Arte, afeto e empreendedorismo

Entre linhas, tintas e porcelanas mulheres transformam talento e criatividade em negócios autorais em Imperatriz

Por Camyle Macatrão, Luana Rodrigues e Thayná Castro

A luz do sol atravessa as janelas e ilumina pincéis, linhas, tecidos e porcelanas espalhados pelo ateliê. Em meio às cores, texturas e obras em construção, os ambientes acolhedores revelam mais do que um espaço de criação, mas um espaço onde a arte encontra o empreendedorismo. É nesse cenário, cercado de criatividade em cada detalhe, que as empreendedoras Raissa Borges, Sabrina Carneiro e Sandra Régina dividem uma rotina em comum: produzir, organizar e transformar aquilo que sabem fazer de melhor em um negócio de sucesso, empreendendo em algo que vai muito além de simplesmente vender produtos, mas sim transformar arte e talento em oportunidade para outras pessoas.

Antes de surgirem as oficinas, as encomendas e os ateliês abertos ao público, a arte já fazia parte da rotina dessas mulheres. Para a artista plástica e empreendedora Sandra Régina, pintar sempre esteve em sua vida como uma forma de expressão e afeto. No início, suas obras eram apenas para presentear amigos e familiares, mas aos poucos coloriu as ruas da cidade com o seu projeto pessoal “Garrafas da Gentileza”.

Em 2016, Sandra retirava vidros descartados nas ruas de Imperatriz, higienizava, pintava à mão e deixava em praças, universidades e ruas da cidade, acompanhados de flores naturais e mensagens sobre afeto e conscientização ambiental. “Às vezes eu só deixava em algum lugar da cidade e ia embora; outras vezes, eu ficava esperando para ver a reação da pessoa. Era lindo ver o sorriso das pessoas”, relembra.

A iniciativa de Sandra ganhou repercussão e transformou a relação da artista com o próprio trabalho. As encomendas começaram a surgir e, aos poucos, a arte passou a ocupar também um espaço profissional na vida da artista. Historiadora por formação, passou anos conciliando a arte com a rotina no serviço público até decidir deixar os cargos públicos e empreender em algo que sempre amou fazer: arte.

A galeria da artista plástica Sandra Régina é referência em Imperatriz em experiências imersivas.

Algo semelhante aconteceu com a artista e advogada Raissa Borges. Foi em Aracaju, há 11 anos, após se mudar para a capital sergipana com o marido, que a vontade antiga de criar arte com as próprias mãos ressurgiu. Raissa conciliava a rotina de estudante de Direito com as aulas de pintura em um ateliê. Primeiro vieram as pinturas em caixas artesanais, mas somente em 2016 surgiu o contato com a porcelana, material delicado que acabaria mudando o rumo de sua trajetória. Durante quatro anos, Raissa dedicou-se ao aprendizado da pintura milenar, desde as técnicas, diluição das tintas e diferentes estilos de pintura.

As peças do ateliê de Raissa são todas fruto de um esforço de muita dedicação no aprendizado das técnicas.

O que começou como curiosidade se transformou em profissão. Hoje, aos 32 anos, ela pinta porcelanas há uma década e atua no mercado criativo desde 2020, levando a arte para além das peças: compartilhando conhecimento por meio das oficinas que ministra.

Já para Sabrina Carneiro, o encontro com a arte aconteceu de forma despretensiosa, pela internet. Começou a bordar por curiosidade enquanto assistia a vídeos e tutoriais de artes manuais, e aos poucos começou a produzir suas próprias peças. O interesse virou paixão pelos trabalhos feitos à mão. Hoje, cada ponto conta uma nova história.

A bordadeira Sabrina Carneiro em seu ateliê.

Mas não foi da noite para o dia que a paixão por bordar se tornou profissão. Durante a pandemia, com 18 anos e conciliando a rotina da faculdade de Odontologia, Sabrina decidiu se aprofundar nas técnicas artesanais e passou a se especializar em bordados. Foi nesse período que criou o primeiro negócio, o ImagineBySa, onde produzia peças sob encomenda e vendia os bordados pelas redes sociais. O que começou dentro de casa acabou se transformando em uma nova direção para sua vida profissional. Atualmente bordadeira por profissão e amante da arte, é dona do Ateliê Imagine Criativo, onde, além de comercializar suas peças, ensina novas bordadeiras por meio de oficinas.

Quando o talento virou negócio

A decisão de viver da arte não aconteceu de forma impulsiva para elas. Sandra Régina, mesmo trabalhando no serviço público durante anos, mantinha o hábito de produzir peças artesanais para vender. Bordados, objetos feitos à mão e pinturas dividiam espaço com a rotina profissional, até que decidiu deixar os cargos públicos para investir no próprio negócio.

Primeiro veio a Brio Conceito, loja voltada para joias artesanais. Em 2020, durante a pandemia, Sandra se afastou das redes sociais e passou quase dois anos estudando o mercado da arte antes de voltar a expor os próprios trabalhos. Foi nesse processo que percebeu a necessidade de equilibrar criação artística e empreendedorismo. “Existe uma linha tênue entre não perder o conceito artístico e também entender o mercado”, afirma.

Ao retomar a produção, decidiu concentrar as obras nas telas e começou a buscar espaço fora de Imperatriz. Participou de exposições em cidades como São Paulo, Campinas e Porto Alegre, conectando-se com artistas de diferentes trajetórias.

Foi nesse processo que nasceu a exposição “Redesenhando”, criada a partir das mudanças que vivia naquele momento, sendo sua primeira exposição em Imperatriz, que durou três dias. A repercussão da mostra levou Sandra a unificar o espaço físico do negócio e transformar a loja e o ateliê em um ambiente que reúne arte, experiência e as joias. A mudança, no entanto, veio acompanhada de julgamentos. “Quando exonerei meu quarto cargo público para viver de arte, ouvi muito que eu era louca e corajosa”, relembra.

No entanto, Sandra não foi a única a ser considerada louca e corajosa por tirar o seu sustento da arte. Em 2019, Raissa Borges e o marido decidiram viver um ano sabático na Ásia. Mas os planos mudaram com a chegada da pandemia. De volta ao Brasil, dentro de casa e longe da rotina da advocacia, ela começou a publicar nas redes sociais as porcelanas que pintava como hobby.

As primeiras encomendas vieram das amigas. Depois, das indicações. Em pouco tempo, os pedidos começaram a crescer, principalmente de clientes de Imperatriz, cidade onde ela já tinha conexões, mas também de pessoas em Aracaju.

Foi naquele período de incertezas que Raissa percebeu que a arte já ocupava um espaço maior na vida dela. O que antes era passatempo passou a trazer retorno financeiro e abriu caminho para um novo negócio criativo. Na época, as peças eram feitas apenas sob encomenda. Hoje, além das pinturas personalizadas, ela também mantém peças disponíveis em estoque e compartilha o conhecimento que construiu ao longo dos anos.

Para Sabrina, a pandemia também se transformou em um período de criação e mudança. O bordado, que começou apenas como passatempo durante o isolamento, aos poucos ganhou espaço em sua rotina e mudou os rumos de sua vida. Com o aumento das encomendas feitas por pessoas próximas e a conexão cada vez maior com as artes manuais, Sabrina escolheu investir no que antes era apenas hobby e transformar o talento em um novo caminho profissional.

Hoje, ela é dona do ateliê Imagine Criativo, na Vila Lobão, onde vende bordados e materiais utilizados na técnica. O próximo passo agora é ministrar oficinas no próprio espaço, para quem deseja aprender a bordar e transformar a prática manual em uma nova habilidade. Para a bordadeira, é importante que mais pessoas conheçam a arte de bordar: “Quero ensinar para outras pessoas que, além de ser um momento para desestressar, o bordado também pode ser o sustento, uma renda”.

Empreender também é insistir

Ao desistir do cargo público para viver da arte, Sandra Régina ouviu de muitas pessoas que era “louca”, mas também corajosa pela decisão que havia tomado. No entanto, graças às palavras de incentivo de um curador de arte e amigo próximo, ela não se deixou abalar pelos comentários e persistiu em seu sonho.

Sabrina sentiu de perto os desafios de entrar no mercado sem preparo e precisou enfrentar diferentes obstáculos ao longo da trajetória como empreendedora. Um dos principais deles foi lidar com um público que, muitas vezes, ainda não reconhece o valor do trabalho artesanal. No início, a dificuldade em precificar suas peças fazia com que ela diminuísse o valor dos bordados na tentativa de conquistar clientes. Com o tempo, porém, aprendeu a reconhecer a importância do próprio trabalho. “No começo eu me sentia na obrigação de abaixar o preço dos bordados, mas entendi que não adianta nada abaixar se a pessoa não valoriza o meu trabalho”, comenta.

Além disso, a falta de formação em áreas relacionadas ao empreendedorismo também dificultou o processo de aprender a valorizar o próprio trabalho e administrar o negócio. Essa situação acabou contribuindo para um quadro de burnout, que a manteve afastada das atividades por cerca de um ano e meio. Sabrina conta que esse período longe dos negócios foi essencial para que aprendesse a lidar melhor tanto com o público quanto com a própria empresa, permitindo que retornasse com mais confiança e segurança.

Com o tempo, Sandra percebeu que empreender com arte traz muitos desafios, principalmente no Brasil, onde artistas ainda enfrentam rótulos e preconceitos enraizados. “Eu empreendo com muita paciência a minha arte. Mas empreender com o criativo em uma região que é, geograficamente falando, extremamente rica e bem localizada, mas onde pouco se tem desse universo artístico, é um desafio”, afirma.

Para Raissa, que tem formação na área do Direito e participou de cursos de capacitação do Sebrae, o cenário é visto sob uma perspectiva mais otimista. Ela acredita que a arte vem sendo valorizada aos poucos na região de Imperatriz. Apesar dos desafios, Raissa percebe um crescimento na valorização do mercado criativo na cidade, tanto por parte da população quanto de pessoas interessadas em aprender mais sobre o artesanato e adquirir peças locais. Ainda assim, existe uma forte procura por artistas de fora, especialmente de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Quando o ateliê se transforma em experiência

As oficinas criativas também fazem parte da rotina das empreendedoras. Para Sabrina, a criação da sua primeira oficina, em maio de 2026, teve como inspiração a própria história de vida. Ela acredita que ensinar mulheres a bordar vai além de uma simples distração para a mente, tornando-se também uma possibilidade de renda extra, e é justamente nesse propósito que sua oficina se concentra.

Obras e tintas na galeria de sandra régina

 

A primeira oficina aconteceu no espaço que hoje abriga seu ateliê e também o salão de beleza da família. Com duração média de seis horas, incluindo pausa para lanche e descanso, o curso ensina desde os pontos mais básicos do bordado até técnicas mais avançadas, além da produção de uma peça exclusiva desenvolvida para a aula.

Sandra Régina começou as oficinas como uma maneira de divulgar o ateliê, mas também de aproximar as pessoas da arte e mostrar o valor existente por trás do trabalho feito à mão. “Não são aulas de pintura, são momentos onde a pessoa pode se conectar consigo mesma através da arte. Seja para compartilhar com amigos e familiares ou até mesmo para viver uma experiência pessoal de relaxamento e expressão.” Antes do processo, a pessoa escolhe a superfície em que gostaria de pintar (telas, canecas, pratos, taças, etc.) e Sandra dá o direcionamento, mas nunca o modelo pronto; durante o processo, ela não intervém, apenas fica ali disponível caso surja alguma dúvida. “Deixo a pessoa livre para se expressar do jeito que ela quiser.”

Espaço de acolhimento artístico na galeria de Sandra Régina.

As oficinas acontecem diariamente, mediante agendamento. O ateliê oferece experiências artísticas em pintura sobre vidro, telas e cerâmica, permitindo que os participantes criem de forma livre e descontraída. Para Sandra, a arte também funciona como acolhimento e bem-estar. “Às vezes a pessoa chega toda travada, cansada, e sai daqui com um sorriso no rosto. Eu acredito muito nisso: a arte cura”, afirma.

Além das experiências livres, Sandra também promove oficinas mais longas e com número reduzido de participantes, voltadas para a técnica da aquarela. Nesses encontros, ela acompanha de perto cada aluno, ensinando técnicas e incentivando o desenvolvimento artístico de quem deseja aprender e se aprofundar na pintura.

Já o workshop promovido por Raissa surgiu após ela observar, na internet, initiatives de pessoas que se reúnem com amigos e familiares para aprender e produzir juntas. Ela acredita que, por meio dessas oficinas, a técnica de pintura em cerâmicas e porcelanas pode se tornar mais conhecida e atrair quem tem interesse pela prática milenar. “A gente trabalha desde o passar do pincel até diluir uma tinta. Você não vai sair daqui um profissional, mas você vai ter o conhecimento básico.”

A dinâmica funciona da seguinte forma: pelas redes sociais, Raissa anuncia as datas dos workshops e, em cada aula, fecha turmas de até nove pessoas, justamente para conseguir dedicar atenção a cada participante, algo que considera difícil em grupos maiores. As oficinas têm duração média de três a quatro horas, período em que os alunos aprendem o básico della técnica e produzem uma peça padrão da aula. Ela também oferece turmas fechadas para eventos familiares, chás de bebê e atividades voltadas para pacientes de uma psicóloga parceira.

Raissa também compartilhou um momento marcante vivido durante uma das aulas: “Foi durante uma aula com uma mãe e uma filha, e a filha tinha uns 13 anos. A mãe chegou em mim e disse: ‘Eu amei, eu amei. Fazia muito tempo que não me reconectava com a minha filha’”.

A atenção dedicada a cada participante é um ponto essencial no trabalho das três empreendedoras, que buscam oferecer não apenas aprendizado, mas também fazer com que cada pessoa se sinta protagonista da própria jornada criativa.

Tempo, preço e materiais

Para além das peças produzidas, Raissa, Sabrina e Sandra acreditam que a experiência também faz parte do trabalho artesanal. Nos ateliês, cada detalhe é pensado para que o cliente se sinta acolhido: a organização do espaço, a disposição das obras, a iluminação e até os aromas ajudam a criar uma conexão com quem entra pela porta. Para Sandra, ter um ponto fixo fortalece ainda mais essa relação. “O ponto fixo aproxima o cliente. Às vezes as pessoas passam na rua olhando e já ficam curiosas para saber o que é”, conta. No ateliê dela, até o cheiro foi pensado para tornar o ambiente mais aconchegante. “É um ambiente para a pessoa se sentir mais confortável”, explica.

Essa atenção aos detalhes também aparece na escolha dos materiais. As três empreendedoras fazem questão de trabalhar com produtos de qualidade, mesmo enfrentando dificuldades para encontrar itens adequados na cidade. Muitos materiais utilizados por elas vêm de outras regiões do país ou até mesmo do exterior, o que acaba influenciando diretamente no valor final das peças. Sabrina conta que, em Imperatriz, encontrar bons materiais ainda é um desafio. “Aqui a gente até acha, mas não são materiais de qualidade. As agulhas vêm enferrujadas, as linhas não são as melhores e os bastidores nem vendem na cidade”, relata. Esse foi um dos motivos pelos quais Sabrina decidiu também comercializar esses itens em seu ateliê, para que seja um local onde outras bordadeiras possam encontrar os insumos que não se encontram na cidade.

No ateliê, Raissa Borges dilui as tintas para iniciar o processo de pintura nas porcelanas.

Além da matéria-prima, o tempo dedicado a cada criação também pesa no processo. Algumas técnicas exigem horas, às vezes dias de produção manual, tornando cada peça única. No caso das porcelanas produzidas por Raissa, o processo pode durar até 10 dias, desde o “biscoito” (a cerâmica antes do processo de queima) da porcelana, a pintura e a queima. Algumas peças demoram mais que as outras, e algumas obras recebem até mesmo detalhes em ouro italiano. “É uma peça que vai durar 10, 20, 30 anos; é uma peça geracional”, afirmam. “Entendo que não é um valor acessível para todos, mas é uma peça que dura por gerações”, comenta.

Mais do que espaços de produção, os ateliês de Sandra, Raissa e Sabrina se transformaram em lugares de encontro, acolhimento e troca. Em cada pincelada, bordado ou peça pintada à mão, existe também uma história de coragem, reinvenção e persistência. Ao desafiarem inseguranças, preconceitos e as dificuldades de viver da arte em uma cidade onde o mercado criativo ainda busca reconhecimento, elas mostram que empreender vai além do retorno financeiro: é construir caminhos para que outras pessoas também descubram na criatividade uma forma de expressão, pertencimento e autonomia. Entre tintas, linhas e porcelanas, as três artistas seguem provando que a arte, quando valorizada, também pode transformar vidas.