Ana Luiza Nogueira
Eduardo Jorge
Como empreendedores LGBTQIAP+ transformam resistência em renda e ocupam espaços em Imperatriz dentro e fora do mês do orgulho
Empreender, para muitas pessoas LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bisexuais, Transexuais, Queers, Intersexo, Assexuais, Pansexuais), não é apenas uma escolha profissional, é também uma forma de resistir e ocupar espaços historicamente negados e estereotipados. Em Imperatriz, essa realidade ganha visibilidade na Feira do Empreendedor LGBTQIAP+, que chega à sua 5ª edição em julho de 2026.

Promovida pela Defensoria Pública do Estado do Maranhão, por meio do Núcleo Regional de Imperatriz, pela Coordenação da Educação da Igualdade Racial de Imperatriz (CEIRI/UREI) e pelo Coletivo Arco ITZ, a iniciativa surgiu a partir de uma realidade persistente: as barreiras enfrentadas pela população LGBTQIAP+ no mercado de trabalho formal. Diante da exclusão e da dificuldade de acesso a oportunidades, muitos encontram no empreendedorismo uma alternativa para garantir renda, autonomia e, consequentemente, o acesso a outros direitos fundamentais.
“O mercado de trabalho formal se fecha para essas pessoas e o empreender vira uma fonte de renda. E aí a gente sabe que, a partir do momento que você tem uma renda, você abre as portas para garantir os outros direitos também”, afirma a defensora pública Ana Luiza Superbi, que atua na defesa da mulher vítima de violência doméstica e também da população LGBTQIAP+.

Em suas primeiras edições, a feira contou com financiamento externo. O Ministério Público do Trabalho (MPT), por exemplo, reverteu recursos provenientes de multas aplicadas a empregadores que violaram leis trabalhistas incluindo casos de discriminação, para o custeio do evento. Na edição de 2026, a feira é financiada integralmente pela Defensoria Pública.
Das tentativas de silenciamento ao calendário oficial
O percurso até a 5ª edição não foi isento de obstáculos. Desde sua primeira realização, a feira enfrentou tentativas de apagamento tanto institucionais, sociais quanto simbólicas.
“Na primeira edição, um parceiro, no dia da feira, depois de todo o material confeccionado, pediu para tirar o logo da instituição. Porque, segundo esse parceiro, ele não sabia que seria ‘assim’”, relata o professor Jean Pierr de Sousa, um dos idealizadores do evento. As pressões foram além. Em determinado momento, houve uma tentativa de deslocar a feira da Avenida Beira Rio o principal espaço público de Imperatriz para a Praça da Bíblia, no bairro do Bacuri, muito mais afastado do centro da cidade.

“Quer dizer: quanto mais distante da visibilidade central da cidade, nós vamos empurrar vocês. E nós não aceitamos. Ela pode até não acontecer no mês de junho, que é o mês do orgulho, mas ela vai acontecer em julho, em agosto, até em dezembro. Ela vai ficar na Avenida Beira Rio, que são espaços públicos que são nossos”, declarou Jean Pierr.
Hoje, a Feira do Empreendedor LGBTQIAP+ já faz parte do calendário oficial de Imperatriz, o que lhe confere uma estabilidade institucional que, segundo os organizadores, impede que qualquer governo a cancele unilateralmente. A aspiração dos realizadores é que ela cresça no cenário municipal à semelhança de outros eventos consolidados de empreendedorismo local, como a Feira do Comércio e Indústria de Imperatriz (Fecoimp).
O peso do preconceito nas histórias dos empreendedores
Entre os relatos que marcam a trajetória da feira, Jean Pierr destaca o caso de um costureiro de vestidos de noiva que participou de uma das primeiras edições, mas o empreendedor acabou se afastando do evento por pressão familiar.
O organizador conta que o rapaz se aproximou para comunicar sua saída, explicando que seus pais haviam conversado com ele sobre o assunto. Diante da situação, Jean Pierr optou por não aprofundar o peso daquele momento e disse de modo acolhedor ao empreendedor “que o lugar dele era outro, que ele deveria se constituir enquanto dono de si mesmo e que, quando estivesse pronto, a feira estaria lá à sua espera”. Para o professor, a história ilustra com clareza as forças que ainda operam contra a visibilidade e a autonomia econômica de pessoas LGBTQIAP+.
Estrutura e suporte: como a feira funciona
Nas edições mais recentes, a feira reúne quase 30 barracas de empreendedores que comercializam: arte, culinária, moda, artesanato e produtos da economia criativa. A organização vai além da montagem do evento: há um processo de cadastramento por nicho de mercado e um acompanhamento durante toda a realização da feira.
Os organizadores oferecem suporte completo a quem deseja participar, empreendedores sem logomarca têm o material desenvolvido pela equipe, e aqueles que ainda não possuem registro como Microempreendedor Individual (MEI) recebem auxílio para regularizar a situação. Em 2026, o workshop que antecede a feira terá como foco a educação financeira temática identificada como uma das principais fragilidades do mercado local após análise interna realizada pelos organizadores. O processo de inscrição prioriza a população LGBTQIAP+ e somente após o preenchimento das vagas destinadas a esse público é que as inscrições são abertas à população em geral.
Vozes da feira
Fernanda de Sousa Marinho, 36 anos, Sex shop e sexologia

Empreender começou aos 19, dezenove anos, costurando fantasias e vendendo para amigas. O que nasceu como necessidade se transformou, ao longo dos anos, em uma área de profundo interesse pessoal, ela é Sexóloga e cursa o quarto período de psicologia, buscando aprimorar constantemente o atendimento ao cliente.
“No início foi uma necessidade, e aí a gente vai escolhendo essa área. Mas, na verdade, a área me escolheu para poder estar elevando, a cada dia, um relacionamento de todos”.
O preconceito esteve presente desde o início. Há cerca de 17, dezessete anos, quando começou, o tabu em torno do segmento era ainda mais acentuado. Hoje, segundo ela, a situação mudou em parte graças à construção de uma base sólida de clientes que confiam no seu trabalho, muitos dos quais se tornaram amigos.
“Eu já melhorei muitos relacionamentos, eu já melhorei muitas vidas não só em relacionamento, mas pessoas mesmo. Então eu agradeço muito, porque é surreal só de pensar na gratidão de cada cliente”, revela.
Fernanda participa da Feira do Empreendedor LGBTQIAP+ há 3, três anos e afirma que o evento funciona como um catalisador de negócios para além do período da feira. Clientes conquistados durante o evento se tornam compradores fiéis ao longo de todo o ano. Ela também destaca o papel das redes sociais — especialmente o Instagram — na construção de uma relação de confiança com o público.
“A gente não está indo só para vender, e sim para abraçar e cuidar da causa que é tão importante. Além de desconstruir o tabu através da nossa área, também mostrar para as pessoas a importância do respeito dos gêneros, das escolhas, porque o respeitar é fundamental”, afirma.
Hoje, Fernanda sustenta a família exclusivamente com o negócio — é casada e tem filhas. Para ela, o segredo está em oferecer experiência, não apenas produto.
“Aqui na nossa loja a gente não só vende o produto. A gente passa para as pessoas a experiência, o quanto que é bom viver gostoso. Se for só para vender, o negócio não vai para frente. Tem que ter empatia com o próximo”, conclui.
Neymarques Bezerra Feitosa, 37 anos, Brownies e confeitaria

(Foto: Acervo pessoal)

Neymarques, começou levando brownies para o trabalho, uma empresa de Call Center em Imperatriz simplesmente para consumo próprio. Os colegas passaram a pedi-los e, a partir daí, o que era hábito virou negócio. Ao perceber que os rendimentos do empreendimento já superavam seu salário de CLT, tomou a decisão de sair do emprego formal e se dedicar integralmente à confeitaria.
Ele conta que a trajetória passou por diversas etapas: vendas no trabalho, depois delivery pelo Instagram e WhatsApp, em seguida um carrinho de doces na Praça de Fátima e na Beira Rio, até a abertura de um ponto físico onde comercializa brownies, salgados, tortas, bolos e café. O que começou como algo espontâneo se tornou um negócio estruturado, com colaborador contratado e custos fixos para administrar.
Sobre os desafios do empreendedorismo, Neymarques é direto: “Empreender é como viver em uma montanha-russa. Há meses de vendas excelentes e meses difíceis, ao contrário da previsibilidade de um salário fixo.” Ainda assim, a autonomia e a satisfação de ver as pessoas apreciando o produto compensam os altos e baixos.
Ao anunciar sua participação na primeira Feira do Empreendedor LGBTQIAP+, Neymarques vivenciou uma das faces mais cruas do preconceito. Discreto em relação à sua orientação sexual, muitos de seus clientes não sabiam que ele era um empreendedor LGBTQIAP+. Ao divulgar sua presença na feira pelo Instagram, recebeu mensagens preconceituosas de clientes antigos.
“Foi bem triste, foi bem chato até dividir essa experiência negativa com o grupo da feira, para a gente ver os desafios que enfrenta quando comunica para os clientes sobre essa questão de ser um empreendedor LGBT. Participar da feira é praticamente levantar uma bandeira de que a qualidade de um produto ou serviço, independente de a pessoa ser LGBT ou não, requer muito. Principalmente para nós”, relata.
Apesar da experiência negativa, Neymarques avalia que a feira agregou valor ao seu negócio e ajudou a desconstruir o preconceito junto a parte de sua clientela conservadora. Para ele, a feira é o evento em que mais vende mais do que outros eventos em que já participou com seu carrinho, e parte significativa do lucro obtido nela vai diretamente para o pagamento de contas fixas.
“A feira do empreendedor LGBT é uma das feiras em que eu aproveito para vender bastante. As pessoas vão mesmo para consumir o teu produto, para te conhecer,seja por curiosidade ou não. E os clientes que vão me prestigiar lá às vezes até deixam de comprar naquela semana na loja para poder estar presentes na feira”, comenta.
Neymarques também observa que o público da feira é bem mais diverso do que o nome poderia sugerir. Além da comunidade LGBTQIAP+, há famílias, heterossexuais, crianças e adolescentes — inclusive pessoas evangélicas. Para ele, esse dado é revelador:
“Uma pessoa LGBT consegue fazer bons trabalhos, bons negócios, criar bons produtos e oferecer bons serviços. Querendo ou não, a feira do empreendedor LGBT é uma ferramenta muito boa e muito forte para poder quebrar essa questão do preconceito na nossa cidade, que tem demais”.
Crescer para resistir: os próximos passos da feira
Com cinco edições completas, a Feira do Empreendedor LGBTQIAP+ de Imperatriz consolidou-se como muito mais do que um evento de vendas. É um espaço de resistência, formação, visibilidade e pertencimento. Os organizadores seguem apostando na expansão: mais barracas, workshops temáticos, parcerias institucionais e, principalmente, a manutenção da feira em seu lugar de direito — na Avenida Beira Rio, no coração da cidade.
Para os empreendedores que dela fazem parte, a feira representa algo que vai além do lucro de um fim de semana: é a prova concreta de que identidade e qualidade não são excludentes — e de que o mercado, quando bem construído, tem espaço para todos.

Produto jornalístico desenvolvido por estudantes do curso de jornalismo da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, campus Imperatriz. Orientado pela professora Dra. Camila Rodrigues Viana e pela professora Dra. Luciana da Silva Souza, ambas docentes do curso de Jornalismo/UFMA. Diagramado por Eduardo Jorge.