Promessa feita por uma mãe deu origem a uma tradição que dura mais de três décadas
Shellry Barbosa
Na zona rural de João Lisboa, uma pequena cidade no interior do Maranhão, uma tradição movida pela fé continua escrevendo a história de uma família e da comunidade do povoado Centro dos Periquitos. Há mais de 30 anos, familiares e visitantes se reúnem todos os meses de outubro para participar da Novena de Nossa Senhora Aparecida, uma celebração que nasceu de uma promessa e se transformou em legado e é esperada ansiosamente por todos que acompanham desde o seu início. Atualmente, mais de 400 pessoas participam das atividades, são pessoas vindas não apenas do Centro dos Periquitos, mas também de comunidades vizinhas, de João Lisboa e de Imperatriz.
Apesar do nome do local remeter ao pássaro que todos conhecem por suas belas penas verdes e coloridas, a origem de Centro dos Periquitos está ligada à história de seus primeiros habitantes. Segundo relatos dos mais antigos, “Periquitos” era o sobrenome da família pioneira que chegou à região. Por sua influência no desenvolvimento da localidade, a denominação da família acabou sendo incorporada pelos moradores e permanece até hoje como marca da identidade do povoado. Foi nesse cenário rústico de interior que nasceu uma das manifestações religiosas mais importantes da região.

Tudo começou quando Maria Rocha de Oliveira, conhecida como Dona Maria, enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida. Quando seu filho Luiz, ainda criança, com mais ou menos dois anos, passava por problemas dermatológicos com coceiras na pele que não saravam por nada, dona Maria conta que um amigo e vizinho seu viajou à cidade de Aparecida e trouxe de presente para ela uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que até então ela não conhecia. Depois de alguns meses internado devido à “lepra”, como ela se refere à hanseníase e sem encontrar respostas para o sofrimento do menino, ela recorreu à fé na imagem que recebera.

Tomada pela esperança, fez uma promessa: caso o filho fosse curado, realizaria todos os anos uma reza em homenagem à santa. Emocionada, ela conta que faria a reza para Nossa Senhora Aparecida enquanto estivesse viva. Anos depois, vivendo no Maranhão e vendo Luiz com mais de 7 anos de idade já completamente recuperado, e segundo ela, já entendendo as coisas, Dona Maria decidiu cumprir o que havia prometido. Reuniu alguns vizinhos em sua pequena casa à beira da estrada e realizou o primeiro terço para Nossa Senhora. O que parecia ser apenas o pagamento de uma promessa de uma mãe aflita, acabou se transformando em uma tradição que atravessaria gerações.
Novena Comunitária
Hoje, a celebração acontece em forma de novena. Durante nove dias, as orações percorrem casas de amigos e famílias da comunidade. A cada noite, um lar diferente recebe os fiéis para momentos de oração, reflexão e convivência. A programação culmina no décimo dia, em 12 de outubro, data dedicada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Nesse dia, amigos e familiares se reúnem em uma grande celebração que marca o encerramento da novena.
A celebração e a Reza de Nossa Senhora começaram com poucos vizinhos e foi crescendo a cada ano. Silvana, uma das filhas de Dona Maria e organizadora do evento, explica que hoje em dia já é difícil manejar as novenas porque os vizinhos todos querem que sejam feitas as celebrações das nove noites em suas casas. “Mas são muito vizinhos e essa logística acaba gerando um pequeno ciúme entre os amigos, é muita gente pra pouca noite”, brinca.
Biscoitos, bolos e partilha
Entre os compromissos assumidos por Dona Maria também estava a partilha de alimentos com todos os participantes, tradição preservada até hoje. O costume também faz parte da promessa feita por Dona Maria. Desde os primeiros anos, ela se comprometeu a oferecer lanches aos presentes como forma de agradecimento pelas graças alcançadas. A promessa de Dona Maria incluía a distribuição dos biscoitos e dos bolos para quem estivesse na celebração.
A preparação começa semanas antes do evento e mobiliza familiares, amigos e voluntários. Receitas passadas entre gerações são produzidas coletivamente, transformando a cozinha em um espaço de encontro e colaboração. Mais do que alimentos, os bolos e biscoitos representam a partilha, um dos valores mais importantes cultivados pela celebração.
As doações são parte importante desse momento, pois a festa tomou grandes proporções com o passar do tempo e o volume de pessoas aumentou, sendo necessário cada vez mais ingredientes para a produção dos biscoitos e bolos. As filhas de dona Maria contam, agradecidas, que todos os anos as doações de voluntários são essenciais para que tudo aconteça da melhor forma. Além de ingredientes adquiridos com o auxílio de voluntários, organiza-se a arrecadação de um quilo de alimento não perecível por pessoa, de forma não obrigatória, para posterior doação à entidades carentes.
Histórias de fé e esperança
Ao longo de mais de três décadas, inúmeros relatos de graças alcançadas passaram a fazer parte da memória da novena, que não trouxe milagres apenas para a família de dona Maria. Entre eles está o testemunho de uma mãe que procurava pelo corpo do filho desaparecido após ter sido assassinado. Sem respostas, ela se ajoelhou e pediu ajuda a Nossa Senhora Aparecida para que lhe desse um norte para encontrá-lo. Horas depois, recebeu a notícia de que haviam encontrado, no campo da cidade, permitindo que a família realizasse o sepultamento e fizesse uma despedida digna.
Outro caso lembrado por Lúcia e Silvana, filhas de Dona Maria, é o de uma mulher que enfrentava uma grave doença renal e recebeu a recuperação que parecia impossível aos olhos dos médicos. Dona Fátima precisava de um transplante de rim para conseguir sobreviver. Então, seu marido, movido pela fé e esperança em Nossa Senhora Aparecida, pediu a ela a recuperação de sua esposa, que logo após os pedidos e orações destinadas à santa, se recuperou sem precisar de nenhum tipo de cirurgia ou novo órgão.
A família de Dona Maria também guarda memórias de superação além da que motivou o início da festa. Em 2013, Mazinho, outro filho de Dona Maria, sofreu um grave acidente de motocicleta e ouviu dos médicos que poderia perder os movimentos do braço. Dona Maria mais uma vez, revestida da fé em Nossa Senhora, pediu pela recuperação plena dele, que hoje, segue trabalhando normalmente e considera tudo isso um verdadeiro milagre.

Legado vivo
O crescimento da celebração mostra que a tradição encontrou espaço também entre as novas gerações. Filhos, netos e jovens da comunidade participam da organização, da liturgia e da divulgação do evento, garantindo a continuidade daquilo que começou com a fé de uma mãe.
Mais do que uma novena, a Reza de Nossa Senhora Aparecida tornou-se um patrimônio afetivo do Centro dos Periquitos, e por quê não dizer de João Lisboa, já que a comunidade católica da sede do município também é presente na festa, ajudando na parte litúrgica. A reza preserva memórias, fortalece laços comunitários e mantém viva a identidade de um povoado que encontrou na fé uma forma de contar sua própria história.

A cada outubro, quando as famílias se reúnem para mais uma edição da novena, não é apenas uma promessa que se renova. É a história da comunidade que continua sendo construída, unindo passado, presente e futuro sob a proteção de Nossa Senhora Aparecida.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.