Negócios de mulher

Brenda Marques
Edlene Galeno 
Gabriel Cruz
Laís Rocha
Melissa Sophie 
Vitória Guajajara

Empreendedoras transformam o Calçadão de Imperatriz em um espaço de geração de renda, autonomia financeira e protagonismo feminino. 

No centro de Imperatriz, portões de ferro sobem um a um, acompanhados pelo ritmo dos carrinhos de mercadorias que atravessam a rua em direção aos pontos onde permanecerão pelo resto do dia. Aos poucos, as vitrines se acendem, os manequins são colocados para fora e os corredores se enchem de pessoas. Por trás do fluxo, mãos femininas embalam kits de beleza, organizam copos, araras de roupa e brinquedos artesanais. Para aqueles que passam pela Avenida Getúlio Vargas, é possível captar o início do movimento de um dos maiores polos comerciais da Região Tocantina. 

Inaugurado em 1979, durante a gestão do ex-prefeito Carlos Gomes de Amorim, o Calçadão atrai mais de 350 mil consumidores. Nos corredores, atrás dos balcões e à frente de pequenos negócios, a presença feminina se tornou parte da rotina do comércio popular. É assim para a comerciante Juliana Borges Araújo Milhomem, de 26 anos, dona da loja Bela d’Belissíma que há oito anos lida com a mudança de ritmo que marca a rotina de quem empreende. “É como uma montanha-russa. Uma hora tá bom, outra tá ruim, outra tá péssimo, outra tá muito bom”, explica.

O cenário descrito por Juliana não é um percurso solitário, mas parte de uma onda que inunda os registros oficiais com a presença feminina no mercado. Segundo a 6ª edição do Boletim Elas, divulgado pela Junta Comercial do Estado do Maranhão (Jucema) em 2026, o número de empreendimentos liderados por mulheres chega a mais de 145 mil, representando um aumento de quase 23% comparado aos últimos dois anos. Um fenômeno que também ecoa a nível nacional já que, segundo um levantamento do Sebrae do mesmo ano, o Brasil possui um recorde histórico de 10,4 milhões de mulheres donas de negócios, representando 34,3% do total de empreendedores no país.

Foi nesse cenário que Amanda Micaele Carneiro da Paz, Deusuita dos Santos Silva, Rosineira Lira e Dailla Letícia decidiram apostar no próprio negócio. Atuando em segmentos diferentes, elas compartilham a experiência de construir um espaço comercial e o desejo da sonhada autonomia financeira. Porém, antes das vendas e das estratégias para disputar atenção em um mercado cada vez mais conectado, houve também o desafio de começar. 

Trilhas

Historicamente, as mulheres no Brasil enfrentam barreiras legais e culturais para ingressar no mercado de trabalho. Por exemplo, até 1962, por força do Estatuto da Mulher Casada (Lei n° 4.121), o público feminino ainda precisava pedir permissão ao marido para trabalhar. O cenário ainda era evidente pela presente desigualdade mesmo após avanços, principalmente devido à diferença salarial entre os dois gêneros. Nesse contexto, o empreendedorismo se torna um caminho para a busca de autonomia e integração econômica. 

Com 10 anos de atuação no Calçadão, a feirante, Rosineira Lira, enxergou o empreendimento como oportunidade diante da dificuldade de adentrar em um emprego formal. “Depois que a gente passa dos 50, fica mais difícil”, afirma. Mas para ela, trabalhar vai muito além de um “ganha-pão”, é uma terapia.

Essa alternativa de trabalho pode surgir também a partir da continuidade familiar. A vendedora de roupas femininas, Juliana Borges, conta que ajudava na loja da mãe desde que tinha 13 anos, e decidiu seguir os passos dela. Já para a dona do estabelecimento de trajes infantis, Amanda Micaele, 24, o cenário foi um pouco diferente. Micaele já trabalhava com os pais e tinha um objetivo: “montar o próprio negócio”. Esse desejo foi realizado com a oportunidade de ficar a frente da Lookinho Favorito, loja que antes era administrada por sua sogra. 

Para o economista e consultor empresarial, Ronilson Costa de Sousa, o crescimento do empreendedorismo feminino está diretamente conectado à busca por independência financeira. “Elas precisam complementar com a criação dos filhos”, adiciona. Apesar do avanço, ele ainda aponta que a conciliação entre o negócio e as responsabilidades familiares são um dos principais desafios enfrentados pelas mulheres empreendedoras.

Fora de casa

Levando em consideração a pesquisa realizada pela Sintelmark em 2026, cerca de 70% dos profissionais da área de contact center são do sexo feminino, indicando que essas profissionais desenvolvem uma forma melhor de lidar com os clientes. Além disso, um levantamento realizado pela Serasa Experian em 2026 conclui que as mulheres são maioria no marketing e publicidade no Brasil.

​Historicamente, a consolidação feminina no mercado de trabalho representou um verdadeiro divisor de águas. A conquista da própria renda permitiu a quebra de ciclos de dependência e transformou realidades, como ilustrado pela vendedora Dailla Sousa, de 36 anos: “[O empreendedorismo feminino] tirou muita mulher de dentro de casa. Tinha mulher que vivia numa prisão”. Cenários como esse, mostram que a geração de renda funciona como uma chave para a libertação financeira de muitas profissionais que antes eram restritas apenas aos afazeres domésticos.

Segundo o trabalho de conclusão de curso, “O Impacto da pandemia Covid-19 nos postos de trabalho das mulheres em Imperatriz/MA: Um olhar sobre o Calçadão Comercial”, de 2022, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), 83,3% das gerências ocupadas em lojas de departamento no calçadão são masculinas. No entanto, se por um lado os cargos de liderança e as principais decisões permanecem distantes no varejo, essas mulheres buscam por meio dos seus próprios negócios a liberdade de atuar no mercado, apesar da dificuldade de empreender.

“Com certeza não é fácil trabalhar, porque tem o inverno, o sol, o movimento, o barulho, mas tudo tem. Se não enfrentar, não correr atrás, não vai ver o lucro, então tem que insistir”, destaca Rosineira. A persistência da empreendedora demonstra características associadas à presença feminina no mercado. Para Ronilson, “negócios que são geridos por mulheres têm uma potencialidade maior, em termos de organização, colaboração e gestão”.

Em um ambiente de concorrência, a estabilidade comercial dessas mulheres também passa pela capacidade de compreender as necessidades dos consumidores e adaptar suas estratégias de venda. Mais do que oferecer produtos, é preciso construir relações de confiança que contribuam para a fidelização dos clientes.

Uma mulher, muitas funções

Se antes a vitrine do comércio popular se limitava aos corredores do Calçadão, hoje ela também ocupa as telas dos celulares. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), de 2025, aponta que os canais digitais lideram a preferência dos consumidores brasileiros, sendo utilizados por 95% deles durante a jornada de compra. Reforça o avanço do comportamento omnichannel, que é a experiência de consumo que acontece de forma integrada entre o ambiente físico e o virtual. Para comerciantes como Juliana Borges, se adaptar a essa realidade deixou de ser uma opção. “Se a gente não tem rede social, não vende”, evidencia. A experiência de Dailla Sousa ajuda a ver a proporção de como essa transformação impacta a rotina de quem empreende. 

“Eu sou delivery, eu sou marketing.”

A frase resume a quantidade de funções acumuladas por muitas mulheres que administram seus negócios sozinhas. Além de vender, elas produzem conteúdo para as redes sociais, respondem mensagens, organizam entregas, negociam com fornecedores e acompanham pedidos. Com isso, o Instagram passou a funcionar como uma “vitrine virtual” capaz de atrair novos clientes, enquanto o WhatsApp se consolidou como uma ferramenta de atendimento e fidelização. O expediente, que antes terminava quando as portas eram fechadas, agora continua na tela do celular.

A digitalização do comércio ganhou ainda mais força nos últimos anos, que impulsionou mudanças nos hábitos de consumo e na forma de se relacionar com os clientes. Essa adaptação, porém, não acontece da mesma maneira para todas. Enquanto algumas comerciantes investem fortemente na divulgação digital, Rosineira ainda concentra suas vendas principalmente no contato direto com os clientes. O mesmo acontece com Deusuíta, que pontua sobre a fidelização estar ligada na relação construída ao longo dos anos. “Os meus clientes gostam de mim. Eles devem gostar de mim, não dos produtos”, destaca. Assim, revela que, mesmo em um cenário cada vez mais conectado, a confiança e a proximidade continuam sendo parte fundamental do comércio popular, convivendo lado a lado com as novas ferramentas digitais.

Isolamento

Um dos motivos mais citados para a presença nas redes sociais é a pandemia de Covid-19. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), citados na pesquisa de 2022 da UFMA, em 2020, o fechamento de postos de trabalho formais atingiu cerca de 12 mil pessoas em Imperatriz, o que impulsionou a busca por novos modelos de marketing e administração dos empreendimentos.

A revendedora de cosméticos, Deusuíta, também percebeu os impactos das transformações econômicas no comércio popular. Com uma experiência em vendas que passa dos 20 anos, a vendedora avalia que o movimento já não é o mesmo de anos anteriores. “Até 2018, por aqui era maravilhoso. De 2019 para cá, mudou radicalmente”, afirma. Segundo a profissional, a redução nas vendas e o aumento da concorrência alteraram a dinâmica do trabalho, exigindo maior adaptação dos pequenos empreendedores para permanecer no mercado.

A lojista de roupas infantis, Amanda Micaele, também relembra as circunstâncias desafiadoras desse momento. “Tomei coragem para administrar. Não foi fácil.”. Além do Whatsapp, ela também utiliza o Instagram para o atendimento online, mas comenta sobre alguns aspectos que mantêm a relevância da loja física. Amanda menciona que hoje seus clientes preferem olhar as roupas pessoalmente, e as redes sociais servem como auxílio na divulgação.

Novos caminhos, a mesma resistência

O futuro do comércio popular passa, cada vez mais, pela capacidade de adaptação. Entre vitrines e telas de celular, o empreendedorismo feminino segue encontrando novas formas de crescer e ocupar espaços. Para as comerciantes, a presença online já não é apenas uma alternativa, mas uma necessidade diante das mudanças nos hábitos de consumo. “Futuramente a gente vai vender só no digital”, afirma Deusuíta, refletindo uma tendência que já faz parte da realidade de milhares de pequenos negócios. Sem abandonar as lojas físicas, as empreendedoras incorporam novas ferramentas e transformam redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas digitais em extensões do próprio comércio.

Ao mesmo tempo, o avanço do público feminino no empreendedorismo representa uma mudança que vai além da tecnologia. Em um cenário historicamente marcado por desigualdades de gênero, cada negócio aberto e mantido por uma mulher também simboliza autonomia, permanência e conquista de espaço no mercado de trabalho. “As mulheres são cada vez mais determinadas a mudar a situação de vida”, observa Juliana. A afirmação resume uma realidade presente no Calçadão, onde o trabalho movimenta vendas, fortalece a economia local e contribui para a construção de novas perspectivas para as próximas gerações.

Quando as portas das lojas fecham ao fim da tarde, o movimento diminui nas ruas, mas permanece nos bastidores, onde planejamento, divulgação e atendimento continuam fazendo parte da rotina. Entre mensagens respondidas no WhatsApp, mercadorias organizadas para o dia seguinte, vídeos gravados para as redes sociais e novos pedidos chegando pelos aplicativos, mulheres seguem sustentando a dinâmica do comércio popular. Mais do que números ou estatísticas, são histórias de persistência que ajudam a explicar a força desse espaço. No Calçadão, a capacidade de transformar necessidade em oportunidade, trabalho em permanência e permanência em resistência continua sendo o que mantém pulsando, diariamente, o coração comercial de Imperatriz.

Produto jornalístico desenvolvido por estudantes do curso de jornalismo da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, campus Imperatriz. Orientado pela professora Dra. Luciana da Silva Souza, docente do curso de Jornalismo/UFMA. Diagramado por Eduardo Jorge.