Negócios de mãe: A jornada de mulheres que sustentam um negócio e uma família ao mesmo tempo

Duas empreendedoras, duas vidas, uma realidade que ninguém anuncia no LinkedIn

Por Mateus Farias Pereira Xavier

Conheci Isabel há quase um ano, quando entrei na empresa. Apesar da minha contratação ser para ajudar na comunicação, não pude deixar de prestar atenção quando ela contava sobre sua vida, sua rotina e dificuldades. Foi o primeiro nome que veio à mente para esta abordagem mais humanizada. Conversei com ela de antemão sobre a reportagem, e ela concordou em participar.

Chego ao escritório localizado na Rua Santa Tereza, às 8h16. 14 de abril, era uma manhã nublada de quinta-feira. Estou um pouco atrasado. Abrindo a porta do escritório, me deparo com Isabel, no final do longo corredor estreito de paredes brancas. Ela está na copa, aparentemente organizando algumas coisas. De vestido branco, com flores ciano, e folhas verdes e um rabo de cavalo. Após uma curta conversa caminhamos para o corredor, em direção à saída. Em frente à porta, Isabel retira a chave do carro que estava na bolsa. Abre a porta um pouco, vê a forte chuva e comenta:

– Isso só porque eu escovei meu cabelo. – Em tom cômico

“O quê que eu digo?”

Saímos no meio do temporal e entramos no carro de Isabel, um Fiat Pálio vermelho. Acabamos nos molhando um pouco. Do lado de fora, a chuva cai, com o som abafado das gotas preenchendo ao redor. Quando o carro começa a se deslocar, peço para iniciar a conversa.

– O quê que eu digo? Eu digo que eu sou o quê? – Isabel pergunta para mim. Sem saber como se definir exatamente. Faz tantas coisas que fica difícil definir.

“Eu sou Isabel, tenho 46 anos, mãe de dois filhos, casada desde 2013, e empresária desde muito tempo. Não lembro nem de quando comecei, de empresária com CNPJ. Mas no ramo de empreendedorismo acho que desde os meus 13 anos de idade, quando eu comecei a vender meu primeiro bolo para o pessoal da escola que eu estudava, pra poder ter um dinheirinho.”

“Esse é meu primeiro caderno de receitas. Comecei a escrevê-lo na época que vendia os bolos na escola”. (Acervo da fonte)

Pela necessidade de querer comprar suas “coisinhas”, mas não ter recursos para, Isabel viu logo uma oportunidade. “Eu sempre gostei de cozinhar, muito. Desde pequena… que eu cozinho”. Vendendo bolos na escola, para alunos e professores, logo ela começou outro empreendimento: Manicure. “Eu arrumava unha dos vizinhos… Pegava um bocado de calote dos vizinhos que não me pagavam – [Risos] – Até hoje tem gente que me deve”.

“Eu vendia produtos sex shop”

Fazendo bolo, arrumando unhas. Desde sua pré-adolescência era uma menina “desenrolada”. E levou isso para frente na adolescência e início da fase adulta. “Depois dessa época.. eu comecei a vender licor… eu vendia produtos sex shop. Acho que eu fui uma das primeiras pessoas a vender esses produtos em Imperatriz. Eu vendia dentro de uma pastazinha. Saia lá de casa, Nova Imperatriz, atendendo a cidade toda. Eu saia à pé e ia até lá na UEMA”.

Quando parou com as vendas, Isabel começou a jornada CLT. Primeiro como vendedora, no centro. “Mas eu nunca gostei muito”. Trabalhar com vendas não era o forte de Isabel. Havia a dificuldade de vender algo que ela mesma não compraria, o ambiente de trabalho, pressão de colegas e superiores. Mas nunca se deixando abalar, ela buscava sempre aprender ao máximo sobre o que vendia, como forma de tentar convencer o cliente. Isabel passou pela Delle Boutique, Óticas Maia, lojas no Shopping e também uma concessionária.

– Depois de tudo isso aí eu comecei a vender cachorro-quente na porta de casa, depois do licor, depois do CLT… E meu cachorro quente era famoso!

Logomarca do empreendimento de cachorros-quentes. Vendia da porta de casa, dentro do condomínio. À esquerda Cardápio do empreendimento. (Acervo da fonte)

Na mesma época, buscando inovar, Isabel começou a oferecer mais opções. Na porta de casa ela oferecia carne na chapa, pão de queijo (que era congelado num saquinho) e guaraná da Amazônia. “Nessa época eu tava trabalhando só pra mim e tava gostando”. Ela também passou um período fazendo shows. Cantava e tocava violão, tudo profissionalmente. Tinha contrato com o Tocantins Shopping e com os flutuantes. Isso lhe rendeu um apelido que os amigos a chamam até hoje: “Bebel gogó de ouro”.

10 pounds à hora

Depois disso, uma tia da Inglaterra a chamou para trabalhar no seu salão, Beauty. Ela fez um curso de manicure no Senac e fez sua viagem para o país da rainha. Isabel pensava que iria fazer sua vida lá, mas ao chegar teve um choque. Começando pelo inglês falado que era diferente do que se aprendia escrito. Também havia problema com o visto. “Fui com visto de turista. Não podia trabalhar em outro lugar e eu fui trabalhar com a minha tia”.

À esquerda, o caminho que Isabel fazia para chegar no salão. À direita, Isabel na cidade de Windsor, próxima do salão. (Acervo da fonte)

O maior problema mesmo, era que Isabel quase não tinha trabalho como manicure, pois as clientes não requisitavam o serviço. Enquanto depilação era o que mais rendia dinheiro, ela simplesmente não recebia nada. “E eu tava ficando agoniada, porque meu dinheiro tava acabando”. Como uma pessoa “desenrolada”, isso a incomodou bastante. Começou então se virar, com faxinas e passando roupas, “coisa que eu nunca tinha feito aqui no Brasil”… “Eram 10 pounds à hora”.

Isabel detalha uma história bizarra nessas aventuras. Ela estava um dia passando roupa para um Turco, normalmente. Mas ao finalizar um cesto com roupas, ele trazia outro. Finaliza, trazia outro. Finaliza, trazia outro. O desespero começou a tomar conta, sem ela saber quando aquilo ia acabar. No final, foi um total de 4 horas em pé, passando roupa. Recebeu o dinheiro, mas também ficou com fortes dores no corpo. Não bastava isso, o homem Turco enviou diversas mensagens a Isabel, para ela fazer uma massagem nele. “Eu fiquei com muito medo… Fiquei com muito medo nesse dia, mandei até mensagem pro povo aqui no Brasil”.

Depois dessa proposta indecente, ela nunca mais voltou à casa do homem turco. Apesar da história bizarra, o período na Inglaterra foi bom, porque fez amizade com brasileiros, e, graças a essas amizades, ela conseguia fazer faxinas, panfletos para festivais, pão de queijo e coxinha. Após um tempo, ela volta para o Brasil e assume para si a venda de cachorros-quentes. “Assume”, porque a mãe tinha cuidado do negócio de pão de queijo e cachorros-quentes, durante a saída de Isabel. Ela também diz que chegou a vender brownies, com adesivo “Brownie da bel” e tabela nutricional atrás. Não lembra exatamente quando foi, mas chuta que foi após a chegada da Inglaterra.

Brownies que Isabel vendia. Eles possuíam adesivo personalizado e tabela nutricional no verso. (Acervo da fonte)

De mãe à visionária

Já noiva do marido, Isabel conseguiu um emprego, de novo no CLT, em um escritório de advocacia, com ajuda da cunhada. “Foi um dos melhores lugares que eu já trabalhei até hoje”. Nesse escritório ela fez algumas amizades, que lhe renderam boas memórias.

Em 2016, com poucos anos no escritório, ocorreu o nascimento do primeiro filho, João. Isabel teve de sair do trabalho, pois o filho é portador da síndrome de Down. “Eu preferia ficar cuidando do meu filho”. Ela precisaria focar totalmente, fazer viagens que fez para São Luís (será abordado à frente).

O marido trabalhava enquanto Isabel cuidava da casa e do filho, mas não gostava de ficar parada. Ao comprar roupas para o filho, um estalo veio em sua mente: ela viu uma oportunidade de empreender no ramo de roupa infantil. E assim surgiu a BB & Kids. “Foi quando eu comecei a vender roupa importada… eu amava, eu adorava”. Foi no momento em que abriu o CNPJ da empresa que se sentiu, consigo mesma, uma empreendedora de verdade. “Eu sempre busquei fazer o melhor daquilo que eu tô fazendo. Sempre me dediquei. Se eu vou fazer qualquer coisa, eu não faço só por fazer, eu faço com amor”. Por conta dessa dedicação, muitos conhecidos são fidelizados e compram praticamente qualquer coisa que ela vender.

Ela mesma que cuidava de tudo sozinha na BB & Kids. Fazia os vídeos, atendia aos pedidos. “Até o tecido da roupa que eu ia vender eu me preocupava”. A extrema dedicação e atenção a estes detalhes a ocupava bastante. Veio então uma segunda gravidez e o nascimento do segundo filho, Athos. A maternidade em dobro exigia mais responsabilidade, o que levou Isabel à escolha de fechar seu empreendimento BB & Kids. O encerramento oficial se deu por meio de um vídeo, postado no Instagram da empresa.

Nascimento da Cotas

Após um tempo observando o trabalho do marido, que andava sobrecarregado, Isabel teve mais um insight: “Foi quando eu comecei a perceber que ele precisava da minha ajuda”. Tecnicamente a Cotas (seu empreendimento atual) já existia, mas seu início não foi planejado, sua origem se dá separada da linha do tempo de Isabel.

A Cotas nasceu por conta de um problema no condomínio em que moravam. Foi tão grave que na época “Alguns blogs depois relataram”. “Administradora, estava cometendo crimes de calúnia. Usava um perfil falso de WhatsApp para ameaçar as pessoas”, também houve desvio de dinheiro no condomínio. A situação foi tão tensa que teve inquérito policial.

Erasmo, seu esposo, começou a estudar Direito Condominial para entender e ajudar na situação. Mas quem reuniu os condôminos para protestar contra a administradora, fazendo uma “revolução”, foi Isabel. Daí, oportunidades foram aparecendo: as pessoas de outros condomínios que também haviam sido lesadas pela administradora procuraram Erasmo para realizar assessoria jurídica, o que levou também à necessidade de fazer a cobrança, nascendo então a Cotas Gestão de Cobranças e Serviços. Depois que Isabel entrou para ajudar, Erasmo ficou na assessoria jurídica, ajudando com a esposa com algumas questões.

O nome da empresa se refere à taxa condominial, “cotas ordinárias”. De acordo com o Econodata, a empresa foi fundada em 2022, informação que Isabel complementa afirmando que a empresa existia antes, mas não tinha registro. Hoje a Cotas atende 7 condomínios, com cerca de 2 mil condôminos no total. Todos chegaram à empresa pela indicação de síndico para síndico, porque de acordo com Isabel, ela nunca foi atrás de fazer marketing, principalmente porque pela quantidade de demandas dos clientes atuais, não seria possível atender ainda mais. Se não trabalhasse com o que faz hoje, Isabel iria para o ramo alimentício, ou educação infantil, duas coisas que ama. Ainda pensa futuramente em ter outro empreendimento. “Eu sempre gostei, acho que é sangue mesmo”.

O carro para no estacionamento. Havíamos concluído nosso trajeto e chegado ao Village Jardins 2. Mas isso não interrompe nossa conversa.

Ainda dentro do carro, Isabel conta que em sua família, praticamente todo mundo é empreendedor. O irmão é dono do Fumaça, outro irmão vende Starlink (e também ajudava Isabel na época dos cachorros-quentes), uma das irmãs era empresária da Crystal Gelo. E antigamente sua mãe tinha um pequeno comércio dentro de casa. “Eu cresci dentro do comércio”. Ao questionar se o comércio dos pais possa ter incentivado o florescer desse espírito empreendedor, Isabel diz: “Acho que sim. A gente cresceu naquele meio alí do comércio, uma hora ou outra a gente atendia… Mesmo no nosso subconsciente, eu acho que sim, indiretamente…”. Após 10 minutos conversando, saímos de dentro do carro.

Entrada do Village Jardins 2, um dos condomínios que a empresa de Isabel trabalha. (Foto: Mateus Farias)

Atravessamos o estacionamento e chegamos na entrada.

– Bom dia senhores! – Isabel cumprimenta o porteiro e segurança

– Olá doutora, bom dia! – O porteiro devolve a cortesia

– Como é que estamos? – Isabel pergunta

– Bom demais. – O porteiro responde

– Tu sabe quem sou eu? – Pergunta, meio que de brincadeira

– Sei sim.

– Ahhn, pois o cabra é.. – Risos

Ela pergunta se a síndica, Thaísa, já está na área de lazer, onde seria feita a reunião. Ao atravessar o portão, constata-se que ela não estava. Questiono Isabel sobre o objetivo da reunião, para fins da matéria, Isabel diz que veio como representante da COTAS, para explicar o funcionamento de relatórios e acordos para a síndica, detalhando tudo. Como Thaísa é nova no cargo, Isabel marcou um encontro presencial para fazer estes esclarecimentos.

Lugar das coisas sem lugar

Então, damos a volta no local em busca de outra pessoa. Na parte de trás da área de lazer, há uma porta de alumínio. Entramos em uma pequena salinha, que se torna menor pela quantidade de coisas nela: uma mesinha de escritório de compensado, onde um computador e impressora em cima tomam todo o espaço. Há uma caixa de papelão ao lado da estante que chama minha atenção.

Dentro da salinha, com a caixa de papelão com “coisas que não tem lugar”, ao lado da estante. (Foto: Mateus Farias)

Andréia explica que ali antes era a cozinha. Uma porta, próxima de sua mesa, era a saída para a área de lazer. Apesar de apertado, Andréia pondera que ao menos pode ficar em paz. Depois de alguns minutos, a porta se abre, fazendo todos na sala se espremerem para poder dar espaço.

– Bom dia! – Exclama Thaísa, a síndica do Village Jardins 2. – “Eu ando a pé, gente.” – Risos

Andréia reclama para a síndica do tamanho de sua salinha, e Thaísa responde que “aí só se alugasse uma casa pra tu fazer o escritório”. Aproveitando a deixa, pergunto o que é aquela caixa com várias coisas dentro. Havia teorizado que podia ser um “achados e perdidos”, mas na verdade Thaísa diz que são “coisas que não tem lugar”. Após uma breve apresentação, saímos da salinha e voltamos para a área de lazer. Sentamos em uma das mesas, as três iniciam a conversa.

Área de lazer do Village Jardins 2. Há uma rua, por trás da piscina, que leva até as casas do condomínio. (Foto: Mateus Farias)

“Meus filhos!”

Passando do meio-dia, Isabel encerra a reunião com Andréia e Thaísa. Recolhe e guarda o notebook. Atravessamos a portaria, voltamos ao estacionamento. Isabel está preocupada com os filhos, porque pelo horário, já devia tê-los buscado no colégio. Sem saber se o marido havia pego, ela tenta ligar, mas o telefone está sem sinal. Me ofereço para fazer a ligação. Ele não atende, mas envia um emoji de dois olhos na conversa.

Entramos no carro, que está abafado e muito quente. Mandei mensagem para Erasmo, perguntando se ainda estava no escritório, ou se havia ido buscar as crianças. Responde que não foi, o que deixa Isabel sem chão, agoniada, “Eita meu Deus, meus filhos!”. Dá partida no carro e vamos em busca de seus filhos. Passamos pelo Village Jardins 1 e pelo Residencial Van Gogh.

Mas quem são os filhos de Isabel, os quais ela aparenta ter tanto cuidado?

O mais velho é João, tem 10 anos, veio fazer parte da família após 3 anos de casamento. E o mais novo é Áthos, com 3 anos, nasceu na fase em que Isabel administrava sua empresa de roupas infantis. João, o mais velho, tem síndrome de Down e alergia à proteína do leite. Já Áthos não tem alergia, mas “pra não ter dois trabalhos” Isabel faz “tudo sem leite”. Ela diz que no começo a questão da alergia era bem complicada, porque a alimentação tinha que ser feita separada. Mas depois acabaram se acostumando.

Hoje a família está adaptada para lidar com isso. Até mesmo o lanche da escola dos pequenos, Isabel que faz. Ao sair para comer fora, se atenta se tem opções que todos possam comer juntos. Isabel também não compra nada industrializado para os pequenos, tudo é caseiro. Descobriu que João possuía alergia quando ele tinha 1 ano de idade. Ele não estava ganhando peso, logo um gatilho acendeu em Isabel. Viajando de 3 em 3 meses para fazer os acompanhamentos do João. A médica encaminhou para um gastro, daí descobriram. “No começo foi muito difícil, porque o João não foi diagnosticado assim que nasceu. O João foi diagnosticado [apenas] 4 meses depois que ele nasceu”.

“Todo mundo tem deficiência”

Os médicos não perceberam, mas ao chegar em casa Isabel notou. De todo o período da suspeita, até três meses depois da confirmação, “foi angustiante” ela relata. “Primeiro a médica falava que ele não tinha [síndrome de Down]. Eu sentia que ele tinha”. A ansiedade tomava de conta, precisava saber o quanto antes para se planejar e iniciar os acompanhamentos e terapias. “Na síndrome em questão, porque tem pais que não aceitam, o meu problema já foi de querer ajudar ele”.

No primeiro mês, por meio de exames apenas físicos, a médica confirmou que “ele não tinha característica sindrômica”. Mas Isabel não se contentou com o parecer, “Coração de mãe não se engana né?”. O exame mesmo de detecção do cariótipo só foi solicitado realmente quando João possuía 3 meses de idade. O exame demorou mais um mês. João só foi ter a confirmação da síndrome com 4 meses de vida. Nessa altura do campeonato, Isabel já tinha pesquisado bastante sobre a síndrome e se preparado com antecedência, antes mesmo do resultado. E hoje é algo natural para eles “tanto que hoje a gente até esquece dessa questão da síndrome”, tratando com igualdade.

“Todo mundo tem deficiência. Todos nós temos uma. Seja cognitiva, seja física, mas todos nós temos… como diz a história, de perto ninguém é normal. Se a gente for apegar com a nossa deficiência, aquilo que a gente não é bom, a gente nem vive, nem sai de casa”

A visão que Isabel tem de deficiências no geral impacta diretamente na forma como trata do filho, confiando e acreditando que ele é capaz de ser independente. “João sempre fala ‘a mamãe, eu não consigo’, ‘você consegue’. Porque eu acredito no potencial dele. E esse é o diferencial. Porque a gente acredita muito nele… E a gente sempre bota na cabeça dele que ele consegue tudo que ele quiser. E ele consegue, no tempo dele, porque ele é super inteligente”.

Atualmente João não está fazendo terapias. Isabel conta que não pode pagar particular, pelo SUS ela não acha justo “tomar a vaga de quem não pode pagar um plano”, e as opções do plano de saúde que paga não são boas. Ela sentia que não havia progresso. Acompanhava João nas terapias e reproduzia o que aprendia em casa. Nessa época ela estava com a loja de roupas infantis, a BB & Kids. Então cuidava com cuidado de cada pedido, fazia divulgação, vídeos, organização do espaço, tarefas domésticas de casa e ainda dava seus pulos para estar presente na criação de João e Áthos. Com o tempo apertado “não valia a pena” o esforço, pois havia, para Isabel, desinteresse das psicoterapeutas. “Prefiro não ir, não perder meu tempo”. Como mãe também tem outros cuidados: não deixa os filhos sozinhos, não deixa eles brincarem na rua, ou ficar com alguém desconhecido. Busca proteger para evitar qualquer tipo de abuso no geral. “Meus filhos, eu sempre gostei de estar perto, de olhar e de cuidar”.

Na caminhada de mãe, houve alguns momentos em que Isabel abdicou do trabalho por causa dos filhos. Antes da BB & Kids, já com João crescido, ela chegou a passar algumas vezes no escritório de advocacia em que trabalhou. Perguntavam a ela “quando é que tu vai voltar”. Com saudade no peito, respondia “ah… agora não posso”.

“Sentia saudade, mas não me arrependia”. Mesmo que trabalhasse em casa, sentia saudade da rotina, de se arrumar para sair e ir rumo ao trabalho. “Aquele gosto que a mulher precisa ter, de se arrumar, de se vestir, pra poder ir pra fora”. Não se maldizendo, apenas sentia essa falta. Mas preferia muito mais os filhos. “Tudo que fiz pelo João, faria tudo novamente. Se tivesse a oportunidade de escolher, escolheria que fosse tudo exatamente igual, da mesma forma, do mesmo jeito… E se eu tivesse o segundo filho com síndrome de down pra mim seria tranquilo, ia ser de boa”.

Isabel sente por negligenciar um pouco os filhos em prol do trabalho no escritório. Gosta de educar eles, fazer atividades. Revela que sua missão é tornar a empresa mais efetiva, com um corpo de trabalho independente, para que ela tenha tempo para as crianças, acompanhar de perto. “Hoje tudo que a gente faz é pra eles”.

Estacionamos ao lado da escola em que os filhos de Isabel estudam. Ela sai do carro desesperada, “Ai meus filhos, gente. Ai Jesus Cristo…”. Cerca de 2 minutos, volta com os pimpolhos. Arruma o banco traseiro, acomoda os pequenos e coloca as mochilas no porta-malas. Entra no carro. Ela fica envergonhada por pegar os filhos um pouco após o horário. A cena demonstra que o carinho e cuidado que Isabel tem com os filhos não ficam só nas palavras. Desta forma, ela incentiva outras mães, sobretudo mães atípicas, para que vejam nos filhos as qualidades que eles carregam.

Isabel com seus filhos, Áthos (à esquerda), e João (à direita). (Acervo da fonte)

“Acreditem nos filhos… não se apeguem na deficiência. Não vejam a deficiência, e sim o potencial de cada pessoa. Todos nós temos potencial. A gente sempre tem que priorizar, e dar mais atenção ao potencial, e não a deficiência da pessoa. Assim como a vida, né? Não acho que a vida a gente deve dar ênfase nas dificuldades. Porque todo mundo tem uma dificuldade. Se ficar lamentando, a gente afasta as coisas boas de perto da gente”.

O carro para, chegamos na Rua Santa Tereza, nos despedindo e encerrando a conversa.

Desço do carro e volto para o escritório.

Bem do lado

Isabel me indica conversar com a dona do salão de beleza que fica ao lado do escritório, a Marinalva. A mulher havia chegado ao ponto há poucos meses, mas Isabel já sabia que ela também é mãe e dona do próprio negócio.

Olho através da porta de vidro, mas não vejo ninguém, provavelmente saíram para o almoço. Anoto o número que está na placa do salão e envio uma mensagem. De prontidão, a mulher me responde. Marcamos uma conversa para o dia seguinte, pela manhã.

São 9h57, algumas nuvens cobrem o céu, o clima está fresco. Ao chegar na porta do salão Mabelle, vejo que a porta de vidro está aberta. Marinalva estava ocupada organizando produtos, ao me ver, ela fala:

– Ah é você né? – Pode entrar. Eu acabei de limpar aqui.

Ela usa um “macacão curto” amarelo, sapatilhas pretas, o cabelo preto preso com mechas soltas na frente, unhas pintadas de um vermelho escuro, dois anéis dourados na mão esquerda (um no anelar e outro no médio). Atravesso a porta de vidro com adesivo amarelo e entro no cômodo, que é quase uma sala, com um sofá e poltronas pretos, um bebedouro, cadeiras acolchoadas de salão, espelho grande, estante com os produtos, e um banheiro nos fundos. Explico novamente do que se trata a reportagem. No dia anterior, por mensagem, afirmou que é tímida. E percebo agora que está um pouco acanhada. No tom de voz, na forma como fala, está contida, às vezes repetindo sílabas e rindo de nervosismo. Digo que vamos iniciar a entrevista.

“Falar o QUÊ??? KKKKKKKKK” – Uma cena que aconteceu de forma semelhante quando conversei com Isabel. Assim como ela, por ser tantas, Marinalva nunca havia pensado em se definir em uma única.

“Mas até hoje.. eu ainda tenho meus corre”

Chegando no salão pela manhã, um pouco mais cedo para abrir às 8h. Ao meio-dia ela volta para casa para preparar o almoço para a família. “Duas e meia já volto pro salão, correndo”, para daí fechar às 20h. Essa é sua rotina. Assim são todos os dias, sendo a única exceção segunda-feira, dia que ela usa para fazer “uma geral na casa”, e também “fazer aquela comidinha boa para os meus filhos”, pois durante a semana, é sempre na pressa. Depois de parar e fazer faxina em casa, agradar o paladar dos filhos e dedicar um tempinho em família, na terça-feira a rotina de trabalho inicia novamente. “Então, pra ser empreendedora, e mãe, a gente tem que correr bastante, porque não é fácil não”.

Relembrando um pouco do passado, ela diz que antes de ter filhos era mais fácil, se referindo à quantidade de tarefas que precisava desempenhar. “Antes de eu me casar, na minha casa eu era uma princesinha, não fazia nada! Só acordava pra almoçar. Tomar um banho, e ia pra a escola estudar”. Na época ela ficava em casa e não trabalhava, apenas o marido. Acordava tarde. Não precisava também fazer faxinas extensivas, porque a casa estava limpa a maior parte do tempo.

Hoje se arrepende muito porque não chegou a fazer uma faculdade. Admite que não foi por falta de aconselhamento “Minha mãe mais meu pai me deram todas as oportunidades do mundo”. Sua mãe brigava o tempo todo para que ela fizesse o ensino superior, “e eu nunca me interessei”. E poderia sim, fazer algo hoje, Marinalva diz que até poderia, mas não tem mais paciência. “E eu sempre assim… flutuando” — ela faz um gesto com as mãos como bolhas no ar.

A vida cobrou e Marinalva percebeu que havia perdido muitas oportunidades “que muitas pessoas hoje querem”, só que não teve determinação de arregaçar as mangas para o estudo quando jovem.

“Aí veio o primeiro filho, o segundo, o terceiro, e as coisas foram mudando muito”

Hoje, ela anseia que os filhos passem bem longe do caminho que seguiu, incentivando-os para o estudo. Sua mais velha, de 25 anos, já é formada em pedagogia, mas Marinalva a cobra para não parar de estudar e fazer outra graduação.

Repentinamente o celular de Marinalva toca. Educadamente, ela pergunta se pode atender. Digo que sim, então ela levanta, com o celular de capinha azul nas mãos e atende a ligação.

– Oi mãe. – Ela responde. Escuta por alguns segundos

– Rapidinho viu. – Ela se vira para mim para falar – Só resolver esse negócio aqui.

“Olha aí. Eu tô aqui no salão, mas eu tô resolvendo uns corre lá de casa”. Se dividindo em duas ou até mais. Ela me conta então do que se tratava a conversa. Acontece que como é sábado, pediu ajuda da mãe (a avó das crianças) para preparar uma feijoada. Só que dessa ela não vai poder comer, pelo menos não no almoço, porque vai passar o dia todo no salão. E do salão ela coordena a operação feijoada, chegando a falar para o filho levar ingredientes que faltam em casa para a avó preparar.

“A outra eu chamei pro salão foi cedo”. Ela se refere à filha Mariana, de 17 anos. Como uma forma de ajudar a filha a ter uma independência financeira, incentiva ela em cursos de especialização, sobretudo na área da beleza, para poder trabalhar no salão. De acordo com Marinalva, a filha gosta da área. Hoje havia marcado uma cliente para a filha. “E ela tava era dormindo, e eu pelejando aqui com ela”, a mulher diz com entonação brava.

– Deixa eu ligar bem aqui pra Mariana – Ela inicia uma ligação, ainda sentada, fala curtas frases, dando continuidade à operação feijoada, mas desta vez dando missão para a filha.

– Desligou. – Ela conclui que a filha não quer fazer o que mandou.

– Deixa só eu mandar um áudio aqui – Então ela abre o WhatsApp e grava uma mensagem de voz dando instruções para Lucas, seu filho mais novo, levar alho e linguiça para a avó, que está fazendo feijoada.

“Engravidou, tinha que casar”

Morando na casa dos pais, com cerca de 17 anos, ela conheceu seu marido em um festejo. Namoraram alguns anos, mas com zero planos de casamento. “Ele tinha vontade de casar comigo, mas eu não tinha vontade de casar com ele”. Até porque ele era o primeiro namorado que ela já teve. Tudo foi por água abaixo quando, com 21 anos, ela acabou engravidando do rapaz. “O meu pai e minha mãe ainda era do tempo antigo.. Engravidou, tinha que casar”. Marinalva não queria se casar, mas foi o jeito. Implorou para o pai, “pelo amor de Deus”, mas não teve jeito. “Eu entrei na igreja morrendo de chorar”.

É perceptível que possa soar confuso abordar o namoro, casamento e eventos pessoais da vida desta mulher. Mas, para falar de seu negócio atual, é preciso contextualizar como foi o caminho das pedras para que Marinalva pudesse chegar no lugar que está hoje. Para falar de uma empreendedora, precisamos falar da mulher como pessoa, não como um dado estatístico. Pode não ser uma história “LinkedIn”, mas é um relato real.

Falando de história de superação, Marinalva tem muito orgulho da história de seu marido. Ela repete várias vezes durante a conversa como ele “saiu da roça”, fez faculdade, trabalhou como office boy e foi subindo na vida. Conseguiu dinheiro, construiu a casa dos pais. Tirou eles do interior de Santa Rosa (TO), que era “interior mesmo, de tu quebrar coco, trabalhar só na roça”, trazendo para morar em Imperatriz.

Uma moto buzina no fundo. A pessoa para na porta de vidro. Marinalva levanta. Quem está na porta é Helen, sua filha mais velha. Ela está usando um vestido tubinho branco e um rabo de cavalo. Helen senta em uma poltrona paralela à mãe.

– Essa é minha filha, a mais velha. É a causa de todos os meus casamentos – [Risos]. Ela conta animada para Helen que está sendo entrevistada, e logo volta para a operação feijoada. Explica para a filha que está pelejando com os meninos para ajudar, mas não contribuem.

Helen responde:

– Você manda e fala assim: vai agora, que eu não estou pedindo, eu estou mandando você ir. Pronto.

– Então manda bem aí – Marinalva estica a mão com o celular na direção de Helen.

– Eu não sou mãe dele, você é mãe dele – Helen responde.

Marinalva volta para mim – Tá vendo como é as coisas? [Risos].

Ela abre o WhatsApp e começa a gravar um áudio para o filho mais novo. “Lucas, você já foi levar as coisas para a mãe? Viu, eu não tô mandando não, eu estou pedindo!” Helen fica confusa, começa a rir baixinho. Me intrometo na conversa e digo que ela falou ao contrário. Marinalva gargalha.

– Ah, é? KKKKKKKKK – Todo mundo na sala sorri.

Ela abre o chat de novo e grava outro áudio.

– EU ESTOU PEDINDO, VIU? EU NÃO ESTOU MANDANDO!

– Foi o contrário de novo! – Digo, sem conseguir controlar o riso.

– AH – [Suspiro] – Deixa pra lá, ele entendeu – [Risos]

“Foi muita briga, muita confusão… ainda teve traição. Se tem ainda, eu não sei, nem quero saber, nem vou atrás. Eu não vou morrer, e não vou dar jeito”. Helen a interrompe:

– Mulher como é que tu sabe dessas coisas? Tu foi procurar saber?

– Era do meu tempo. Naquele tempo eu descobri foi tudo!

– Menino! Vai conte, que eu quero saber disso agora! – Exclama Helen.

“Porque eu pensava que eu era a única do meu marido”.

“Era um inferno naquele salão”

Com o ocorrido, foi às ruas procurar emprego, buscando independência. Acabou rejeitada em todas as tentativas. Só que um sobrinho seu viu a situação crítica em que ela estava, e conseguiu convencer um salão em que trabalhava a contratar Marinalva. Dando assim início ao seu primeiro emprego no ramo.

Acontece que ela não tinha experiência na área. Queria aprender, mas as colegas se recusavam a ensinar. Sofreu bastante no ambiente de trabalho, por conta do nervosismo e desavenças entre as funcionárias. Às vezes, ficava “calada, triste, chorando, sentada no sofá da recepção”. Mas as coisas não começaram a dar certo ainda, porque ela foi demitida. “Era um inferno naquele salão”. Como já tinha experiência, conseguiu trabalhar em outros nos anos seguintes. Aprimorando-se cada vez mais com a prática e com cursos de sobrancelha e depilação. Com o tempo ela aceitou as dores e focou no seu trabalho. No último lugar que Marinalva passou exercia multifunções: atendia, agendava, administrava, fazia limpeza, mantinha tudo organizado.

Toda essa cronologia leva ao início, do início, do seu empreendimento: o esposo viu seu empenho e ajudou a montar o primeiro salão. Comprou para ela desde os bancos até os produtos. Montou para ela. Mesmo trabalhando por conta própria, no próprio salão, houve um desentendimento: a dona do lugar que Marinalva era contratada se recusou a pagar seu tempo de serviço, acusando-a de roubar suas clientes. Porque, como Marinalva havia fidelizado uma parte da clientela, as pessoas iam atrás dela, no seu espaço.

Ela iniciou em 2018, cuidando do empreendimento e também dos três filhos que já eram nascidos. “Menino chorava, aí tinha que largar a cliente pra ver o quê que era”. Contando com o apoio da própria mãe, que ajudava com os pequenos, os filhos foram crescendo e Marinalva pôde ampliar seu negócio.

Alugou então um ponto na Rua Rio Grande, mas lá também aconteceram problemas. Um homem, querendo montar um salão para a esposa exatamente no ponto que ela ocupava, foi até a dona e ofereceu pagar muito mais dinheiro do que era cobrado.

Chegou a pandemia em 2020, o negócio ficou mais fraco com o pico de contaminações, dificultando a receita. Por pressão da proprietária, Marinalva desocupou o lugar e passou a ficar em casa, enquanto o marido questionava sua decisão, principalmente pelo negócio não ter crescido e prosperado.

“Comecei a ter crise de ansiedade”

Após “fechar” o primeiro salão, ela passou 6 meses em casa, até chegar a alugar um novo ponto, na Avenida Bernardo Sayão. Esse também tinha atrito com o proprietário, que cobrava juros altos. “Eu tava pra enlouquecer, comecei a ter crise de ansiedade, eu não dormia”. Tomou a decisão de sair. Mas o marido bateu o pé e disse que não iria ajudar, “pra ele me ajudar a pagar um aluguel, eu tenho que implorar”. Negociou para ficar no ponto até dezembro de 2025, enquanto se programava para mudar. Procurando despretensiosamente, acabou achando o espaço que ocupa atualmente na Rua Santa Tereza, ao lado da Cotas, empresa de Isabel.

Pergunto se ela gostaria de ter outro empreendimento à parte, ou já teve outro no passado. Nunca teve, mas já pensou em empreender com uma loja de roupas. Nunca levou a ideia para frente, porque precisaria se especializar e estudar o mercado. Também existem pendências que precisam ser resolvidas dentro do salão, como o quadro de funcionários: não possui quem faça sobrancelhas e unhas. “Aí eu faço minhas coisas aqui sozinha. Mas eu penso que um dia Deus vai mandar outra pessoa”. Sua filha do meio, Mariana, ajuda fazendo as maquiagens. “Hoje eu arrumei uma cliente pra ela, não sei ela vai vir”. No geral, ela pensa também em se aprimorar com outros cursos, como de corte e barbeiro, porque observa que a demanda é grande no setor.

Cuidando dos filhos e do salão, Marinalva acredita que a maternidade ajudou a ter mais responsabilidade para gerir seu próprio negócio, “isso aqui não é um brinquedo, é uma coisa séria”. Contando, claro, com a ajuda dos próprios filhos — Helen, a mais velha, cuidava dos mais novos — e da avó, “a rede de apoio da minha mãe, era minha avó”. Sem perceber, foram três gerações de mulheres, cuidando uma da outra.

Pergunto qual o significado do nome do salão, Mabelle. Marinalva não sabia, mas tinha certeza que era algo bom, porque o marido havia escolhido. Vê como muito bonito por se assemelhar um pouco com seu nome. Ma-be-lle. Ma-rinalva Be-zerra.

“O rapaz fez essa placa amarela, mas eu não gostei, porque a minha cor é rosa”. (Foto: Mateus Farias)

Helen pesquisa rapidamente a definição de Mabelle. O nome vem de uma expressão em francês, um termo carinhoso, que pode ser traduzido para “Minha Bela”, ou “Minha Linda”. Outras interpretações também sugerem algo próximo de “Meu Bem” ou apenas “Gata”. Mabelle é um nome cobiçado, inclusive. Uma amiga de Marinalva queria montar um salão com o nome parecido, por achar muito bonito. Pediu autorização para Marinalva, que perguntou como seria o nome, já que era parecido, uma inspiração… e… seria Mabella. Mudaria apenas uma letra. Marinalva autorizou.

“Tem que trabalhar com a cabeça”

Com toda grande parte de sua jornada de luta exposta, ainda hoje, Marinalva batalha diariamente. Do início do seu primeiro emprego em um salão, após a briga com o marido, até o seu empreendimento hoje, foi uma jornada longa e difícil. Cuidando de três crianças, precisando aprender muitas coisas “na marra”, fazer escolhas difíceis, ela conclui que ser empreendedora é libertador, mas uma tarefa árdua.

“Depois que a gente começa a trabalhar pra gente… fica com mais responsabilidade… tem o dinheirinho da gente, não precisa estar aguentando mais desaforo de patrão. Mas, precisa saber trabalhar com a cabeça também. Organizar tudo direitinho com responsabilidade também.. Porque também não é fácil, mas é muito bom… Eu já pensei mil vezes,,, quando eu tô aperriada, apertada, sem saber o que fazer… arrumar um emprego pra trabalhar com outra pessoa. Aí eu não vou ter aluguel pra pagar, não vou ter despesa. Mas, é aí quando eu penso: ‘meu deus, tudo de novo?’. Então assim… quem tem vontade mesmo de abrir seu próprio negócio, não é ruim, mas tem que trabalhar com responsabilidade também… tem que trabalhar com a cabeça”.

O retrato de um país

As histórias de Isabel e Marinalva não são casos isolados. Em 2024, o empreendedorismo feminino no Brasil atingiu um recorde histórico: 10,35 milhões de mulheres donas de negócio, segundo levantamento do Sebrae e da Fundação Getúlio Vargas. Um número que cresce a cada ano, mas que ainda esconde desigualdades profundas.

Apesar do crescimento, as mulheres empreendedoras ganham em média 24,4% menos do que os homens no mesmo setor. E fora do trabalho, a conta não fecha de forma diferente: 60% das mulheres donas de negócio são responsáveis pela maior parte das tarefas domésticas, enquanto entre os homens esse índice cai para 23%. Ou seja, empreender, para elas, quase nunca significa abrir mão da segunda jornada em casa. É nesse contexto que Isabel acorda cedo para levar os filhos e fechar negócios no mesmo dia. E que Marinalva coordena as atividades de casa direto do salão, entre um cliente e outro, porque ninguém vai fazer isso por ela.

O tempo não para

As histórias dessas empreendedoras não acabam como as fábulas da Disney. Não tem um final mágico e feliz. A luta é diária, constante. Cada dia elas precisam conciliar os deveres do trabalho, a maternidade e o simples fato de serem mulheres. Muitos coisas ruins acontecem, sapos que precisam ser engolidos, cicatrizes que escondem. Em um determinado ponto, aceitam que eventualmente, coisas complicadas acontecem, e seguem trabalhando. Como um filósofo dizia, “a alma guarda o que a mente tem que esquecer”. Suas histórias, seu passado, refletem diretamente no seu negócio nos dias de hoje. Porque fazem parte das mulheres que são. E refletem sua essência, sua humanidade. Não números num papel ou computador, mas o ser de carne que está por trás de tudo.