Jornalista Andréa Oliveira destaca a cultura maranhense por meio de livros-reportagem

Para a escritora, falar sobre o bumba meu boi e João do Vale ajuda a preservar a cultura popular

Texto: Andréia Liarte

Fotos: Divulgação

Jornalista e escritora Andréa Oliveira divulga cultura maranhense em seus livros

Formada em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a jornalista e escritora Andréa Oliveira demonstra que é apaixonada pela cultura maranhense por meio dos seus livros João do Vale: mais coragem do que homem e Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão. “Eu só trabalho com aquilo que me toca, é um trabalho de afeto. João do Vale é uma paixão. Bumba meu boi é uma paixão’’, afirma.

Quando ainda estava no quinto período do curso de jornalismo e trabalhando no jornal O Estado do Maranhão, Andréa Oliveira resolveu investigar e contar a história de um dos maiores ícones da cultura maranhense, João do Vale. Ela relata que o compositor e cantor estava residindo novamente em Pedreiras (MA) e a intenção da pauta era investigar as impressões de um dos maiores artistas do Maranhão no momento em que retornava para a sua terra natal.  “Então eu viajei para Pedreiras e fiquei dois dias com ele lá. Aí tive essa ideia de fazer um livro-reportagem, porque era o que eu sabia fazer, era o que eu gostava de fazer. Não sabia bem como fazer, mas fui procurar entender’’, explica.

A repórter conta sobre como era a sua convivência com o artista e como foi duro para ela cobrir a sua morte. “Eu o encontro ali com 63 anos e ele me contando a história e me mostrando Pedreiras, mostrando o local onde ele nasceu. E aí vem o registro de fotos disso. E então é esse registro: eu conto a história dele, mas do final da sua vida”.

Andréa se lembra de uma frase de João do Vale que marcou aqueles dias de apuração: “‘Se eu morrer, mesmo que seja na China, eu quero que me tragam pra cá’. Aí ele brincava dizendo que ia pro lançamento. Antes de eu lançar o livro ele morreu em São Luís. Curiosamente, ele era meu objeto de trabalho. Foi uma relação de afeto e de admiração. Eu estava acompanhando como jornalista e como uma pessoa que tinha um carinho muito grande por ele’’.

Livro sobre João do Vale nasceu de contato direto com o compositor

A jornalista argumenta sobre o quanto é importante que as pessoas de todas as idades conheçam a história de João do Vale. “Eu costumo dizer que a história dele é tão tentadora, é tão fantástica, que parece inventada. Aí, quando eu tive os meus filhos, eu quis escrever a história dele para crianças’’, diz a autora sobre a versão infantil de seu perfil biográfico de João do Vale, chamado João, o menino cantador.

O verdadeiro bumba meu boi

Em 2003, quando estava fazendo a sua pós-graduação em Jornalismo Cultural na Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, Andréa relembra que o seu trabalho de conclusão de curso foi o livro-reportagem Nome aos bois – tragédia e comédia no bumba meu boi do Maranhão. “’Foi um trabalho de pesquisa muito nessa pegada desse referencial teórico. E aí eu me aprofundo mais nessa leitura de teatro grego, da própria bibliografia de pesquisadores maranhenses em cima do auto do boi e ele pega também como reportagem”, explica. Andréa Oliveira lembra que naquela época, o bumba meu boi no Maranhão tinha se transformado em um “projeto político” da então governadora Roseana Sarney. “Um marketing político, trazendo o bumba meu boi como uma peça quase publicitária. Então ela fez uma grande campanha de turismo levando pra São Paulo os cantadores e um grupo conhecido como Boi Barriga, que é um grupo parafolclórico que tematiza o bumba meu boi e outras manifestações, mas era marketing político’’.

O livro como forma de resistência

Para a jornalista, o livro-reportagem dá liberdade ao escritor, resistindo aos limites que são impostos nas mídias tradicionais. Eu acho que o livro-reportagem é pauta pessoal, sim. O jornalista que não cabe mais no jornal, que não tem mais espaço, ele vem para esse trabalho de fôlego e se dedica. E é um trabalho paralelo, porque ele precisa pagar os boletos dele. Então não dá pra parar e fazer isso, a não ser que ele entre em um edital para ser bancado. É um trabalho de guerrilha mesmo’’.

 De acordo com a escritora, falar sobre a cultura maranhense é importante, pois é uma forma de preservar manifestações culturais e lutar pelos direitos humanos. “O João do Vale é um personagem de extrema resistência, o bumba meu boi também é, porque são manifestações culturais de minorias”, acredita Andréa. Ela acrescenta que João do vale era um homem negro, nordestino e pobre, que virou um ícone nacional, mas, de uma maneira impressionante, ninguém o colocou nessa posição. “Todos os grupos que estão em risco no país estão dentro desses dois trabalhos que eu fiz e porque eu faço parte disso. Eu me enxergo dentro desse universo”.

A entrevista original com a jornalista e escritora Andréa Oliveira foi feita no contexto da pesquisa “Jornalistas Escritores de Livros-reportagem no Nordeste”, desenvolvida entre 2018 e 2020 pelo grupo de pesquisa Jornalismo de Fôlego, vinculado ao curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz. O entrevistador original foi o estudante e pesquisador João Marcos dos Santos Silva. 

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