar dos consumidores imperatrizenses, demonstrar forte receptividade ao consumir e validar o valor afetivo dessas produções em feiras e nas redes sociais, o mercado físico da cidade ainda caminha a passos lentos se comparado à demanda do e-commerce nacional, tornando o equilíbrio financeiro o maior desafio para a manutenção e a expansão desses negócios autorais.

“Empreender no Brasil é muito difícil. Nem todo mundo consegue suportar essa pressão”, conclui o economista Fernando. Ainda assim, histórias como as de Nalua, Sharon e Mayane mostram que, mesmo diante das dificuldades, o empreendedorismo feminino segue crescendo e se reinventando em Imperatriz.