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Escola Pedro Ferreira nasceu da caminhada de uma professora

Casal de moradores doou terreno no bairro JK para a construção da unidade

Sarah Bianca

Antes de ganhar 10 salas de aula, corpo de professores e capacidade para mais de 900 alunos, a Escola Municipal Pedro Ferreira Alencar foi, primeiro, um terreno vazio no bairro JK, em Imperatriz. Reconstruída após ser atingida por uma enchente 2014, a unidade reabriu em 26 de janeiro de 2024, com 10 salas de aula, biblioteca, laboratório de robótica e quadra coberta, passando a atender também parte da demanda de escolas vizinhas.

Mas a história começou décadas antes, quando uma professora recém-chegada à cidade passou a caminhar quase todos os dias por aquele pedaço de terra, sem imaginar que ali nasceria uma das escolas mais lembradas da região. A trajetória, reconstruída a partir de relatos da comunidade, mistura memória afetiva, mobilização popular e a generosidade de um casal de moradores.

Fachada da Escola Municipal Pedro Ferreira Alencar após a reconstrução, entregue à população em 26 de janeiro de 2024. (foto: Sarah Bianca)

Maria do Socorro Reis Moura, hoje professora aposentada, lecionava em uma escola no interior do Maranhão, quando o terreno onde funcionava aquele estabelecimento de ensino foi vendido a um novo proprietário. Sem sala de aula para lecionar, ela foi transferida para Imperatriz e, enquanto aguardava uma nova colocação pela Secretaria de Educação, passou a caminhar pela região que hoje abriga o Pedro Ferreira, curiosa para entender a quem pertencia aquele terreno amplo e aparentemente esquecido no bairro JK.

Impedida de continuar na escola onde já lecionava havia anos, ela chegou a Imperatriz sem conhecer quase ninguém na cidade, e ficou hospedada de forma provisória, na casa de parentes distantes. Foram os primeiros meses de espera pela recolocação, somados às caminhadas diárias pelo bairro JK, que a aproximaram da rotina dos moradores e, principalmente, da realidade das famílias que ainda não tinham onde matricular os filhos.

Doação

Foi perguntando de casa em casa que Maria do Socorro chegou até um casal de idosos que morava em frente à Praça de Fátima: Pedro Ferreira de Alencar e sua esposa . É dele, aliás, que vem o nome que a escola carrega até hoje, uma homenagem direta ao homem que decidiu, junto da mulher, abrir mão do terreno em nome da educação do bairro. Segundo o relato da professora, o casal foi categórico ao ser procurado: recusou qualquer proposta de venda e afirmou que aquele pedaço de terra seria destinado exclusivamente à construção de uma escola.

Na época, moradores mais antigos do bairro JK contavam apenas com a estrutura improvisada de uma igreja na rua Paraíba, que funcionava como sala de aula durante a semana para dar conta da demanda de crianças em idade escolar. Era pouco diante do crescimento do bairro, e a doação do terreno surgiu como resposta direta a um problema que já incomodava famílias havia anos.

Moradores mais antigos descrevem o antigo terreno como um matagal alto, cortado por uma trilha de terra batida que ligava a Praça de Fátima às primeiras ruas do bairro JK. Não havia iluminação nem calçamento, e à noite era comum evitar passar pelo local sozinho. Foi justamente por ali, em pleno dia, que Maria do Socorro passou a caminhar quase todas as tardes, no período em que aguardava a recolocação profissional pela Secretaria de Educação.

Com o terreno garantido, Maria do Socorro levou a documentação até a Secretaria de Educação e passou a reunir outras professoras da vizinhança interessadas em uma vaga mais próxima de casa. A iniciativa somou-se à pressão de mães do bairro, que já reivindicavam uma escola havia anos junto à prefeitura, e resultou na construção não apenas do Pedro Ferreira, mas de um conjunto de escolas entregues à população na mesma época, dentro de um mesmo programa de expansão da rede municipal de ensino.

Escola Pedro Ferreira de Alencar nasceu da doação de um terreno por parte de um casal. (foto: Sarah Bianca)

Um dos momentos mais marcantes lembrados pela professora foi o dia em que ela buscou o casal em casa para que pudessem, enfim, ver a escola construída no terreno que haviam cedido. Sem condições de se deslocar sozinhos, os dois pediram apenas para acompanhar de perto a alegria de uma escola pronta. Ao chegarem ao local, emocionaram-se diante da obra, testemunhando o resultado de uma decisão tomada anos antes, quando ainda nada além de mato ocupava aquele terreno.

Com o passar dos anos, o Pedro Ferreira cresceu, passou a contar com merendeiras, zeladores e um número expressivo de alunos matriculados. Maria do Socorro não soube precisar o total exato, mas garante que a escola sempre recebeu, em suas palavras, “um bocado” de crianças do bairro e da região vizinha, consolidando-se como referência educacional na zona onde antes havia apenas um terreno vazio.

O bairro JK, onde a escola está localizada, é um dos mais antigos da periferia de Imperatriz e cresceu de forma acelerada nas últimas décadas, muitas vezes sem acompanhamento proporcional de serviços públicos. Moradores mais antigos lembram que, até meados dos anos 2000, encontrar uma vaga em escola pública perto de casa era um desafio recorrente para famílias com filhos pequenos, o que explica por que a doação do terreno por Pedro Ferreira e sua esposa foi recebida, à época, como um verdadeiro alívio para o bairro.

Enchente e reconstrução

Anos mais tarde, uma forte enchente alagou o bairro JK e atingiu diretamente a estrutura do colégio, provocando danos em paredes e no telhado. Os estragos foram suficientes para interromper o funcionamento da escola, que permaneceu desativada por cerca de 8 anos, a ponto de uma vistoria posterior da Secretaria Estadual de Educação registrar apenas o que restava da antiga estrutura.

A reconstrução só veio a se concretizar dentro de um novo programa de expansão da rede municipal de ensino de Imperatriz. A ordem de serviço para a nova edificação foi assinada em dezembro de 2022, e a Escola Municipal Pedro Ferreira Alencar, erguida do zero no mesmo terreno, na Avenida JK, no bairro Nova Imperatriz, foi entregue à população em 26 de janeiro de 2024. A nova unidade conta com 10 salas de aula, biblioteca, laboratório de robótica, quadra coberta e capacidade para mais de 900 alunos, passando a atender também parte da demanda de escolas vizinhas da região

Sala de aula da nova unidade, com estrutura ampliada e capacidade para mais de 900 alunos. (foto: assessoria Prefeitura de Imperatriz)

Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação de Imperatriz (Semed), a entrega da nova unidade do Pedro Ferreira integrou um pacote de investimentos em infraestrutura escolar iniciado em 2022, voltado a substituir prédios antigos ou danificados por unidades maiores e mais modernas. Além da reconstrução completa da escola, o projeto previu a ampliação da capacidade de matrículas na região, hoje uma das mais populosas da cidade, reduzindo a necessidade de deslocamento de crianças para bairros distantes.

Para famílias do entorno, a reabertura da escola representou uma mudança direta na rotina. É o caso de Francisca das Chagas, moradora do bairro Nova Imperatriz, que via os filhos precisarem estudar em unidades distantes de casa enquanto o Pedro Ferreira permanecia interditado. “As escolas ficavam muito longe, era difícil levar e buscar todos os dias. Agora, com o Pedro Ferreira funcionando de novo, ficou muito mais prático para deixar meu filho pertinho de casa”, afirma.

Segundo ela, antes da reabertura, era preciso acordar mais cedo e organizar o trajeto com outros pais para revezar o transporte dos filhos até bairros vizinhos, já que não havia vaga disponível em unidades mais próximas. Com o retorno do Pedro Ferreira, essa logística deixou de ser necessária, e a caminhada até a escola passou a levar poucos minutos. O relato resume o impacto sentido por diversas famílias da região, que passaram a contar novamente com uma escola dentro do próprio bairro.

História viva

Atualmente, alunos matriculados na unidade reconstruída conhecem pouco da história por trás do nome da escola. Para professores da rede municipal, resgatar esse tipo de memória, ainda viva na fala de moradores como Maria do Socorro, tem se tornado parte do próprio trabalho pedagógico, especialmente em atividades que discutem cidadania e pertencimento com as turmas do Pedro Ferreira.

Passadas mais de duas décadas desde a fundação, Maria do Socorro costuma dizer que a parte de que mais sente orgulho não é o prédio em si, mas a quantidade de famílias que, ano após ano, conseguiram matricular os filhos perto de casa. Para ela, o gesto do casal Pedro Ferreira e da esposa segue sendo lembrado por professores mais antigos do bairro como um dos poucos exemplos, na história recente de Imperatriz, em que a doação de um terreno particular deu origem a uma escola pública inteira.

Hoje, a trajetória do Pedro Ferreira de Alencar segue registrada, sobretudo, na memória de quem viveu sua fundação e de quem se beneficia de sua reconstrução. É um lembrete de que, por trás de instituições públicas consolidadas, muitas vezes existe a história de moradores comuns, um casal que doou terra, uma professora que insistiu na burocracia, mães que reivindicaram vagas, dispostos a transformar tempo e esperança em educação para o bairro.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.