Biomas que curam: bioeconomia que persiste nos mercados populares de Imperatriz

Entre garrafadas e saberes ancestrais, raizeiros e erveiros mantêm vivo um comércio que desafia a expansão das grandes redes farmacêuticas.

Por: Laécio Rodrigues, Bruno Gomes e Ivanilde Firmo

A rotina de Imperatriz começa antes do amanhecer. Nos corredores do setor Mercadinho e da Feirinha do Bacuri, entre caminhões, feirantes e comerciantes, um segmento tradicional da economia popular segue movimentando consumidores todos os dias: o comércio de ervas medicinais, raízes, cascas e garrafadas. Esse mercado resiste ao avanço das grandes redes farmacêuticas e ganha voz nos relatos do raizeiro Arlindo Ferreira, da bióloga Valéria de Araújo Santos Brilhante e da comerciante Dyane de Lima Gomes. A partir dessas vivências, descortina-se um cenário que revela como a medicina natural continua atraindo clientes, os gargalos para a obtenção de matérias-primas e a relevância desses saberes tradicionais para a economia e a cultura da região Tocantina.

Neste cenário de feiras e pequenos pontos de venda, homens e mulheres não apenas persistem diante da hegemonia farmacêutica, mas comprovam diariamente que é possível aliar memória, confiança na natureza e sustentabilidade. É a bioeconomia em sua forma mais pura, mostrando que dá para gerar riqueza e saúde com a floresta em pé, sem a necessidade de desmatamento.

Chá das três da manhã

A transição do comércio tradicional para a medicina popular muitas vezes surge da necessidade de encontrar alternativas para lidar com os desafios impostos pelo trabalho cotidiano. No setor Mercadinho, em Imperatriz, a comerciante Dyane de Lima Gomes atua há quase três anos no ponto de venda de ervas e produtos naturais mantido por sua família há cerca de duas décadas. Ela relembra como teve início a trajetória da família nesse ramo.

Sua mãe, fundadora do espaço, inicialmente vendia comida e começava os atendimentos às três horas da manhã para alimentar os trabalhadores que passavam a noite descarregando caminhões. “O pessoal reclamava: ‘Ah, irmã, hoje eu estou meio mole’. Ela corria e fazia o chá. Além da pessoa comer, já saía com um copinho de chá para beber e aguentar o resto do dia”, relata Dyane.

A eficácia imediata das infusões fez com que os próprios trabalhadores pedissem as ervas para levar para casa. O que era informal virou o carro-chefe: há cinco anos, a venda de refeições deu lugar definitivo aos remédios naturais, substituindo sacas de alho e pimenta pelas cascas de pau, que possuem uma durabilidade muito maior.

Pacotes de cascas, ervas, raízes e ingredientes naturais se acumulam no ponto de venda da comerciante Dyane de Lima Gomes, setor Mercadinho, em Imperatriz (MA) | Foto: Bruno Gomes

Hoje, o fluxo impressiona. De acordo com Dyane de Lima Gomes, entre 3 mil e 4 mil pessoas circulam diariamente pelo setor Mercadinho, em Imperatriz, atraídas pela feira e pelo comércio local. Em seu estabelecimento, especializado na venda de ervas e produtos da medicina popular, são atendidas entre 30 e 50 pessoas por dia, o que demonstra a força da demanda por esses produtos na região.

O despertar contra a droga sintética

A procura por produtos florestais e ervas medicinais vai além do saudosismo. Entre os fatores apontados pelos vendedores está a busca por alternativas aos tratamentos convencionais. A bióloga e aromaterapeuta Valéria de Araújo Santos Brilhante acompanha essa realidade há cinco anos na Santana O Rei dos Temperos, empreendimento familiar que atua no setor há 24 anos. “Grande parte que vem procurar produtos naturais é porque já cansou da parte farmacológica e não surtiu tanto efeito”, afirma.

A percepção de que os produtos naturais atuam de maneira diferente dos medicamentos convencionais também aparece entre os motivos que levam consumidores às lojas especializadas. Com experiência no atendimento de centenas de pessoas diariamente, Valéria afirma que muitos clientes buscam tratamentos que consideram mais integrais e menos agressivos ao organismo. “O remédio farmacológico é um isolamento de substâncias; ele é um betabloqueador que vai bloquear o seu sintoma. O remédio natural não, ele é uma composição química muito complexa, que vai tratar diretamente a causa com efeitos colaterais muito menores”, explica.

Ervas, raízes, garrafadas e produtos naturais ocupam o espaço administrado pela comerciante Dyane de Lima Gomes, setor Mercadinho, em Imperatriz (MA). | Foto: Bruno Gomes

Entre os produtos mais procurados para queixas relacionadas à gordura no fígado, Valéria destaca o Cardo-Mariano. Segundo ela, é comum que clientes frequentes retornem à loja relatando melhora nos exames laboratoriais após o uso da erva, especialmente em indicadores ligados à função hepática. A bióloga acrescenta que o interesse pela planta também é reforçado por estudos científicos que investigam suas propriedades.

Na avaliação de Valéria, a insatisfação de parte dos consumidores com os tratamentos convencionais tem impulsionado o crescimento desse mercado. Para casos de insônia, por exemplo, muitos clientes têm substituído medicamentos convencionais por alternativas como a Valeriana, na busca por uma melhor qualidade do sono e por menos efeitos adversos associados ao tratamento.

Garrafadas sob medida

O atendimento nesses polos de bioeconomia está longe de ser amador. As garrafadas, misturas líquidas tradicionais feitas à base de raízes e folhas, são formuladas com uma lógica que se assemelha à personalização farmacêutica. As queixas mais recorrentes do público feminino envolvem diabetes, colesterol e a necessidade de “limpeza de útero e sangue” para tratar cólicas intensas, fluxo alto ou dificuldades para engravidar.

A comerciante Dyane de Lima Gomes explica que o preparo dessas misturas exige uma profunda investigação do histórico do cliente. Essa espécie de triagem informal acontece diretamente no balcão, por meio de um diálogo atento em que ela questiona o comprador sobre seus sintomas, dores e rotinas de saúde antes de combinar os ingredientes . “Por exemplo, o Cardo-Mariano é ótimo para o fígado, mas não é indicado para quem tem pressão alta. Então a gente conversa, pergunta se a pessoa tem comorbidades, e modifica a garrafada”, relata.

Essa cautela encontra eco nas diretrizes globais. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), embora cerca de 80% da população mundial recorra a remédios caseiros, é fundamental que haja prudência, pois as plantas podem causar efeitos adversos se preparadas inadequadamente ou combinadas a outros remédios sem critério.

O Brasil, aliás, caminha nessa direção, sendo um dos poucos países a incorporar plantas medicinais no sistema público de saúde. Desde 2006, o SUS engloba a fitoterapia, listando mais de 30 espécies de interesse nacional, e programas como as Farmácias Vivas cultivam e distribuem tratamentos de baixo custo à população.

Pacotes de ervas, raízes e especiarias ocupam as prateleiras do comércio Santana – O Rei dos Temperos, setor Mercadinho, em Imperatriz (MA).  | Foto: Bruno Gomes

Rota das folhas

Apesar do vigor das vendas nas bancas, os bastidores desse mercado revelam os desafios da degradação ambiental e da logística. O comerciante Arlindo Ferreira, de 77 anos, conhecido popularmente por Arlindo Raizeiro, atua na Feirinha do Bacuri há três décadas, carregando consigo os ensinamentos da mãe, que fazia garrafadas no interior do estado.

Famoso por seus xaropes para gripe, os “lambedores”, ele observa com tristeza as mudanças no fornecimento. “Muitas plantas que eu já comprei aqui, hoje não tem mais, por causa da floresta que quase não existe mais”, lamenta, explicando que boa parte de sua matéria-prima ainda vem de pequenos produtores do Maranhão, Piauí, Ceará e Pará.

Com o extrativismo ameaçado pelo desmatamento, reduz a oferta de cascas e raízes do Norte e Nordeste na banca de Seu Arlindo na Feirinha do Bacuri em Imperatriz (MA) | Foto: Laécio Rodrigues

A constatação de Arlindo é corroborada por Valeria. Ela aponta que, antigamente, o fornecimento de cascas fundamentais como aroeira, barbatimão, unha-de-gato e jatobá era essencialmente originário da região Tocantina. “Hoje, a gente já tem dificuldade de ter essas cascas regionais. Cerca de 90% vêm de distribuidoras e vendas cerealistas de São Paulo”, revela.

Essa escassez local contrasta com o imenso potencial biofarmacêutico da Amazônia e adjacências, região que abriga compostos que já revolucionaram a história da medicina, como a quinina (para malária) e o curare (base de anestésicos). Hoje, estudos apontam mais de 150 extratos de plantas eficazes contra microrganismos patogênicos, sugerindo respostas da floresta à crescente ameaça da resistência antimicrobiana.

No entanto, essa riqueza atrai o fantasma da biopirataria. Saberes ancestrais são rotineiramente apropriados para o desenvolvimento de medicamentos e cosméticos internacionais sem o devido retorno às comunidades originárias.

Casos emblemáticos como o da catuaba, do jaborandi e da andiroba que já foram patenteados no exterior para produção de fortificantes, colírios e fármacos, isso evidencia não apenas a injustiça social, mas também os danos ambientais provocados por um extrativismo predatório que atende demandas externas, ameaçando espécies e fragilizando ecossistemas.

Resistência que transcende gerações

Enfrentar a proliferação das drogarias em cada esquina de Imperatriz exige resiliência. Arlindo sentiu o baque recente: segundo ele, as vendas que giravam em torno de 25 a 30 mil reais mensais caíram pela metade, embora ele ainda venda muito, ironicamente, até para os próprios funcionários das redes de farmácias. Ainda assim, a aposentadoria não está nos planos. “Vou ficar até o dia que a minha saúde permitir. Acho que alguém sempre vai continuar isso aqui”, sentencia o experiente raizeiro.

Frascos de garrafadas, ervas medicinais e ingredientes naturais ocupam as prateleiras do espaço de Arlindo Ferreira, na Feirinha do Bacuri em Imperatriz (MA). | Foto: Laécio Rodrigues

Na avaliação de Dyane, o mercado tem espaço para todos. Com cerca de dez farmácias naturais em seu entorno imediato, ela aposta no diferencial do atendimento humanizado e no monitoramento atento de seus clientes. “O pessoal que está com nódulo ou pedra na vesícula são os que mais retornam, porque acompanham com os exames. Eles dizem: ‘Olha, irmã, diminuiu de 2 milímetros para meio milímetro'”, orgulha-se.

A comercialização de remédios naturais nos ruidosos mercados populares de Imperatriz é muito mais do que um negócio de nicho. Trata-se da sobrevivência de um sistema de saúde plural e de uma bioeconomia real, que nutre famílias, preserva identidades e entrega alívio enraizado em frascos, cascas e folhas.