Inclusão online: relato de universitário deficiente visual sobre o novo formato de aulas remotas.

Em ilustração, um aluno cego está em uma sala em frente a uma tela, durante aula online.

Por: Ana Letícia

Devido à Pandemia causada pelo novo Coronavírus, as aulas remotas se tornaram uma opção quase que obrigatória na educação como um todo. Nas universidades não foi diferente. Juntamente com os desafios que alunos e professores tiveram que enfrentar devido a tantas mudanças, para os alunos com deficiência o que era difícil se tornou ainda pior quando o assunto é acessibilidade na sala de aula.

Raimundo Oliveira Marques é estudante de Pedagogia, está cursando o 8° período na Universidade Federal do Maranhão – Campus Imperatriz. E relata sobre sua rotina e o que mudou com a Pandemia, agora com aulas no formato online.
Seu ingresso na universidade, e consequentemente no curso de Pedagogia, se deve principalmente pela carência que Raimundo percebeu na educação voltada para alunos com deficiência visual.

Autodidata, adquiriu conhecimentos que segundo ele, muitos de seus colegas possuem muita dificuldade em conseguir, devido à falta de materiais e profissionais especializados na educação voltada às pessoas cegas.

Logo ao chegar à Universidade, o Raimundo conta que para os professores foi um choque receber um aluno cego em suas turmas. Ele precisou, neste primeiro contato, explicar para os professores que estava chegando um aluno como outro qualquer. “O primeiro momento, o primeiro impacto que os professores tiveram era de ‘e agora? É o primeiro cego na universidade, no curso de Pedagogia! ’, eles nunca tinham se deparado nem nos corredores com uma pessoa cega e agora ter que de repente, numa turma de professores já se deparando com o momento, aquela ideia de dar aula para uma pessoa cega incluída na turma”.

Não teve facilitação. Durante as aulas presenciais, ninguém que fizesse leitura de conteúdos para ele, que no caso se trata de um profissional não regulamentado conhecido por “ledor”. Raimundo conta também que boa parte do material não é acessível, já que o leitor de tela muitas vezes não reconhece o conteúdo descrito. Então, assistia às aulas registrando tudo o que era possível, com gravador, para em casa fazer algum texto e revisar o conteúdo.

Ingresso nas aulas remotas

Para Raimundo, as aulas neste novo formato ficaram mais difíceis de acompanhar. Ele relata que as atividades aumentaram, e o tempo diminuiu. Não tendo mais uma rotina de horários, mas sim uma rotina de atividades. Até as discussões, que para ele facilitavam o aprendizado, também diminuíram, resultando em aulas mais curtas. “Acaba que o conteúdo parece ficar mais vago, mais distante de uma percepção ou de uma compreensão na totalidade. E bom, para mim, sinceramente não dá, não é legal, não é bom esse formato. Inclusive eu tive muita resistência para o fazer. E de certo modo, para manter um vínculo eu fui obrigado a aceitar, mas não estou gostando, não acho legal”, conta Marques.

O universitário afirma ainda, que em sua opinião os professores ainda não estão preparados para ter em suas salas de aula – antes presenciais, e agora remotas – um aluno com deficiência visual. “Os professores estão muito perdidos, eles já estão perdidos no uso das ferramentas, e quando se fala em acessibilidade, aí é que complica. Quando mandam mensagens não tem nenhuma descrição, é uma foto, e a pessoa cega fica sempre com lacunas naquele processo”, lamenta Raimundo.

A seguir, ele conta como as aulas presenciais são essenciais em seu aprendizado:

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