Da floresta ao paladar: pesquisa da UFMA transforma castanha maranhense em símbolo da bioeconomia

A startup Maranuts mostra como a pesquisa universitária pode gerar inovação, renda e preservação ambiental

Por Eduardo Jorge, Henry Adrian e Lauanny Alencar

Por décadas, a castanha do Maranhão fez parte da paisagem de municípios do sul do estado sem despertar grande interesse econômico. Espalhada por quintais, áreas rurais e fragmentos da Amazônia Legal, a espécie era conhecida por moradores locais, mas permanecia distante das prateleiras dos mercados, da indústria alimentícia e até mesmo da produção científica. Em muitos lugares, os frutos amadureciam, caíam ao chão e eram simplesmente descartados. O que para muitos parecia apenas mais um elemento da vegetação maranhense passou a ganhar um novo significado quando a pesquisa acadêmica voltou seu olhar para esse recurso natural ainda pouco explorado.

Foi nesse cenário que nasceu a Maranuts, startup incubada na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), unidade Bom Jesus, em Imperatriz. O projeto surgiu a partir dos estudos desenvolvidos pela engenheira de alimentos Daniela Souza Ferreira e demonstra como o instituto público pode transformar conhecimento científico em inovação, aproximando pesquisa, desenvolvimento regional, preservação ambiental e geração de renda.

A Maranuts é o resultado da dedicação e paixão de um grupo de profissionais que acredita no poder dos alimentos naturais e na riqueza dos ingredientes regionais do Maranhão. Foto: Eduardo Jorge

Com graduação em Engenharia de Alimentos, mestrado e doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), Daniela chegou à UFMA em 2022 trazendo consigo uma trajetória voltada para pesquisas com aplicação prática. Segundo ela, a intenção sempre foi produzir conhecimento que ultrapassasse os limites do laboratório. “Sempre atuei com projetos de inovação, desde a época do doutorado, com estudos que tivessem aplicação na indústria de alimentos”, explica.

Ao conhecer a castanha do Maranhão, a pesquisadora percebeu que existiam poucas informações científicas sobre o fruto. A escassez de estudos, longe de representar um obstáculo, tornou-se um convite para investigar seu potencial. As análises realizadas em laboratório revelaram uma característica decisiva: a castanha apresenta aproximadamente 54% de gordura, composição semelhante à manteiga de cacau, responsável pela textura característica do chocolate. A descoberta abriu caminho para uma série de experimentos que buscavam transformar um ingrediente praticamente desconhecido em um alimento com potencial comercial.

A ideia inicial era ousada: desenvolver um substituto para o chocolate utilizando exclusivamente a castanha do Maranhão. No entanto, como acontece em muitas pesquisas científicas, os testes mostraram que a hipótese precisava ser ajustada. “Veio a ideia de substituir um chocolate utilizando só a castanha do Maranhão. Nos testes reais em laboratório vimos que isso não era possível. Então abraçamos o cacau e fizemos o chocolate junto com a castanha do Maranhão”, conta Daniela. A partir dessa decisão nasceu uma linha de chocolates que une o cacau a um ingrediente genuinamente maranhense, valorizando a biodiversidade local sem abrir mão das características sensoriais esperadas pelo consumidor.

Barras de chocolate feitas com porcentagens consideradas de Cacau, Castanha do Maranhão e Coco Babaçu. Foto: Eduardo Jorge

Entretanto, desenvolver a formulação dos produtos representava apenas uma parte do desafio. A equipe rapidamente percebeu que não existia uma cadeia produtiva organizada para abastecer a startup. A castanha do Maranhão não era cultivada em escala comercial, tampouco havia fornecedores especializados. “Não é uma castanha comercializada. Não existem produtores. Não existe plantio. Não é possível comprar ela no mercado”, afirma a pesquisadora.

Foi necessário construir praticamente do zero uma rede de coleta e fornecimento. A equipe passou a identificar propriedades onde existiam árvores da espécie e estabeleceu contato com moradores de municípios como Imperatriz, Porto Franco, Montes Altos, Carolina e Senador La Rocque. O que antes era apenas um fruto sem valor econômico começou a representar uma fonte complementar de renda para diversas famílias. “Antes nem vendiam o fruto, não faziam nada. Era tudo lixo”, relembra Daniela ao explicar a realidade encontrada durante o mapeamento.

A iniciativa também passou a estimular a conservação da espécie. Se antes não havia incentivo para preservar as árvores, a existência de um mercado consumidor criou uma nova perspectiva para agricultores e coletores. Paralelamente à produção dos chocolates, a Maranuts iniciou um trabalho de distribuição de mudas e implantação de áreas experimentais de cultivo. Segundo Daniela, mais de 400 mudas já foram entregues em diferentes municípios maranhenses, número que continua crescendo com o avanço do projeto. “A gente tem muita coisa para informar para o consumidor. Tem ciência, tem social, estamos plantando árvore, floresta em pé”.

A expressão utilizada pela pesquisadora sintetiza um dos principais diferenciais da startup. A proposta vai além da comercialização de alimentos e dialoga diretamente com os princípios da bioeconomia, modelo que busca agregar conhecimento científico à biodiversidade, promovendo desenvolvimento econômico sem comprometer a conservação ambiental. Em um estado onde grande parte dos recursos naturais ainda é comercializada apenas como matéria-prima, iniciativas que transformam espécies nativas em produtos de maior valor agregado representam uma oportunidade de fortalecer a economia regional e ampliar o protagonismo da pesquisa produzida na universidade pública.

Ao longo desse percurso, a Maranuts também se transformou em um espaço de formação acadêmica. Estudantes passaram a participar das pesquisas, contribuindo para o desenvolvimento de novos produtos e ampliando o alcance dos estudos sobre a castanha do Maranhão. A startup reúne profissionais de diferentes áreas do conhecimento, como Engenharia de Alimentos, Biotecnologia, Agronomia e Biologia, demonstrando que inovação depende da colaboração entre diferentes saberes.

A pesquisa teve início em 2022, quando Daniela chegou ao Maranhão e passou a investigar produtos nativos com potencial para desenvolvimento científico e tecnológico. Foto: Eduardo Jorge

Apesar dos avanços, Daniela reconhece que empreender exigiu aprender muito além da pesquisa científica. Desenvolver um bom produto foi apenas uma etapa de um processo que também envolve marketing, design, embalagens, vendas e gestão financeira. “Aprendi muito com o empreendedorismo. Não venho de família de empreendedores, venho de família de estudiosos. Mas desde o doutorado eu via que você não pode ficar só na pesquisa. Cadê a aplicação? Ficar só no laboratório e o que vai para a sociedade?” Para ela, o maior desafio tem sido justamente transformar conhecimento científico em um negócio capaz de alcançar consumidores sem perder sua essência acadêmica.

A pesquisadora também destaca que lançar um produto no mercado exige enfrentar custos que muitas vezes passam despercebidos por quem observa apenas o resultado final. Um exemplo está nas embalagens, produzidas em grandes quantidades e que representam um investimento significativo para uma startup em fase inicial. Além disso, a comunicação da marca tornou-se uma preocupação constante. “Marketing e vendas é casado. A gente tem muita coisa para informar para o consumidor. Tem ciência, tem social, estamos plantando árvore, floresta em pé. A gente ainda nem disse tudo isso. E tem que dizer.”

A produção de Snacks saudáveis, sustentáveis e feitos com ingredientes naturais e de alta qualidade. Foto: Eduardo Jorge

O reconhecimento pelo trabalho veio por meio de editais de incentivo à inovação e premiações voltadas ao empreendedorismo científico. A Maranuts conquistou o segundo lugar no Prêmio Fapema de Empreendedorismo, foi contemplada pelo programa Centelha Maranhão e atualmente participa do Tecnova, iniciativa voltada à aceleração de startups. Segundo Daniela, esses apoios foram fundamentais para adquirir equipamentos, financiar pesquisas e estruturar o início da comercialização. “A startup tem que lançar, mostrar. Não pode esperar estar tudo perfeito. Tem que dar aquele pontapé inicial.”

Daniela Souza Ferreira recebe o Prêmio Fapema pela criação da Startup Maranuts. Foto: acervo

Na área da saúde, a proposta também desperta atenção. Para a nutricionista Camila Silva Alves Serra, especialista em nutrição esportiva e em transtornos do espectro autista, utilizar ingredientes regionais significa ampliar o acesso da população a alimentos de alto valor nutricional. Segundo ela, a castanha do Maranhão é rica em proteínas vegetais, gorduras insaturadas e minerais importantes para o organismo, como cálcio, potássio e magnésio. “Muitas pessoas nem conhecem a castanha. Então, por que não divulgar? A gente pode ter um alimento cultural, aumento econômico e melhora da qualidade de vida.”

Camila observa que, embora exista uma procura crescente por alimentos naturais, muitos consumidores ainda priorizam ingredientes importados ou que ganharam popularidade nas redes sociais, deixando de valorizar produtos produzidos na própria região. 

Para a nutricionista, iniciativas como a Maranuts ajudam a modificar essa percepção ao mostrar que qualidade nutricional também pode estar associada à biodiversidade maranhense. “Tudo o que vai te dar mais trabalho, que tu vai descascar, que tu vai preparar, vai ser mais saudável para ti do que aquilo que tu só pega no mercado, abre e come.”

Enquanto amplia os pontos de venda e desenvolve novos produtos, a Maranuts continua demonstrando que a pesquisa produzida dentro da universidade pode ultrapassar os laboratórios e alcançar a sociedade de forma concreta. Mais do que fabricar chocolates, a startup evidencia que ciência, inovação e biodiversidade podem caminhar juntas na construção de um modelo de desenvolvimento que valoriza a floresta em pé, fortalece comunidades locais e revela o potencial de uma castanha que, durante muito tempo, permaneceu escondida entre as árvores do Maranhão.