A transformação da Avenida Pedro Neiva de Santana em um novo eixo econômico de Imperatriz

Eduardo Jorge
Henry Adrian
Lauanny Alencar

Entre o movimento dos carros e o acender das fachadas, forma-se um novo centro de consumo e lazer em Imperatriz

A noite em Imperatriz não anuncia apenas o fim do dia, mas o início de um movimento que transforma a cidade. À medida que a luz diminui, o fluxo de carros que corta a Avenida Pedro Neiva de Santana começa a dividir espaço com outro tipo de ocupação: mesas sendo arrumadas, luzes acendendo, cozinhas entrando em ritmo acelerado. O barulho constante do trânsito, que liga Imperatriz a cidades vizinhas como João Lisboa, passa a se misturar ao tilintar de copos, ao som de músicas que escapam dos bares e às vozes de quem chega para ficar.

Avenida Pedro Neiva cresceu muito, na perspectiva de quem estava ali desde o seu início (foto: Kelly do Blog)

O que antes era apenas uma via de passagem, marcada pelo esvaziamento após o início da noite, hoje se transforma em um dos pontos mais pulsantes da economia local. No lugar do silêncio, surgem filas, cardápios digitais, pedidos via aplicativo e pagamentos feitos em segundos pelo celular. O contato entre cliente e estabelecimento também passa pelas telas, com pedidos organizados por aplicativos, atendimento por redes sociais e negociações feitas diretamente pelo WhatsApp, refletindo uma mudança que vai além do espaço físico e alcança a forma de consumir e empreender. O cheiro de asfalto quente e escapamento cede espaço ao de churrasco, hambúrguer e comida fresca, enquanto o brilho das fachadas iluminadas reflete uma mudança mais profunda: a construção de um novo polo comercial que cresce no ritmo das decisões de quem escolheu empreender ali antes de qualquer garantia.

É nesse cenário que a Avenida Pedro Neiva de Santana deixa de ser apenas uma avenida em expansão urbana para se consolidar como um dos principais motores econômicos de Imperatriz, reunindo negócios, consumidores e novas formas de consumo em um mesmo espaço, onde o crescimento não é apenas visível, ele é vivido todas as noites.

A Choperia nº 1 e o início de um novo movimento comercial

Nos primeiros anos de ocupação, a Avenida Pedro Neiva ainda não apresentava a estrutura comercial que hoje a caracteriza. Com poucos estabelecimentos e baixa circulação de clientes, investir na região significava apostar mais em expectativa do que em retorno imediato. Ainda assim, alguns empreendedores decidiram ocupar o espaço, enxergando na expansão urbana de Imperatriz uma oportunidade de crescimento a médio e longo prazo.

Um dos exemplos desse início é a Choperia Nº 1, que acompanhou de perto a transformação da avenida. O gerente do estabelecimento, Márcio Aurélio, 44, relembra como era o cenário no começo, “quando a gente começou aqui na Pedro Neiva, tinha poucos bares, tinha pouco ponto comercial de comida”. Segundo ele, a mudança foi rápida e significativa. “Hoje está muito, muito grande, um dos pontos mais frequentados da noite hoje é aqui, na Pedro Neiva.”

Gerente da Choperia Nº 1 acompanhou o crescimento da avenida desde os primeiros anos (Foto: Eduardo Jorge)

Com o passar dos anos, a chegada de novos empreendimentos começou a alterar essa dinâmica, aumentando gradualmente o fluxo de pessoas e tornando a região mais atrativa. O crescimento, que começou de forma tímida, ganhou força à medida que mais negócios se instalaram, criando um efeito acumulativo que transformou a avenida em um dos principais pontos de lazer da cidade.

Além da mudança no fluxo, a forma de operação também se transformou. O atendimento ao público ocorre principalmente pelo Instagram, enquanto o controle de vendas é feito por sistemas digitais. Nas formas de pagamento, a diferença entre o início e o momento atual é clara. “Depois do Pix, acredito que hoje o Pix está dominando. Pix, cartão… dinheiro mesmo acho que uns 10% hoje”, explica Márcio, evidenciando como a digitalização também passou a fazer parte do cotidiano do negócio.

Esse processo revela uma lógica comum em polos comerciais em formação: o comércio não surge apenas para atender uma demanda existente, mas passa a criar essa demanda, que hoje também é impulsionada pelas conexões digitais entre empresas e consumidores.

Do negócio caseiro à expansão: a trajetória do Vilela’s Food no novo polo comercial

O crescimento da avenida também passa pelas histórias de quem decidiu apostar nela ainda em fase de expansão. Entre esses casos está o do Vilela’s Food, comandado pelo casal de sócios Rebeka Vilela, 25, e Vaniel Vilela, 32. Psicóloga e advogado de formação, respectivamente, os dois iniciaram o negócio de forma simples, dentro de casa, durante a pandemia, quando passaram a produzir hambúrgueres como hobby para amigos. A demanda cresceu rapidamente, e o que era uma atividade informal começou a exigir mais estrutura.

Casal transformou um negócio caseiro em um dos empreendimentos consolidados da região (Foto: Eduardo Jorge)


A mudança para um ponto físico veio a partir dessa necessidade, mas também de uma decisão estratégica. “A gente visava mudar para outro local da cidade, e o local que a gente mais via como possibilidade de crescimento era a Pedro Neiva de Santana, que em 2020 ela tava em ascensão”, explica Rebeka. Com o aumento dos pedidos, o espaço doméstico deixou de ser suficiente. “A gente começou a aumentar tanto o volume de pedidos que não comportava mais fazer isso em casa”, completa Vaniel.

Espaço reúne diferentes marcas e reflete a expansão do negócio (Foto por: Eduardo Jorge)

Ao longo desse processo, as redes sociais tiveram papel central na consolidação do negócio. O casal passou a utilizar Instagram e TikTok para divulgar os produtos, muitas vezes com apoio de influenciadores digitais, enquanto o contato com os clientes acontece principalmente pelo WhatsApp Business, aproximando o atendimento e fortalecendo a relação com o público.

As mudanças também aparecem na gestão e nas formas de pagamento. “Hoje em dia, o método mais utilizado é Pix e dinheiro”, afirma Rebeka, mostrando como o digital se integra à rotina do negócio. Além disso, o uso de sistemas como o MenuDino permite controlar estoque e vendas, trazendo mais organização ao empreendimento.

A aposta se confirmou logo no início das atividades na avenida. “A inauguração foi lotada, teve fila praticamente na Pedro Neiva”, relembra. A partir daí, o negócio deixou de ser apenas uma hamburgueria e passou a se estruturar como um espaço mais amplo. Hoje, o Vilela’s Food reúne diferentes frentes criadas pelo casal ao longo do tempo, como o Vilela’s Burger e o Vício Pastel, além da expansão planejada da doceria Chaminé Truderia.

O crescimento também se reflete no reconhecimento do público e do setor. O hambúrguer da casa, Cheese Bomb, já foi premiado na Fecoimp, conquistando destaque em 2024 e 2025, o que reforça a consolidação do negócio dentro do mercado local.

Premiações na Feira do Comércio e Indústria de Imperatriz (Fecoimp) marcam o reconhecimento do Vilela’s Food no mercado de Imperatriz (Foto: Eduardo Jorge)

Happy Jump e o crescimento do consumo familiar na avenida

À medida que a Avenida Pedro Neiva de Santana se consolidava como polo comercial, o perfil do consumo também passou a mudar. Um dos exemplos dessa transformação é o Happy Jump, espaço de entretenimento que ampliou o público da região ao atrair famílias, crianças e adolescentes.

Estrutura voltada ao público infantil impulsiona o consumo familiar na avenida (Foto: Eduardo Jorge)

O gerente Rayran de Sousa Alves, 29, explica que o local recebe principalmente crianças, mas também tem ganhado a presença de adultos. “Frequentemente é mais criança, mas a gente tem um público bem grande também de adolescente.”

O funcionamento do negócio acompanha as novas dinâmicas do mercado. O atendimento ocorre principalmente pelo Instagram, com apoio do WhatsApp Business para agendamento de aniversários e contato com clientes. “Geralmente é pelo Instagram, mas ultimamente tá vindo muita gente pelo WhatsApp”, explica Rayran.

Equipe da Happy Jump, responsável pela operação e atendimento da empresa em Imperatriz (Foto: Acervo pessoal)

O controle de vendas é feito por um sistema integrado à máquina de cartão, que permite acompanhar o faturamento, e o espaço já está desenvolvendo um aplicativo próprio, ampliando ainda mais sua atuação no ambiente digital.

Para Rayran, o crescimento da avenida foi decisivo para o desempenho do negócio. “A Pedro Neiva hoje em si, ela tomou praticamente todo o comércio de Imperatriz pra essa região.”

Mais que comércio, um novo centro urbano

O conjunto desses fatores consolidou a Avenida Pedro Neiva de Santana como um novo centro econômico em Imperatriz, capaz de redefinir a dinâmica comercial da cidade e deslocar o protagonismo de áreas tradicionais, como a Beira-Rio. A migração do fluxo de pessoas, a abertura constante de novos empreendimentos e o aumento do volume de vendas mostram que a avenida deixou de ser uma alternativa para se tornar referência.

Mas esse crescimento não se explica apenas pelos números. Ele passa, sobretudo, pelas decisões de quem apostou na avenida antes dela estar pronta e pela capacidade desses empreendedores de incorporar novas ferramentas digitais ao dia a dia dos negócios.

Empreendedores como Márcio Aurélio, que acompanhou o início ainda com poucos estabelecimentos, o casal Rebeka e Vaniel Vilela, que transformaram um negócio caseiro em um espaço consolidado, e Rayran Alves, que trouxe um novo modelo de entretenimento para a região, ajudam a explicar por que a Pedro Neiva cresce não só em estrutura, mas também na forma como se conecta com o público.

Hoje, entre o movimento das mesas cheias, o som das crianças brincando e as filas que se formam ao longo da noite, a avenida revela mais do que um novo ponto de consumo. Ela mostra uma cidade em transformação, onde o empreendedorismo deixa de seguir o fluxo para passar a criá-lo, tanto nas ruas quanto nas telas.

“A Pedro Neiva hoje em si, ela tomou praticamente todo o comércio de Imperatriz pra essa região. É como se fosse outra cidade”, resume Rayran.

Enquanto novos negócios continuam surgindo e o público segue ocupando o espaço, a avenida se firma não apenas como endereço, mas como símbolo de uma economia que cresce a partir de quem decidiu começar e soube acompanhar as mudanças de um mercado cada vez mais digital.

Produto jornalístico desenvolvido por estudantes do curso de jornalismo da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, campus Imperatriz. Orientado pela professora Dra. Luciana da Silva Souza, docente do curso de Jornalismo/UFMA. Diagramado por Eduardo Jorge.