“Não pensei que chegaria a tanto”: Entrevista com o proprietário do complexo Pedra Caída

Repórteres: Betânia Silva, Kelvia Leite e Yasmim Araújo

Fotos: : Betânia Silva

Pedro Iran do Espírito Santo nasceu em 21 de junho de 1942, em Filadélfia, cidade que à época pertencia ao estado de Goiás e que atualmente integra o Tocantins. Filho dos pequenos agricultores Pedro do Espírito Santo e Raimunda Pereira do Espírito Santo, teve uma história marcada por um episódio curioso logo após o nascimento: seu primeiro banho foi dado com água e algumas moedas, em uma tradição familiar que simbolizava prosperidade e boa sorte para o futuro.

Desde a infância, Pedro Iran ajudou a família nas atividades rurais e na venda de leite em Carolina. Aos 11 anos, atravessava diariamente o Rio Tocantins em uma canoa para comercializar a produção da família. A rotina intensa de trabalho fez com que estudasse apenas até a 4ª série do ensino primário, mas não impediu que construísse uma trajetória de sucesso no mundo dos negócios.

Ao longo dos anos, consolidou-se como empresário no setor de transportes, tornando-se presidente do Grupo Pipes, com atuação em diversos estados brasileiros. Com o crescimento dos negócios, ampliou seus investimentos para outras áreas, como a indústria, hotelaria e turismo, mantendo forte ligação com Carolina, município onde desenvolveu grande parte de seus empreendimentos.

Um dos investimentos de maior destaque foi o Complexo Pedra Caída, localizado a cerca de 36 quilômetros do centro de Carolina, na região da Chapada das Mesas. O empreendimento se tornou um dos principais atrativos turísticos do Maranhão, reunindo cachoeiras, trilhas e atividades voltadas ao ecoturismo e ao turismo de aventura.

Atualmente, o complexo possui cerca de 12.600 hectares destinados ao turismo de natureza, com 25 cachoeiras e 8 riachos. A estrutura conta com 322 leitos, sendo 7 reservados para emergências, além de uma equipe formada por 13 líderes de trilha e 5 guias credenciados. Todos os anos, o local recebe mais de 230 excursões e ultrapassa a marca de 1 milhão de visitantes.

Nesta entrevista, Pedro Iran fala sobre sua trajetória de vida, desde a infância simples no interior até a construção de um grupo empresarial de alcance nacional, além de abordar os impactos do turismo no desenvolvimento econômico e social de Carolina e da região da Chapada das Mesas.

“Eu não pensei que chegaria a tanto”

Kelvia Leite: Como surgiu a ideia de investir na Pedra Caída e transformar em um ponto turístico?

Pedro Iran: Aquilo foi o seguinte, quando eu estava prefeito de Filadélfia, o João Odolfo tava prefeito aqui em Carolina. Então, o João Odolfo teve essa vontade de fazer Carolina uma cidade turística. Eu até falei para ele: “Olha, aqui vai ser difícil, porque aqui não tem estrutura”. Aí chegou o que era dono de lá, da Pedra Caída, e ele já tinha começado. Ele chegou e me pediu para comprar aquilo dele. No início, eu até não quis. Depois eu pensei: “Não, vou ajudar a região”, e aí comprei e comecei a trabalhar lá. A gente nunca termina, melhorando, né? Tem mais de 15 anos que nós tamo lá.

KL: Quando o senhor comprou a Pedra Caída, já era esse nome?

PI: Ela já tinha esse nome, Pedra Caída, advindo daquele riacho, do santuário, porque, se você for lá no cânion, você vê um monte de pedras caída lá.

Yasmim Araujo: Hoje a Pedra Caída recebe aproximadamente 1 milhão de visitantes. O senhor imaginava que o empreendimento alcançaria esses números quando começou o projeto?

PI: Olha, eu não pensava tanto nisso. Eu não pensei que chegaria a tanto, mas eu gosto muito da parte espiritual, né? E eu fui a uma senhora, quando comecei, lá em Goiânia e perguntei se aquilo ia dar certo. E ela olhou lá e disse: “lá vai virar o maior auê”. E está acontecendo, né?.

Betânia Silva: Inspirada na Pirâmide do Louvre e localizada a aproximadamente 400 metros de altitude, a pirâmide é uma das estruturas que mais chamam a atenção de quem chega aqui. Como surgiu a ideia de construí-la?

PI: A pirâmide, aquilo é uma coisa, um lugar que a gente preparou para as pessoas fazerem meditações. A gente faz um círculo, tem um cristal lá em cima, e a pessoa pede o que ela quer, para se livrar do que é ruim, e Deus dá a ela o que é bom. Aí, depois, ela volta e agradece.

“A Pedra Caída, talvez vá colocar mais duas aeronaves daquelas, porque o povo gosta de novidade”

YA: A pirâmide com certeza é um dos cartões postais das Chapada das Mesas, mas o que o senhor acha que diferencia a Pedra Caída dos outros locais?

PI: Olha, todo Maranhão tem pontos turísticos, mas é só um, aqui tem vários, várias opções. Aqui chegam vários ônibus, de todos os lugares. É um lugar confiável para os visitantes e com muita estrutura. Lá, vai ser muito bem atendido, vai passear, vestir bem e comer bem.

BS: E qual foi o maior desafio que o senhor encontrou para transformar a pedra Caída em um lugar turístico?

PI: Olha, tudo foi difícil. Aquele teleférico é caríssimo, e não é qualquer um que faz um negócio daquele. É um dos mais caros e difíceis até para manter. E teve aquela pedra lá em cima, toda de vidro, né? A pirâmide, aquela estrutura que tem lá. Acho que vocês nunca subiram lá, né? Vocês vão ver que é importante. E hoje também tem esse horror de trilha para o povo num pisar no mato pra visitar as cachoeiras. Então, tudo foi difícil. Como eu digo, o duro não é ter, é manter. Nós só tocamos melhor devido à grande estrutura que nós temos aqui na cidade. Aqui tem a cerâmica, serraria, carpintaria, marcenaria e a parte mecânica aqui da oficina, fora os carros correndo para lá e pra cá. Tem o escritório aqui também, tem a contabilidade, o jurídico. É um bloco de gente. O bom, que eu acho, é que tá dando emprego. É quase 2 mil empregos em uma região carente dessa.

BS: Além das atrações já conhecidas, a Pedra Caída agora está investindo em uma novidade bastante diferente: um Boeing 727 transformado em hospedagem. Como vai funcionar esse projeto?

PI: A gente que inventa essas doiduras, né? Aquilo, com o tempo, a natureza, o conhecimento, tudo faz com que a gente chegue em algum lugar. Eu considero que o homem evolui em tudo que faz, se fizer com amor. Então, cada um tem que ser bom no que faz. A Pedra Caída, por enquanto, talvez vá colocar mais duas aeronaves daquelas, porque o povo gosta de novidade, né? Quer saber de ver coisa e fazer coisa diferente, e precisa a gente ter essas criatividade

YA: Qual o ponto turístico que o povo mais quer ir?

PI: Olha, em primeiro lugar, o Santuário, cerca de 90 mil por ano, mas todas têm seu brilho, sua beleza, sua vantagem. Nenhuma é igual à outra, é uma diversidade.

KL: A cachoeira do Santuário, ela está ligada a esse lado espiritual também?

PI: A cachoeira lava a alma das pessoas. Eu tinha um amigo que encontrei com ele, e ele tava magro, porque tava há 6 meses sem dormir. Aí, uns 10 dias depois, eu vi ele nas piscinas da Pedra Caída, pedindo pra ir nas cachoeiras, e foi lá. Vim embora e, no outro dia, liguei cedo pra ele. E ele gostou até demais. Perguntei se ele tinha dormido. “Só a noite inteira”, ele respondeu. A cachoeira lavou a alma dele.