Texto resultado da oficina de Jornalismo Literário coordenada pelo professor Alexandre Maciel durante a Semana dos Calouros da UFMA 2011.

Cem anos de idade, vitalidade incrível, nunca namorou, optou por não casar. É raro encontrar alguém assim. “Gande” é o carinhoso apelido que a família da senhora Marcionilia Alves resolveu lhe dar.

Quando cheguei para encontrar a nossa personagem, logo o pequeno Gabriel, garotinho de cincos anos, correu para chamá-la. Ele voltou e disse: “Ela tá catando roupa no varal”. Maria Eunice – sua sobrinha e ao mesmo tempo filha -, por já conhecer sua tia, explicou: “Ela tá com vergonha, tá tímida, por isso tá inventando coisas para fazer e não vir”. Levou cerca de 10 minutos para ela aparecer.

Com a timidez estampada em seu rosto, ela veio ao meu encontro. Com um olhar desconfiado e uma face marcada pelo tempo, sentou ao meu lado, sem me olhar nos olhos. Fiz uma brincadeira: “Você tá tímida, com vergonha?”. Sua negativa afirmou mais ainda seu jeito desconcertado e sem graça.

Marcionilia Alves é natural de Serra Talhada, Pernambuco. Tem 1,60 de altura, corpo magro e pele negra. Vestia um vestido amarelo simples, com estampas de flores. Mora em Imperatriz há 35 anos. Chegou à cidade com toda a família de sua sobrinha, Maria Eunice Alves. Este ano, dia 1 de janeiro, fez cem anos. Não houve festa porque não tinham condições no momento. Mas, para Eunice, era o que mais queria fazer.

Durante toda sua vida viveu sempre em prol de sua família, cuidou de quatro gerações. Ajudou a criar a mãe de Maria Eunice, a própria Maria Eunice, seus filhos e netos.

A rotina de Marcionilia é como qualquer pessoa normal, não é porque tem cem anos que está impossibilitada de fazer os afazeres domésticos, inclusive lavar roupas. “Haja sabão em pó”, brinca Eunice. Acorda de cinco para seis horas da manhã. Quando todos acordam, o café já está pronto. A sobrinha insiste para que ela não faça nada em casa, mas não adianta. A companhia dela é indispensável, sempre inquieta e ao lado de todos em casa. Só dorme quando todos já estão na cama e, caso algum saia, não consegue dormir enquanto não chega. Assiste TV, embora não saiba o nome de programas e novelas.

“Até hoje ela só ficou doente uma vez, faz tempo, quando era bem jovem”, lembra a sobrinha. Dona Marcionilia sempre gozou de uma boa saúde, isso se deve ao fato de seu passado. Morava em um povoado, tudo era feito à base da força física. Buscava água na cabeça, sendo que para conseguir o líquido tinha de se cavar o chão para ter o que beber e para lavar roupas. Quando lembrava de seu passado, Marcionilia relatou algo interessante: “Uma vez fui buscar água, no caminho tinha uma vizinha que caçava conversa, eu e minha irmã pegamos ela e batemos”, sorriu tímida. E completou: “Mas foi só uns tapinhas”.

Ela tinha o hábito de ir para lugares distantes a pé, pois na época não havia transporte. Hoje, o local mais longe que comparece é na porta da rua. Ninguém consegue levá-la para fora de sua casa, outra cidade ou bairro. Ela não arreda o pé de seu lar. No imaginário de dona Marcionilia, talvez tenha medo de ficar longe de sua família, seu porto seguro. Para ela, o laço familiar é muito forte, isso faz sua visão se restringir apenas aquele mundinho, não tendo espaço para outro.

Gratidão

Marcionilia é uma senhora muito amada por sua família. Enquanto eu falava com ela, suas sobrinhas-netas e sua sobrinha-filha demonstravam amor por essa senhora tão atenciosa e amável.   

Para Auricélia Alves, “além de ser especial para nós, vamos viver a vida inteira, e não conseguiremos pagar toda a dedicação que ela tem por nós”.

“Considero ela como minha segunda mãe, sempre cuidou de mim com amor”, completou Eunice.

Auriclene Alves foi enfática: “Ela nunca teve um tempo para ela, sempre cuidou da família, acho que por isso nunca casou. Somos gratos por isso”.

A matriarca naquele lar é sinal de respeito, amor, dedicação e muitos etc.