Voz Literária · Quem vive conta

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Entre livros e caminhos, Cristina Galletti transforma as experiências da vida em histórias de superação

Arquiteta, escritora e integrante da Academia Imperatrizense de Letras, Cristina encontrou na literatura uma companheira durante os períodos mais difíceis e, na peregrinação a Santiago de Compostela, uma experiência que marcou sua trajetória.

Por Rennan Santana

A vida de Isabel Cristina Galletti é atravessada pela arte, pela literatura e pela busca de novos caminhos. Arquiteta de formação, escritora por paixão e peregrina por propósito, ela construiu uma trajetória marcada por mudanças, desafios pessoais e descobertas. Integrante da Academia Imperatrizense de Letras (AIL) e da Academia de Ciências, Letras e Artes de João Lisboa (ACLAJOL), Cristina encontrou na escrita uma maneira de registrar suas experiências e transformar momentos de dor em histórias compartilhadas com os leitores.

Nascida em 1968, em Santa Teresa, no Espírito Santo, Cristina cresceu em uma família de descendentes de italianos. A infância foi vivida em uma colônia onde conviviam avós, tios e outros familiares. Em 1978, quando tinha dez anos, mudou-se com a família para Imperatriz, depois que seu pai estabeleceu uma sociedade com os irmãos.

A mudança representou o contato com novas culturas e experiências, pois até então só conhecia a cultra da colônia em que cresceu. Foi também nesse período que a leitura e os estudos começaram a ocupar um lugar importante em sua vida. Cristina recorda a influência de um professor que se tornaria uma referência em sua formação intelectual: Vito Milesi, um dos fundadores da Academia Imperatrizense de Letras.

Em 1985, aos 16 anos, Cristina mudou-se para Belém, no Pará, para concluir o ensino médio e se preparar para o vestibular. Aprovada em Arquitetura, Comunicação Social e Administração, ela chegou a ser matriculada nas três graduações por iniciativa do pai, orgulhoso por ter a primeira filha da família aprovada em um vestibular.

Porém, a rotina era difícil de conciliar e acabou optando pela arquitetura. “E, quando eu comecei a fazer Arquitetura, eu me apaixonei. Eu já era apaixonada. Eu gosto de arte desde adolescente. Sempre pintei, sempre gostei de trabalhos manuais, então sempre amei a arte, então eu me identifiquei muito com Arquitetura”, relembra.

Durante anos, trabalhou como arquiteta em Belém, onde conheceu o ex-marido e teve a primeira filha. Mais tarde, mudou-se para Imperatriz onde começaram empreendimentos de materiais de construção, chegando a manter lojas em Imperatriz, Marabá e Balsas. Nesse período, teve mais dois filhos. Em 2007, após o divórcio e o encerramento das empresas, voltou a atuar com Arquitetura. Depois, viajou para a Itália, onde estudou a língua italiana, a cultura, a história, a história da arte e o design.

Muito antes de publicar livros, Cristina já mantinha uma relação íntima com a escrita. Seu interesse pela literatura surgiu ainda na infância, quando aprendeu a ler e passou a explorar os livros com entusiasmo. A vontade de descobrir novas histórias era tão grande que, às vezes, precisava encontrar maneiras de ler escondida, já que a mãe selecionava os livros que considerava adequados.

A literatura como companhia

Na adolescência, começou a escrever pequenos versos e poemas. Em 2006, passou a produzir contos, mantendo a escrita como uma atividade constante, mesmo enquanto seguia outros caminhos profissionais e pessoais. Foi, porém, a partir de 2017, quando enfrentou uma doença autoimune e outros problemas de saúde, que a literatura ganhou uma dimensão ainda mais significativa.

O período exigiu afastamento de atividades e de parte da convivência social. Em meio ao recolhimento, Cristina encontrou na escrita uma maneira de expressar sentimentos, organizar pensamentos e lidar com as incertezas. O que antes era uma paixão cultivada ao longo da vida passou a ocupar um espaço central em sua rotina.

Em 2021, lançou seu primeiro livro, “Dores e Amores”, durante o Salão do Livro de Imperatriz (Salimp), em formato virtual. A publicação reúne poemas e poesias com forte caráter autobiográfico, incluindo textos escritos ainda na infância e outros produzidos durante o período de adoecimento. São registros de solidão, tristeza, dor e, ao mesmo tempo, da alegria de continuar viva.

Na sequência, publicou “O Sol Nasce Todos os Dias”, uma pequena novela lançada por uma editora de Braga, em Portugal. Depois vieram “O Silêncio Deus”, disponível apenas no formato digital, na Amazon. E “Vem que eu te conto um Conto”, coletânea de narrativas que também dialogam com suas experiências pessoais.

O seu quinto livro, “O Caminho de Cristina”, ocupa um lugar especial nessa trajetória. A obra reúne os relatos da peregrinação que a escritora realizou pelo Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, em 2022. Mais do que narrar uma viagem, o livro registra uma experiência de superação que havia se tornado um dos grandes objetivos de sua vida.

Uma caminhada de 800 quilômetros

O desejo de percorrer o Caminho de Santiago de Compostela existia antes mesmo de Cristina enfrentar os problemas de saúde. A doença, entretanto, tornou a realização desse sonho mais urgente. Depois de entrar em remissão, ela começou a se preparar fisicamente para enfrentar a peregrinação, ainda sem saber exatamente como o organismo reagiria ao esforço.

Em 2020, chegou a comprar passagens e organizar a viagem, mas os planos foram interrompidos pela pandemia de Covid-19. Além do fechamento de aeroportos e das restrições de circulação, Cristina reconhecia que ainda não estava completamente preparada fisicamente. A oportunidade só se concretizou em 2022.

A rota escolhida foi o Caminho Francês, um dos percursos mais conhecidos da peregrinação. Com mais de mil anos de história, o trajeto começa em Saint-Jean-Pied-de-Port, na França, atravessa os Pireneus e segue pelo território espanhol até Santiago de Compostela, percorrendo aproximadamente 800 quilômetros.

Cristina Galletti no início da peregrinação pelo Caminho Francês, percurso de aproximadamente 800 quilômetros entre a França e Santiago de Compostela, na Espanha. (Foto: Arquivo pessoal)

Pela necessidade de respeitar os limites do próprio corpo, Cristina decidiu antecipar de trem uma parte do percurso, na região conhecida como Mesetas. Ainda assim, enfrentou subidas, descidas e longas jornadas a pé, caminhando entre 20 e 31 quilômetros por dia. Ao todo, concluiu sua peregrinação em 27 dias. “Eu falo para todo mundo, o caminho é especial, ele é diferente, ele é mágico, é espiritual demais. Contagia muito as pessoas e foi a experiência mais perfeita da minha vida”, reflete.

A experiência exigiu planejamento e disciplina. Nos albergues destinados aos peregrinos, os horários de entrada e saída determinavam parte da rotina. Cristina organizava as etapas para caminhar, em média, 25 quilômetros por dia, fazendo pausas para alimentação e descanso. Em muitas localidades, também participava das missas celebradas à noite, momentos que, segundo ela, contribuíam para renovar as forças antes de retomar o caminho.

A experiência não encerrou sua relação com as peregrinações. Depois de Santiago de Compostela, Cristina percorreu parte do Caminho da Fé, em direção a Aparecida, no interior de São Paulo, caminhando aproximadamente 134 quilômetros. Também participou, em Belém, do Círio de Nazaré, realizando durante dois anos consecutivos, um percurso de 43 quilômetros até a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.

O reconhecimento literário

Durante o percurso, Cristina anotava suas impressões e os acontecimentos que considerava importantes. Ao retornar, transformou os registros em livro. “Eu fui anotando tudo e quando voltei, eu escrevi o livro, que me deu o prêmio literário, o selo da Academia Imperatrizense de Letras, o que me honra muito, porque, para mim, foi um grande prazer escrever o livro e ganhar esse prêmio foi um fechamento com chave de ouro”, celebra.

A escritora Cristina Galletti apresenta o livro O Caminho de Cristina, obra em que relata as experiências e os desafios vividos durante a peregrinação a Santiago de Compostela, realizada em 2022. (Foto: Arquivo pessoal)

A aproximação com a Academia Imperatrizense de Letras aconteceu gradualmente. Quando publicou o primeiro livro, Cristina não imaginava que um dia faria parte da instituição. Com o tempo, passou a frequentar o ambiente, participar das reuniões e conhecer melhor o trabalho desenvolvido pelos integrantes.

A possibilidade de ocupar uma cadeira na Academia surgiu como consequência desse envolvimento. Ela se inscreveu e foi aceita na primeira tentativa. Em 2023, já havia ingressado na Academia de Ciências, Letras e Artes de João Lisboa, por indicação do escritor Ribamar Silva, integrante da comunidade literária de Imperatriz.

Para Cristina, fazer parte da Academia Imperatrizense de Letras representa mais do que o reconhecimento de sua produção literária. “Para mim é uma coisa que me orgulha e me honra demais. Principalmente pelas pessoas que estão lá, que já se foram e que estão naquelas paredes: o professor Vitor Milés, a professora Edelvira Marques”, afirma.

Ao falar sobre a importância dos livros, Cristina não os apresenta apenas como objetos de estudo ou fontes de conhecimento. “A literatura me acompanha a vida inteira, na escola, quando comecei a aprender a ler. Nos momentos de solidão, é o que não me deixa deprimir, não me deixa ficar sozinha, me acompanha, me fez companhia quando eu fiquei doente, quando eu não podia conviver com as pessoas”, declara.

O vínculo com os livros também está relacionado à memória da mãe, que acompanhava de perto seus escritos e demonstrava entusiasmo com as publicações. “Minha mãe, eu não posso falar de mim como pessoa, sem falar da minha mãe. Ela amava ler o que eu escrevia, no “Vem Que Te Conto um Conto”, ela escolheu a capa do livro. Eu lia para ela e ela adorava tudo que eu escrevia, ela amava “, relata.

A perda materna tornou essas lembranças ainda mais importantes. Ao conquistar espaço nas academias literárias, Cristina imagina o orgulho que a mãe sentiria ao vê-la alcançar um reconhecimento que, no início de sua trajetória como escritora, parecia distante.

A mesma disposição para seguir em frente aparece quando Cristina fala sobre o período de adoecimento e a decisão de realizar a peregrinação. Depois de enfrentar uma condição de saúde que a fez questionar se conseguiria concretizar seus planos, ela passou a valorizar ainda mais a possibilidade de realizar aquilo que desejava.

Levantar e seguir em frente

A experiência também modificou sua maneira de enxergar as necessidades e as cobranças da vida cotidiana. Para ela, a peregrinação ensinou que a realização pessoal não depende necessariamente de grandes recursos materiais, mas da disposição para seguir em frente, reconhecer os próprios limites e valorizar os encontros que surgem durante a caminhada.

“A gente faz muito sacrifício, se martiriza, acaba com a saúde, se cobra tanto e não precisa disso, sabe? Muita coisa você entende quando você está peregrinando, caminhando, as providências que acontecem, as pessoas que você conhece, são colocadas na sua vida. É uma coisa incrível”, reflete.

Cristina Galletti durante o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, experiência de superação que inspirou a escrita do livro O Caminho de Cristina. (Foto: Arquivo pessoal)

Entre a Arquitetura, a literatura e as peregrinações, Cristina Galletti construiu uma trajetória em que os recomeços ocupam lugar central. As mudanças de cidade, as experiências profissionais, a maternidade, o divórcio, o adoecimento e as perdas não apagaram seus projetos. Ao contrário, passaram a integrar as histórias que escreve e a maneira como compreende a própria existência.

Ao deixar uma mensagem para quem enfrenta dificuldades, ela não promete uma vida sem quedas. Sua reflexão parte justamente do reconhecimento de que as perdas e os fracassos fazem parte da experiência humana, mas não precisam determinar o fim de uma trajetória.

“Então, é assim: é cair, levantar e continuar, esse é meu recado. Porque todo mundo vai cair um momento, sabe? Você tem que levantar e não colocar culpa em ninguém. Assumir as suas perdas, as suas dores, as suas derrotas, os seus fracassos. Bater de frente, se assumir. Ser o que você realmente é. Cair, sacudir, levantar e continuar”.

Para Cristina, seguir em frente não significa esquecer o que aconteceu, mas reconhecer as próprias dores sem permitir que elas impeçam novos caminhos. Seja nas páginas de um livro ou nos quilômetros percorridos durante uma peregrinação, sua história encontra sentido na possibilidade de recomeçar.