De Cali para o Maranhão: entrevista com Andrés Felipe, o colombiano mais brasileiro

Repórteres: Márcia Beatriz, Viviane Sousa e Anna Beatriz Jomar

Fotos: Viviane Sousa

Antes de alcançar milhares de visualizações compartilhando conteúdos sobre marketing, comunicação digital, humor e bastidores do universo empresarial, Andrés Felipe Gómez Sánchez já acumulava uma trajetória marcada por mudanças, desafios e reinvenções. Aos 35 anos, o colombiano Andrés Felipe Gómez Sánchez, com 33,9 mil seguidores, mais de 5 mil visualizações, construiu uma história marcada por coragem, recomeços e adaptação. Natural de Cali, na Colômbia, ele chegou ao Brasil ainda jovem motivado pelo desejo de encontrar melhores oportunidades e ajudar a família em um período de dificuldades financeiras. A mudança de país representou o início de uma jornada que transformaria não apenas sua carreira, mas também sua forma de enxergar a vida.

Filho de Marleny Sánchez Villegas, costureira de 61 anos, e de Orlando Gómez Cortés, relojoeiro que faleceu aos 62 anos em decorrência de um câncer no pulmão, tio da Brillith Daniela Gómez filha do seu irmão falecido, Andrés cresceu em um ambiente onde o trabalho e a perseverança faziam parte da rotina. Os ensinamentos recebidos dois pais contribuíram para a formação de valores que o acompanharam nos momentos mais difíceis de sua trajetória. Formado em Administração Hospitalar, atuou na coordenação de referência e contra-referência de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) antes de decidir mudar completamente os rumos da própria vidaA busca por novas possibilidades o levou ao Brasil, onde viveu inicialmente em São Luís e, posteriormente, fixou residência em Imperatriz no ano de  2014. A adaptação ao novo país exigiu esforço e resiliência. Além das diferenças culturais e dos desafios profissionais, Andrés precisou lidar com a distância da família e com acontecimentos que marcaram profundamente sua história. Entre eles estão a responsabilidade de auxiliar na criação da sobrinha após o assassinato do irmão e, anos mais tarde, o enfrentamento da doença e da morte do pai.

Ao longo desse processo, passou por diferentes experiências profissionais. Tentou seguir os passos do pai na relojoaria, empreendeu no setor de alimentação, investiu na gastronomia colombiana e ganhou visibilidade nas redes sociais por meio da produção de conteúdos de humor. Cada fase trouxe aprendizados que contribuíram para a construção de sua identidade profissional. Foi justamente na busca por novos caminhos que descobriu uma afinidade com a comunicação e o universo digital.

“Meu maior objetivo, é estar bem consigo mesmo e com as pessoas à minha volta, independentemente de onde estiver e do que estiver ocorrendo no mundo.” De forma autodidata, desenvolveu habilidades em produção audiovisual, edição de vídeo e criação de conteúdo, utilizando a internet como principal ferramenta de aprendizado. A prática constante e a curiosidade transformaram-se em diferenciais importantes para sua atuação no mercado. Com o passar dos anos, construiu uma rede de relacionamentos em Imperatriz e encontrou na cidade um ambiente favorável para desenvolver projetos e consolidar sua carreira. O apoio de amigos, empresários e parceiros profissionais teve papel importante em sua inserção no mercado local e em sua trajetória de crescimento.
Atualmente, Andrés atua como produtor de conteúdo, editor e responsável criativo no Grupo Medi e na Palomo Digital, agência de marketing estratégico . Depois de percorrer diferentes caminhos e enfrentar desafios pessoais e profissionais, encontrou na comunicação um espaço para unir criatividade, estratégia e propósito. Nesta entrevista Ping Pong, ele fala sobre imigração, família, luto, empreendedorismo, marketing digital, aprendizado autodidata e os desafios de recomeçar longe de casa.

” Lá fora a gente tem uma imagem de que o português é muito fácil. É engraçado, mas a gente acha que o português é só acrescentar o “inho, enho” no fim das palavras”

Imperatriz Notícias: Em 2024, o Brasil recebeu mais de 194 mil migrantes. Quando você saiu da Colômbia, imaginava que sua trajetória o levaria ao mundo digital e permitiria ajudar sua família da forma como ajuda hoje?

Andrés Felipe: Eu sabia que ia me permitir ajudar a minha família do jeito que ajudo ela hoje, mas não que eu ia me inserir no mundo digital, no mundo do marketing. Porque eu vim diretamente para trabalhar, no começo, nunca pensei que eu fosse cair de cabeça aqui. Hoje eu descobri que é isso que eu gosto.

IN: O Brasil tem se consolidado como um dos principais destinos migratórios da América do Sul. Qual foi o maior choque entre a imagem que você tinha do país e a realidade que encontrou ao chegar aqui?

Andrés Felipe: Inicialmente, o português. Lá fora a gente tem uma imagem de que o português é muito fácil. É engraçado, mas a gente acha que o português é só acrescentar o “inho, enho” no fim das palavras. Antes de eu vir pra cá, me falaram um pouco sobre a questão de economia, me passaram uma visão que aqui existia dois extremos. Aqui a pessoa ou ganha um salário muito alto ou ganha um salário muito baixo.

IN: Entre os principais motivos que levam estrangeiros a escolher o Brasil estão trabalho, investimentos e estudo. Você já disse que sentia falta de perspectivas na Colômbia. Que oportunidades encontrou aqui que não enxergava no seu país de origem?

Andrés Felipe: O Brasil está muito mais evoluído economicamente e culturalmente. Aqui é mais valorizado o trabalhador, é melhor pago o colaborador.

IN: Dados do Ministério da Justiça mostram que mais de 203 mil migrantes tiveram registros de trabalho formal no Brasil em 2024. Na sua percepção, quais são as principais diferenças entre o mercado de trabalho colombiano e o brasileiro?

Andrés Felipe: Aqui, os direitos trabalhistas são mais respeitados. O colaborador é mais valorizado, os salários aqui são muito melhores, mesmo o custo de vida sendo mais alto que a Colômbia, as coisas são mais baratas. Aqui é muito mais fácil ganhar um bom salário. Gosto muito das políticas públicas do Brasil.

Muitas pessoas focam apenas no resultado final e esquecem de mostrar o processo”.

IN: Muitos imigrantes enfrentam dificuldades de adaptação antes de alcançar estabilidade profissional. Em que momento você percebeu que todo o esforço e os desafios enfrentados no Brasil estavam realmente valendo a pena?

Andrés Felipe: Quando eu estava conseguindo o meu objetivo, de ajudar a minha família. Quando vi que estávamos terminando de construir a casa, quando eu vi que minha família já havia conhecido muitos lugares na Colômbia. No momento que percebi isso, antes do meu pai falecer, estamos falando de 6 anos atrás. E depois que eu voltei, que tive que começar do zero, que eu percebi que vendendo comida colombiana em casa eu conseguia sobreviver, o Brasil é maravilhoso.

IN: A chamada “creator economy” movimenta bilhões de dólares no mundo e cresce rapidamente no Brasil. Na sua visão, qual é o erro mais comum que os criadores de conteúdo cometem atualmente?

Andrés Felipe: Muitas pessoas focam apenas no resultado final e esquecem de mostrar o processo. Hoje, o público quer acompanhar os bastidores, entender como as coisas acontecem. Para mim, os conteúdos mais fortes são aqueles que mostram o dia a dia, os desafios e a construção de um produto ou serviço. É isso que gera conexão e confiança.

IN: Em um ambiente digital cada vez mais competitivo, com milhões de conteúdos publicados diariamente, que tipo de conteúdo você acredita que merece mais atenção do público nas redes sociais?

Andrés Felipe: Os conteúdos que mostram os bastidores e o processo por trás das coisas. Hoje, as pessoas não querem ver apenas o resultado final; elas querem entender como ele foi construído. Mostrar o dia a dia, os desafios, as escolhas e até os erros cria uma conexão mais verdadeira com o público. Para quem trabalha com criação de conteúdo ou marketing, transparência e autenticidade são diferenciais cada vez mais importantes. Além disso, depoimentos reais e experiências do cotidiano costumam gerar mais identificação e confiança do que conteúdos excessivamente produzidos.

IN: Migrar significa recomeçar. O que você considera que perdeu e o que ganhou ao trocar a Colômbia pelo Brasil?

Andrés Felipe: Quando percebi que minha família estava vivendo melhor. Claro que as conquistas profissionais são importantes, mas o que realmente me faz sentir realizado é saber que pude ajudar as pessoas que amo. Ver minha família bem foi o momento em que entendi que todo o esforço tinha valido a pena.

IN: Ao olhar para tudo o que conquistou desde que chegou ao país, quem era o colombiano que desembarcou aqui e quem é o homem que você se tornou hoje?

Andrés Felipe: Eu era um jovem muito intenso, impulsivo e disposto a correr riscos sem pensar tanto nas consequências. Hoje continuo apaixonado pela vida, mas sou mais maduro e equilibrado. Aprendi a cuidar de mim, a valorizar minhas prioridades e a não me esquecer de quem eu sou enquanto ajudo outras pessoas. O maior ganho dessa trajetória foi o amadurecimento.

IN: Muitos jovens latino-americanos ainda deixam seus países em busca de oportunidades. Se pudesse conversar com aquele jovem que saiu da Colômbia sem saber exatamente o que encontraria pela frente, o que diria a ele hoje?

Andrés Felipe: Talvez eu dissesse para pensar duas vezes antes de partir. Sou muito grato por tudo o que vivi no Brasil, mas só depois de muitos anos percebi o valor de estar perto da família e dos amigos. As oportunidades são importantes, mas existem coisas que o dinheiro não substitui. A distância cobra um preço que a gente só entende quando vive.