Texto de Willian Ferreira

Fotos de Divulgação

O lutador imperatrizense de jiu-jitsu Temístocles Junior (31), é professor da arte marcial há cinco meses em Castro Verde, Portugal. “Bebê” como é conhecido, é o atual campeão do Open Internacional de Jiu-jitsu, na categoria preta e ficou em terceiro lugar no campeonato europeu em janeiro de 2016. Além de lutador, Temístocles trabalhou onze anos em departamento de crédito, tocou na noite e abandonou a faculdade de Geografia. Nesta entrevista, falou de sua paixão pelo jiu-jitsu, sua adaptação em Portugal e dos planos futuros como lutador.

"A adaptação foi difícil. Muito frio, o que dificulta na hora de executar o movimento e aquecer o corpo"

“A adaptação foi difícil. Muito frio, o que dificulta na hora de executar o movimento e aquecer o corpo”

 

  1. O que o levou a gostar de jiu-jitsu?

Alguns vídeos VHS que eu vi na época de um lutador pequeno chamado Jorge Luís Patino, um paulista que conseguia vencer caras maiores através de uma luta de contato que levava pro chão. Então eu me identifiquei muito e fui atrás dessa modalidade. Como eu não tinha dinheiro para pagar a mensalidade, me dispus a limpar o tatame antes do treino e, assim, eu consegui começar a treinar.

 

  1. Por que bebê?

(risos) Eu tinha 15 anos, meu mestre foi lá em casa pedir para me levar para competir em Açailândia, que foi minha primeira competição. Então minha irmã disse assim: “Cuidado com meu bebê, viu?!’’ Que triste, (risos)! ele olhou para mim, sorriu, então ficou, “bebê”.

 

  1. E você ganhou a luta?

Sim, apliquei uma chave de braço e ganhei. O rapaz desistiu, mas depois ele disse que não tinha desistido, então eu fui lá lutei de novo e finalizei ele de novo, com a mesma chave de braço e dessa vez eu botei mais forte.

"Eu nunca saí da minha cidade para morar em outro lugar, foi a primeira vez que eu saí em trinta anos da cidade de Imperatriz, e foi logo pra do outro lado do oceano"

“Eu nunca saí da minha cidade para morar em outro lugar, foi a primeira vez que eu saí em trinta anos da cidade de Imperatriz, e foi logo pra do outro lado do oceano”

 

  1. Quais as competições que considera importantes em sua trajetória no jiu-jitsu?

As competições mais importantes nas quais eu consegui medalhar, foi ser campeão Sul-americano pela Confederação Brasileira de Jiu-jitsu Esportivo em 2015, campeão Internacional em Brasília, e agora terceiro colocado na minha categoria no europeu.

 

  1. Qual a sua opinião quanto ao incentivo da modalidade em Imperatriz?

Eu desconheço por parte da esfera pública ou empresas privadas que possam incentivar algum projeto. O que acontece é que algum amigo empresário acaba patrocinando um atleta x ou y, mas não passa disso. Não há nenhum incentivo para a modalidade. O meu apoio, para vim para Portugal foi o quê? Amigos e família, resumindo, foi isso.

 

  1. Como os lutadores brasileiros são vistos, no cenário internacional?

Os lutadores de jiu-jitsu brasileiros são os melhores do mundo, e aqui na Europa não é diferente. Aqui em Portugal tem muito lutador de jiu-jitsu brasileiro. Já participei de outras competições aqui depois do europeu, consegui duas lutas, vitória em duas lutas com atleta mais pesado, e descobriram que eu era brasileiro. E isso realmente é forte aqui. Um lutador de jiu-jitsu brasileiro é visto como um dos melhores.

 

  1. Você foi apenas participar do campeonato europeu em Portugal?

Vim para participar do Europeu e já ficar uma temporada aqui. Eu já vim premeditado com um pessoal que já fazia jiu-jitsu aqui. Vim dar um apoio a eles. Já que sou mais graduado, sou faixa preta. Estamos fazendo um bom trabalho e já conseguimos fazer alguns campeões portugueses.

 

  1. Como surgiu essa oportunidade de trabalho em Portugal?

Esse é um detalhe interessante. A Associação Esportiva de Jiu-jitsu de Castro Verde, cidade que moro, foi criada em muito pouco tempo e tudo tramitou de uma forma bem organizada. Eu fiquei estupefato com o fato de ser tão fácil adquirir um apoio de verdade, digo financeiramente para o esporte. Achei isso bem interessante, coisa que não existe por aí, essa facilidade. Tem crianças, jovens, turma de mulheres e os adultos. Os adultos aqui treinam para competir. O cara tem que trabalhar, cuidar da família e tudo mais, e ele põe o quimono, treina, e quer está na competição, é interessante isso aqui da cidade, não tem tempo ruim pra eles não.

 

  1. Há cinco meses morando em Portugal, como foi a adaptação?

A adaptação foi difícil. Muito frio, o que dificulta na hora de executar o movimento e aquecer o corpo. É uma situação totalmente diferente, com a qual eu já estou acostumando. O inverno que fez aqui em janeiro, dizem eles, não foi rigoroso e fico imaginando como é que é no inverno rigoroso (risos). Mas eu já estou mais adaptado e janeiro do ano que vem acredito que eu já possa me sair melhor em temos de desempenho do corpo.

 

  1. Como foi a reação de sua família, com essa nova realidade?

Eu nunca saí da minha cidade para morar em outro lugar, foi a primeira vez que eu saí em trinta anos da cidade de Imperatriz, e foi logo pra do outro lado do oceano. Eu tenho um filho de cinco anos e uma “namorida”. A saudade é muito grande, mas sei onde que eu quero chegar, e eu sei do amor que eu tenho por eles, que é recíproco. Baseado nisso a gente consegue suportar essa saudade, a ausência, enfim. Minha família super me apoia, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs e são minha base.

 

  1. Está se preparando para outro campeonato?

O meu foco principal para a próxima competição é o europeu de janeiro, aqui em Lisboa. Vou contar com um fator positivo de ter me adaptado melhor ao clima, porém eu não vou está treinando com os brasileiros da minha cidade, que são os melhores para treinar. Mas vou trabalhar mais a parte física e não deixo de trabalhar a parte técnica também, repetindo o movimento até ficar automático. O meu grande objetivo é o europeu de janeiro e, quem sabe, o mundial na Califórnia, Estados Unidos no meio do ano que vem, pela International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF).

  1. Que mensagem deixa a família, amigos, e companheiros do jiu-jitsu de Imperatriz?

O recado que eu quero dar aí pra galera, meus amigos, minha família: pelo amor de Deus, manda dentro de uma caixa aí algumas marmitas de panelada, (risos) pelo amor de Deus!