Texto: João Marcos dos Santos Silva

Fotos- Arquivo pessoal do entrevistado

“A gente consegue encarar uma altitude dessas porque você está seguro, está com o paraquedas nas costas”

Dizem que o homem sempre teve o desejo de voar, de ser como os pássaros. Ícaro, personagem da mitologia grega, falhou ao usar asas de cera para alçar voo. Hoje, os homens usam paraquedas de nylon leve, mas resistente. É como voar. Da subida no avião até o pouso em terra firme se passam minutos de liberdade e adrenalina. O paraquedismo é um esporte carregado de emoção. Apesar de parecer novo, o primeiro salto foi registrado no ano de 1797 em Londres, porém pensado por Leonardo da Vinci mais de trezentos anos antes. No Brasil, Charles Astor desbravou os céus brasileiros em 1931, sendo um grande incentivador do esporte no país. Em Imperatriz, Antônio Alves de Aguiar Filho, de 43 anos é empresário na área de sistemas e praticante assíduo do paraquedismo desde 1997. Natural da capital ludovicense, São Luís, Toni Aguiar, como prefere ser chamado, já saltou 537 vezes. Sendo que neste ano de 2018, quebrou um recorde de maior formação em queda livre no estado do Pará, no qual saltaram 15 atletas, quebrando o recorde anterior de 12 paraquedistas.

Filho é instrutor e ministra cursos que habilitam seus alunos a se tornarem paraquedistas profissionais, tudo regulamentado pela Confederação Brasileira de Paraquedismo (CBPq). Nele, os aspirantes a paraquedistas aprendem noções sobre meteorologia, a manusear os equipamentos e o modo de como agir em uma emergência no ar. Além disso, ele é também piloto de voo livre, o que lhe proporciona a oportunidade de saltar nos mais diversos lugares, como João Pessoa, Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará, mas reconhece que Imperatriz é ideal para a prática do esporte. Nesta entrevista, ele fala um pouco sobre como o esporte é intenso e o quanto ainda é esquecido aqui na cidade de Imperatriz, mesmo tendo um espaço privilegiado para a prática.  Ótimo texto de apresentação. Parabéns.

Imperatriz Notícias – Você começou no paraquedismo como hobby?

Antônio Alves de Aguiar Filho – Paraquedismo é um esporte muito empolgante cara, muito empolgante mesmo. Então, tem duas situações que podem acontecer quando alguém experimenta o primeiro salto: uma que ele pode nunca mais querer passar perto de avião (risos) e a outra é se engajar. Então, me apaixonei pelo esporte. E é assim: você vai trabalhando o esporte e vai se empolgando, fazendo modalidades. É um esporte que tem trocentas modalidades e você não consegue parar. Não é um salto que você vai subir na aeronave e dizer: “Que salto monótono. Já fiz isso outras vezes”. Não, cada salto é um salto, é uma adrenalina diferente, é uma situação diferenciada. Então, isso vai te empolgando, fazendo com que você permaneça dentro do esporte. Show de bola.

IN – E como você disse, todo salto é um salto. Você já passou algum perigo ao saltar?

A.A.A.F. – Não. Estou com 537 saltos e ao longo deles nunca tive nenhum tipo de problema. Nunca tive uma pane, uma anormalidade. Nada. Claro, que para você ter essa segurança você tem que respeitar muito o esporte. Uma coisa que eu costumo sempre dizer, é que a gente dificilmente vai se machucar porque morremos de medo.

IN – O maior impacto é a questão da altura. Você já teve medo de altura?

A.A.A.F. – Não, porque não tem nada a ver. Por exemplo: eu não tenho medo de saltar 10 mil pés [mais de 3 mil metros de altitude], mas tenho medo de subir em um prédio de duzentos metros (risos). A verdade é quando você se vê em uma certa altura sem paraquedas, já fica trêmulo (risos). O paraquedas é o porto seguro, porque no paraquedismo você pode pensar: “Quanto mais baixo menos medo”, não. Quanto mais baixo mais medo. No paraquedismo é quanto mais alto melhor. Você tem mais tempo para voar, para abrir o paraquedas e se você tiver alguma anormalidade, tem tempo para saná-la. A gente consegue encarar uma altitude dessas porque você está seguro, está com o paraquedas nas costas.

IN – Então o esporte é totalmente seguro?

“E o ser humano é assim: enquanto ele está tendo adrenalina, quando não, começa a inventar coisas que se tornam mais arriscadas para sentir adrenalina.”

A.A.A.F. – Muito seguro. Então, não pense só porque estou lá em cima que vou saltar com o meu paraquedas e que eu não estou com medo. A diferença minha para você é que eu já sou capaz. Eu sou formado, sei conviver com aquilo. O medo te impõe limites. Nunca perdi. Eu sempre costumo dizer para as pessoas que estão se formando [no curso de paraquedismo] é que nunca percam o medo, porque no dia que ele perder, é hora de parar. O perigo mora aí. Você começa a perder o respeito, você não sente mais a mesma adrenalina. E o ser humano é assim: enquanto ele está tendo adrenalina, tá tem medo, quando não, começa a inventar coisas que se tornam mais arriscadas para sentir adrenalina. Você vai tornando a área de segurança em risco. É bom estar com medo.

“cada salto é um salto, é uma adrenalina diferente, é uma situação diferenciada”

IN – Imperatriz é um bom lugar para saltar?

A.A.A.F. – Cara, Imperatriz é uma das melhores áreas do Brasil! Esse aeroporto aqui é maravilhoso. Esplêndido! Infelizmente as pessoas ainda não se atentaram para isso. A gente vem divulgando e divulgando, mas são poucos adeptos. Lembro que cheguei aqui em 2012, e nesse ano consegui fazer a primeira turma e como tinha muita gente de fora. A turma ia de quinze a vinte alunos. Turma grande. Mas se você fosse verificar quem são as pessoas, a maioria eram de outros lugares, um ou dois eram de Imperatriz. Muito pouco. As pessoas ainda não têm o costume de praticar esportes radicais, principalmente esporte aéreo.

IN – É uma questão cultural, por que o contato que temos com o paraquedismo é bem distante, somente pela TV.

A.A.A.F. – Exatamente. Uma coisa que deve ser disseminada aos pouquinhos.

IN – Como é um esporte novo na cidade, é caro para saltar?

A.A.A.F. – A prática do esporte não é bem difundida. Então, para que aconteça aqui eu tenho que trazer avião, equipamentos, todo o staff de instrução para cá, porque na cidade não tem nada e tudo isso me gera custos, que deverão ser bancados pelas inscrições. Realmente acaba ficando um pouquinho mais caro. Mas não é diferente das outras áreas do Nordeste. O preço está compatível. Não é diferente de São Luís e Marabá, enfim, não é diferente das áreas que estão distantes dos grandes centros de paraquedismo. Infelizmente é isso. A aviação é cara. Começa desde o combustível da aeronave que aqui no Nordeste é bem mais caro.

IN – Tem uma idade mínima para começar?

A.A.A.F. – No salto duplo, a partir de 14 anos e no salto para formar paraquedista, a partir de 16 anos. Como são menores de idade, tem que ter a autorização dos pais.

IN – Quanto tempo dura um salto?

A.A.A.F. – Se você for envolver a logística da hora que você entra na aeronave, até que você pousa dá uns 35 minutos o processo todo. Mas a queda livre são 50 segundos. Ás vezes você pode pensar assim “Poxa 50 segundos é tão rápido”, mas não é. Se você for contar 1, 2, 3, você está voando a 200 km por hora e 50 segundos se torna uma vida. Demora pra caramba.

IN – Já existe um clube de paraquedismo aqui de Imperatriz?

A.A.A.F. – Nós temos um grupo de paraquedismo chamado “William Jump”. Incialmente eu estava fazendo o curso em parceria com o “Vertical Jump” também, de São Luís. Como mudei para Imperatriz, tenho que trazer toda a estrutura do “William” para cá. Mas a gente deve no próximo ano, fundar um clube na cidade.