Presidente do Centro de Cultura Negra de Imperatriz compartilha trajetória de vida
Luana Santos
Sara Carvalho
Nascido no município de Paraibano, no interior do Maranhão, Divaldo Pereira da Silva guarda na memória as lembranças vivas de uma infância comunitária e festiva. Aos 65 anos, ele recorda com carinho do tempo em que jogava futebol com os amigos e celebrava as tradições de sua terra natal, como a Festa de Reis e o pagode tradicional local. “Foi uma infância bastante feliz que eu lembro até hoje, com meus 65 anos, eu me lembro daquele momento tão bom que eu tive na minha vida”, relata com nostalgia.
A vida de Divaldo, contudo, foi marcada precocemente pela perda de sua mãe, falecida quando ele tinha apenas oito anos. Diante da dor, encontrou no pai refúgio. “O meu pai foi um exemplo de honestidade, até hoje eu aprendi com ele e não abro mão dessa honestidade”, ressalta. Em 1979, mudou-se para Imperatriz-MA para morar com a irmã. Enfrentou desafios para concluir o ensino médio e ingressou na construção civil, um setor caracterizado pela instabilidade e pelas constantes viagens de trabalho.
Apesar da falta de oportunidades para estudar na juventude, Divaldo recusou o lugar de resignação. “Um dia você tá aqui, outro dia você tá viajando. Mas nem por isso eu me faço de vítima, não”, afirma. Em Imperatriz, construiu uma vida familiar sólida ao lado da esposa e de seus dois filhos, oferecendo a eles todo o amparo que não teve no passado. “A família eu sinto que é uma base. Porque o que eu não recebi de apoio, de oportunidade, eu quis dar para meus filhos”, reflete.

Com quatro décadas dedicadas aos canteiros de obras, atuou como mestre de obras e concluiu à distância o curso técnico em Edificações. Contudo, seu olhar atento às pessoas o fez sonhar com o ingresso na universidade nas áreas de Ciências Humanas ou Ação Social. Sem reclamar pelo caminho percorrido, Divaldo fala sobre essa trajetória: “Não é que a construção civil foi ruim para mim, para mim foi muito boa. Mas hoje, já por estar envolvido com as pessoas, eu acharia que eu poderia fazer outra área”. Sobre o sonho acadêmico, ele reafirma com serenidade: “Eu não me arrependo, não me faço de vítima por não ter um curso superior. Sei que naquela época era muito difícil. Com certeza eu vou conseguir fazer esse curso que é tão sonhado.”
Sua caminhada comunitária começou na Paróquia de Santa Rita e o conduziu à presidência da Associação de Moradores do seu bairro. No cargo, viveu um dos momentos de maior orgulho pessoal ao conquistar uma escola pública e rebatizá-la como Escola Eliza Nunes, homenageando uma liderança camponesa e vizinha que o ajudou no início de sua jornada. “Quando a gente conseguiu a escola, nós tivemos a oportunidade de ter colocado o nome de Elisa Nunes, que era uma senhora vizinha minha… que me ajudou muito… para ficar na memória do bairro e da cidade. Então, para mim, foi o maior orgulho”, compartilha.
A vivência como operário também o engajou na defesa dos trabalhadores junto ao Sindicato da Construção Civil e na elaboração da Lei Orgânica de Imperatriz em 1988. Em 2004, disputou o cargo de vereador em uma chapa popular, conquistando quase 300 votos. No entanto, sua maior recompensa é ver a transformação nos canteiros de obra. “Hoje, quando eu vou nas construções, que vejo aqueles trabalhadores, todo mundo fardado, de bota, água gelada para beber, um banheiro decente, isso, para mim, eu sinto o maior orgulho de ter, de saber que eu ajudei a fazer essa conquista para eles”, relembra comovido.
Consciência Negra e o Legado no CCN Negro Cosme
Embora vivenciasse o preconceito no ambiente de trabalho, Divaldo costumava interpretar a discriminação como mera coincidência. O ponto de virada ocorreu ao aproximar-se do movimento negro universitário e aprofundar-se nos estudos sobre a negritude. Ao compreender o racismo estrutural, percebeu as barreiras invisíveis erguidas pela sociedade. “Porque me parece que a sociedade branca, ela tem um teto para você crescer, você não pode passar daquele limite”, denuncia. Ele explica que a limitação se torna evidente à medida que o indivíduo assume posições de liderança: “E quando você vai se tornando uma liderança, aí é que a gente vai vendo claramente até onde é que você tem que crescer, que eles sempre querem colocar você sempre em segundo plano”.
Ao ver na televisão uma entrevista da professora Izaura convidando a comunidade para a Semana da Consciência Negra na universidade Federal do Maranhão, Divaldo encontrou seu lugar de pertencimento. Engajou-se na causa e acabou aclamado Presidente do Centro de Cultura Negra (CCN) Negro Cosme. “Eu não tinha essa intenção de ser presidente, mas as meninas me convidaram, como eu não sou de desistir eu sempre gosto de desafio, e hoje estou aqui, fui eleito por unanimidade”, relembra.
À frente do CCN em Imperatriz segunda maior cidade do Maranhão, Divaldo lidera a mobilização pela instituição da Lei Municipal de Igualdade Racial. Ao lado de companheiras de luta como Maria Luisa, Herli Carvalho, Francisca Parente e Maria da Paz, ele aposta na conscientização por meio de oficinas de capoeira e eventos culturais nas periferias. “A gente não quer ser repressor, a gente quer que essas pessoas entendam que o direito é nosso, temos o direito da nossa cultura, temos o direito das nossas festas, enfim, todos nós temos direito”, defende.
O grande objetivo de sua gestão é a construção de uma sede própria para o CCN, concebida como um Espaço Cultural para valorizar a memória afro-maranhense e acolher moradores e visitantes. “Quero dizer que aquele espaço ali vai ser um espaço cultural, onde possa receber o turista negro, e branco também. É o nosso sonho esse, de ter nossa sede”, almeja.
Honrando a memória de Negro Cosme, líder quilombola da Balaiada, e inspirado em mestres como a professora Izaura Silva da Universidade Estadual do Maranhão, Herli Carvalho e o professor Domingos de Almeida da Universidade Federal do Maranhão. Divaldo enxerga sua missão como uma ponte para as próximas gerações. Seu desejo é tornar o fardo do preconceito cada vez mais leve para quem vem depois. “Para mim seria um orgulho de ver essa juventude não deixar cair esse bastão que eu estou com ele na mão e vou repassar para algum jovem que tenha essa coragem e atitude de lutar pelos nossos direitos”, declara.
Firmado no lema de que “unidos jamais seremos vencidos”, Divaldo Pereira da Silva projeta um país mais justo e fraterno. “Um Brasil com mais oportunidade, educação, saúde e menos violência e que todos possam ter direito de participar e promover a sua cultura”, conclui o líder comunitário.