Se me colocassem pra cantar músicas que rebaixam a imagem da mulher, essas coisas, não cantaria

Se me colocassem pra cantar músicas que rebaixam a imagem da mulher, essas coisas, não cantaria

Texto e fotos de Lianna Carolina Arraes

Breno Lima, 26 anos, atualmente um advogado, há quatro anos participou da primeira temporada do reality The Voice, apresentado na Rede Globo. Sem nunca ter estudado música, nem feito aulas de canto, ele se inscreveu no programa a pedidos de seu irmão e foi selecionado. Sua participação durou três etapas: às cegas, batalhas e apresentação ao vivo, na qual foi eliminado após ter cantado I have nothing de Whitney Houston, uma música secular, embora fosse conhecido no seu Estado pelo talento gospel.

Na verdade, Lima começou a cantar aos 10 anos e experiência com música foi toda na igreja e em apresentações da escola que estudou em Goiânia. Aos 22 anos já participando do programa onde teve a primeira experiência com apresentações em palco. Gravou um EP há cinco anos, com 13 canções gospel, porém não gostou do resultado e em 2017 pretende regravar para lançar. Antes disso é possível conferir algumas músicas no link https://soundcloud.com/brain-lima/tracks. 

Nesta entrevista ele fala sobre as experiências com o programa, sobre sua vida atualmente como advogado e revela situações dos bastidores que a televisão não mostra. Uma pena que não dê para colocar na entrevista a simpatia de Breno, que comenta sobre o programa de um jeito bem cortês e sincero.  

E para fazer sucesso nesse meio você precisa ter muito dinheiro e puxar o saco de muita gente. Eu não sei fazer isso, eu não consigo

E para fazer sucesso nesse meio você precisa ter muito dinheiro e puxar o saco de muita gente. Eu não sei fazer isso, eu não consigo

 

Imperatriz Notícias: Por que você decidiu tentar uma chance na carreira de cantor num programa de calouros?

Breno Lima: Na verdade, eu nem sabia que isso existia (risos). Meu irmão viu em uma propaganda na TV e disse com brincadeira: Breno por que tu não se inscreve? E eu pensei, vou gravar um vídeo de sacanagem. Tinha acabado de acordar, peguei a câmera, coloquei em cima da geladeira, o cabelo todo bagunçado, fui e cantei. Três dias depois me chamaram.

IN: Dentro do programa, nos bastidores, você enfrentou dificuldades ou preconceitos por ser do Maranhão?

BL: Eu sentia que a gente era meio que deixado um pouquinho de lado em algumas coisas, mas preconceito escancarado, não sentia. Tinham poucas pessoas do Nordeste na competição, eram mais do Centro-Oeste para baixo, sempre é assim. Então, é assim, não existe uma coisa escancarada, existe uma ‘coisinha’ velada. E assim, de tentarem favorecer outras pessoas e me desfavorecer, não, nunca senti.

IN: O fato de ter cantado músicas que não são do meio gospel o prejudicou?

BL: Na igreja sim, ainda hoje o pessoal da igreja pergunta se eu sou cristão mesmo. Mas não é uma coisa que se pode controlar. Então, deu probleminha, eu queria cantar gospel, mas não deixaram. Eu ia fazer o quê? Tinha que cantar. Hoje em dia, inclusive, meu repertório é basicamente todo gospel, tem algumas ‘coisinhas’ mais românticas.

IN: Em alguma fase do programa você sentiu que estava fazendo algo que feria seus princípios cristãos?

BL: Não, até porque eu sou muito chato com isso, letra, origem, de onde a música veio. Eu pesquiso, se eu não me sentisse a vontade com alguma coisa, eu não sei o que iria acontecer, eu seria eliminado, mas não cantaria. Por exemplo, se colocasse pra cantar músicas que rebaixam a imagem da mulher ou que “objetificassem”, essas coisas, não cantaria.

IN: Na apresentação ao vivo foi sua eliminação. Você acha que poderia ter feito melhor, ou, o fato de ter chegado até ali já lhe deixou satisfeito?

BL: Não, eu acho que poderia ter feito melhor sim. Na verdade, o programa inteiro eu acho que poderia ter feito melhor. Quando olho, penso: poxa eu poderia ter feito melhor.  Mas naquele dia, eu acho que poderia ter ido uma fase à frente ainda, se eu saísse na outra, eu ficaria mais feliz.

IN: Você participaria novamente do programa?

BL: Não, eu não tenho mais vontade de participar de reality nenhum, porque apesar de ser uma boa experiência, de você fazer muitos contatos, conhecer muitas pessoas, está na televisão e nesse meio geralmente há coisas que não são tão de verdade assim. Tem muita ‘coisinha’ que a gente não sabe. Por exemplo, eu não pude escolher nenhuma música que cantei, nem a da audição eu não escolhi. Mas existiam pessoas a que eram dadas essa liberdade. Isso querendo ou não é um tipo de favorecimento, mas não aconteceu só comigo, aconteceu com outros candidatos. Mas é um tipo de favorecimento que me atrapalhou.

No dia em que eu sai tinham pessoas que eram artistas melhores, mas saíram porque estavam competindo com outra pessoa mais popular ou mais bonita. Tinham muitos outros aspectos.

IN: Você foi aprovado por Carlinhos Brown e Claudia Leitte, contudo, preferiu o time Claudia.  Você em algum momento julgou essa escolha como errada?

BL: Não, porque o Carlinhos Brown é chato (risos). Eu não gosto dele. Na hora não foi nem difícil. Se ela (a Claudia Leitte), o Lulu e o Daniel tivessem virado, eu provavelmente iria com um dos dois (Lulu ou Daniel). Mas como só viraram eles dois, a Claudia (Leitte) foi a melhor opção, na minha cabeça era a única opção, na verdade.

IN: Dentro do seu time você pode relatar alguma indiferença em relação a você ser evangélico por parte dos integrantes?

BL: Nenhuma, dentro do time não. Essa diferença vinha da produção que não me deixava cantar as músicas. Mas em relação aos participantes não teve nenhum problema em momento nenhum, e olha que tinha ateus, pessoas que frequentavam a umbanda, tinham espiritas, católicos, evangélicos, tinha de todo jeito. Mas isso nunca foi um problema pra nenhum de nós, sempre nos respeitávamos muito. Se a gente quisesse fazer a nossa oração podia, tinha as pessoas que oravam, era super tranquilo, respeitando. Ninguém falava nada também.

IN: Atualmente você está trabalhando como advogado. Com essa profissão como fica o investimento na música?

BL: Eu sou uma pessoa que o grande motivo para ainda estar em Imperatriz é que eu não sei se eu conseguiria me adequar ao mercado de música como é nos modelos atualmente. O pessoal que está fazendo sucesso não sabe cantar, mas canta músicas que falam de bebidas, são agitadas e não é meu estilo. E para fazer sucesso nesse meio você precisa ter muito dinheiro e puxar o saco de muita gente. Eu não sei fazer isso, eu não consigo. E eu falo isso não só no mercado secular, mas no mercado gospel também, às vezes o mercado gospel é, inclusive, pior, às vezes tem até mais sujeira.

Hoje, minha proposta é de uma música completamente independente. Penso não em contratar uma gravadora, mas, pôr minha música no Youtube e quem quiser ouvir, ouve.  Eu vejo como hobbie, não como um trabalho. É algo que eu gosto de fazer e faço. Sou satisfeito como advogado e amo o direito.