Do papel às árvores: o Pomar Comunitário do Santa Inês

Texto e fotos: Isabella Franco

Em 2016, Ivair Roberto Bertola, 48 anos, que morava no bairro Santa Inês há três, se viu incomodado com a situação de um pequeno terreno que estava sendo usado como depósito de lixo em frente ao condomínio onde morava. Então, naquele mesmo ano, ele e sua esposa, Marla de Sousa Rosa Bertola, com a mesma idade, resolveram transformar o bairro em que moravam em um lugar mais agradável de se viver. Quando chegou o asfalto, no mesmo período, o casal iniciou o trabalho de plantar mudas de árvores que eles mesmos produziram nos 1,5 mil metros de canteiro central de toda a avenida.

Em 2017, o projeto saiu realmente do papel, mesmo com a falta de crença da comunidade e os os percalços que adiavam, de certa forma, a criação do Pomar Comunitário. Começaram a plantar árvores frutíferas na área que, agora, estava limpa, graças aos trabalhos realizados anteriormente. Instalaram cercas ao redor do pomar e todo dia, Ivair e Marla iam até o local para cuidar das árvores.

Ivair e Marla apreciam o pomar e falam sobre alegrias e frustrações

Para o casal, a maior dificuldade que presenciaram foi o egoísmo de alguns moradores. “A pessoa precisa entender que tudo isso é dela também. É preciso ter consciência que isso é uma comunidade”, disse Ivair. Foi um longo processo, mas quando a comunidade compreendeu o projeto, todos começaram a se envolver mais. Muitos ajudaram como podiam para melhorar aquele ambiente.

Mesmo depois de todos os verões quentes e as queimadas, algumas das árvores ainda sobreviveram e continuam no pomar. “A logomarca do Pomar é um raminho da Muta com a fruta”, citou Ivair. Ele explica que esta é uma árvore muito resistente, comparando ao local, que mesmo depois da ação do fogo, ainda tem solo fértil e árvores frutíferas de diversas espécies.

“Todos os móveis que estão aqui hoje foram arrecadados ou construídos por nós, com pneus velhos, produtos que iriam ser descartados que conseguimos reformar e algumas doações”, afirma Ivair. Com o objetivo de deixar o ambiente mais agradável, Ivair e Marla tiveram até mesmo que arcar com a compra de materiais e organizar bazares e rifas para investir no pomar, além de dedicar seu dia a dia ao projeto.

O Parcão, como é conhecido, começou quando foi preciso separar as crianças que frequentavam o Pomar, dos animais que também passeavam por lá. Em um outro terreno próximo, Ivair plantou mais árvores, fez obstáculos usando pneus velhos e abriu um poço para prover água para os cachorros e plantas do local. Construiu até mesmo uma piscina de areia para que os bichos pudessem brincar e se divertir no espaço.

Hoje, seis anos após o início, mesmo que Ivair tenha saído do bairro, ele e sua esposa visitam semanalmente o Pomar e o Parcão para cuidar e consertar o que é necessário. Infelizmente, algo ainda preocupa o casal.

“Nossa maior barreira foi não conseguir manter essa energia em um bairro que, infelizmente, é cercado de algumas pessoas que só estão aqui para destruir“, reclama Ivair.

Mesmo depois de tanto tempo, ainda existem aqueles que insistem em destruir o espaço construído com dedicação para que todos pudessem aproveitar.

Relações 

Apesar de tudo, os moradores que frequentam os locais dizem que a criação do Pomar e do Parcão fez uma grande diferença no bairro, trazendo diversos benefícios. “Aqui no pomar, eu conheci várias amigas que mantenho contato até hoje. Foi ótimo, porque eu tinha acabado de me mudar e já consegui me adaptar”, afirma a engenheira ambiental Fernanda, de 30 anos.

Área do Pomar do Santa Inês ganhou iluminação pública recente

Carla Campos, de 37 anos, que além de mãe, também possui um cachorrinho, frequenta o Parcão diariamente, para passear com seu animalzinho enquanto brinca com o filho. “Aqui foi a nossa salvação, principalmente durante a pandemia, pois estaríamos perto de casa e ao ar livre”, afirma ela.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto também é notícia”, desenvolvido com os estudantes do 1º semestre do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz (MA). Eles e elas foram estimulados a procurar histórias no entorno onde vivem.