ENTREVISTA: Promessa do paratletismo mira cenário nacional

Repórter: Emilly Castro, Malu Cruz e Luca Araújo

Fotos: Emilly Castro e Luca Araújo

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Eu também gosto de me divertir um pouco e também levar a sério, porque eu tenho dois lados

Aos 11 anos, a atleta mirim paralímpica Sara Maria Oliveira Lisboa já encara o esporte com a seriedade de uma adolescente. Natural de Imperatriz no Maranhão, a jovem competidora define sua rotina entre pistas como um “trabalho mirim”, equilibrando a leveza de gostar do que faz com a maturidade de quem busca o pódio em todas as modalidades que disputa. Com a condição de Sara já revelada desde a gravidez, Antônia Elma Oliveira, mãe da atleta, decidiu que, apesar de ser tetraplégica, sua filha seria independente e dona do próprio caminho, e essa promessa, é o que faz Sara se destacar nas corridas de cadeira de rodas e arremesso de peso.

O paratletismo infantil e juvenil no Maranhão é incentivado, principalmente, por meio do esporte escolar, movimentando a juventude através de competições oficiais e parcerias institucionais. Sarah consolida-se como um fenômeno do esporte escolar maranhense ao dominar pódios entre 2024 e 2026. Com sete medalhas de ouro e uma de prata no Meeting Paralímpico de São Luís e nos Parajeis, em Imperatriz, a atleta mirim brilha no arremesso de peso e na corrida em cadeira de rodas. A sua trajetória vitoriosa também inclui passagens pela Liga Nescau e pela corrida Nemu Run, tornando-a uma referência no estado.

Entre ser uma atleta focada e apenas uma criança, Sara compartilha que entende o esporte como um trabalho, mas que também tem suas individualidades fora das pistas. Aspirante a artesã, desenhista e costureira tem tudo isso como parte da sua identidade, tornando sua infância alegre e se sentindo capaz de ser e fazer tudo o que deseja, se desafiando a ser melhor a cada dia, sem se sentir pressionada ou sobrecarregada. Para além da atleta Rebeca Andrade, Sara encontra inspiração, principalmente, em si mesma, e esse pensamento é fruto da criação de sua mãe, que criou a filha para aprender a admirar a si mesma, sempre cuidando da autoestima da criança.

Elma não deixa de lutar pelos direitos de sua filha, a mãe é assistente social e busca sempre garantir que, não só a filha, mas que todas as crianças paratletas da cidade possam ter o direito de realizar seus sonhos, foi batalhando muito que conseguiu a fisioterapia de Sara, por exemplo, financiada pelo governo. “A gente faz uma guerra lá… É assim, toda vez é uma briga”, revela a mãe. Mesmo com dificuldades de incentivo no esporte, conseguiu também, patrocínio do vereador Brasmar, que garante as viagens para as competições de fora. E é acreditando na própria filha e apoiando que Elma ajuda Sara a conquistar o mundo.

Sara Maria e sua mãe, através de suas histórias e carreira, nos levam a conhecer e entender o universo paratleta através de seus olhares e vivências, mãe e filha atípicas que ensinam que a vida é mais que um laudo médico. Compartilhando gostos, medos e desafios, as duas falam sobre companheirismo, paratletismo, esperança e suas vidas. Nesta entrevista, Sara Maria fala sobre suas ambições, a relação com a fama e como a paixão pelo esporte se mistura com sonhos de viagens. Com a espontaneidade típica de quem se inspira em si mesma, a pequena campeã mostra que o tamanho do sonho não tem limites.

Imperatriz Notícias: Sara, como iniciou no esporte e de onde vem essa paixão?

Sara Maria: Eu amo esporte e amo fazer coisas que me alegram. Fazer esporte é uma atividade que eu gosto muito. É uma atividade que pra mim é como um trabalho, sabe? Um trabalho mirim.


IN: E como é essa rotina de “trabalho mirim”?

SM: Eu também gosto de me divertir um pouco e também levar a sério, porque eu tenho dois lados. Na corrida, eu sou mais competitiva. Eu quero chegar primeiro. No arremesso de peso, eu jogo muito forte para eu poder ganhar. Eu não consigo largar de fazer isso, porque isso parece uma atividade para mim. Um negócio

que eu preciso alcançar e chegar em mais conquistas.

IN: Qual competição foi mais impactante para você? Que você gostou mais de competir? 

SM: Sim. De São Luiz, em 2024. Foi ótimo. A gente não só foi para a competição, como foi para a praia também, porque a gente fica alojada no, como é que é o nome? Castelinho. 

IN: E dentro dessas competições, qual a sua modalidade preferida?

SM: Arremesso de peso. Ele é mais fácil para mim. É o meu preferido. As corridas pegam mais pesado. 

IN: Como você concilia a escola com os treinos?

SM: Não sei, é muita coisa.

Antônia Elma Oliveira: Nossa vida é uma corrida. Ela dorme até 11 horas, aí toma banho e vai para a escola. Quando tem treino, ela sai antes da escola e vai. Tudo de 5 horas ‘pra frente. A escola sabe que o treino é da prefeitura. O esporte dela é a educação física da escola.

IN: Como você se sente representando uma cidade inteira? 

SM: Muito especial, muito famosa, uma celebridade. 

AE: Eu fui no Mateus com ela. Tinha uma senhora e falou assim, Sara, eu te conheço de algum lugar. Aí ela, eu sei, tia que você me conhece, porque eu sou famosa. Menina, eu sorri tanto, Aí minha filha a gente não fala assim, não. 

IN: Você sente pressão, Sarah? Nas competições?

SM: Eu fico um pouco mais nervosa, né? Porque eu não sei se eu vou ganhar. Depende da corrida. Depende da competição.  Eu tenho medo, mas eu confio. 

IN: Sara, em Imperatriz a gente não vê muitos atletas mirins paralímpicos. Então, como você se sente sabendo que, às vezes, a sua história pode acabar inspirando a história de outras crianças? 

SM: Eu acho muito bonito, porque… para mim, eu sou a única atleta daqui, eu amo isso. 

AE: Mamãe, o que você falaria para as crianças que estão em casa, que as mães colocam as crianças para fazer esporte com deficiência? Tira de casa. Dá um sentido. 

SM: Elas deviam aprender mais com esporte, para sair mais de casa e estimular na fase do crescimento delas.  

IN: Dentro dessa rotina, quais foram e quais são os principais desafios logísticos e financeiros para manter a Sara ativa nas competições de atletismo? Você disse que há  muitos incentivos do governo, mas que ainda precisa desse custo a mais, omo funciona isso?  

AE: As fisioterapias, todas no público, né? Quando a Sara nasceu, eu entrei na justiça, porque não tinha, né? Eu entrei na justiça, mas por questão de saúde, né? Os Fisios. Aí ela conseguiu, aí pronto. Depois da fisio, eu consegui o esporte. O esporte não tem incentivo nenhum, nenhum, eu que vou atrás mesmo, faço uma guerra e disponibilizo o treinador para ficar com ela e com algumas outras crianças também do grupo. Aí  o transporte eu consegui, também para uso social dela. Eu consegui na Urbano Norte, consegui também com o vereador Brasmar, que é o incentivador dela, que patrocina toda vez que a gente viaja. O município também cobre as outras coisas. A gente faz uma guerra lá, aí consegue ônibus e tudo. É assim, toda vez é uma briga. Não é fácil ir.

IN: O que você diria para a Sara do futuro? 

SM: Eu diria que eu vou conseguir mais conquistas. Mais do que ela. Eu pretendo ganhar mais medalhas do que a Sarah pequenininha. Porque hoje em dia eu tenho 11 anos. 

AE: Se ela tiver 20, ela vai ouvir. Hoje eu tenho, Sarah, mais medalhas. Vai ser uma atleta com 20 anos. Aí vai dizer, Sarah, eu consegui.