Manifestação #elenão em Imperatriz: por mais respeito às mulheres

Repórteres: Michele Souza e Pedro Teixeira

Atualmente, as mulheres vêm tendo um papel forte no cenário político, um dos movimentos bem sucedidos foi usar as redes sociais para mobilizar a sociedade, a exemplo do #elenao. Outra forma de visibilidade e atuação na política é ocupar a cota de 30% nos espaços partidários, prevista em lei, porém que ainda se mostra um desafio.

Movimento realizado por milhões de mulheres e com apoio de muitos homens, foi denominado e impulsionado com a hashtag #elenao. Nele, ativistas, independente de orientação política e partidarismo, criticaram as ideias do candidato à presidente da República, Jair  Bolsonaro, do PSL, consideradas ofensivas aos direitos da população feminina. O movimento começou com  milhares de mulheres que se uniram através do Facebook, denominado “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” e, concentram quase 4 milhões de mulheres, unidas no “combate ao fascismo”. (Até a finalização desta reportagem conta com 3.920.111 membros).

Como membro do grupo e militante das causas feministas, a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Lívia Cirne, considera fundamental a participação das mulheres na política, pelo fato de tornar a sociedade mais justa e equilibrada. A professora enfatiza o fato das pessoas não conhecerem a história do feminismo, o que leva muitos a acreditarem que o movimento se opõe aos homens. “Não tem nada a ver. Criou-se uma onda de ódio e minimização das ações organizadas pelas mulheres em defesa de direitos que lhes assistem enquanto cidadãs, o que é muito preocupante. Muita gente, que até tem acesso à informação, repete falas bizarras e agressivas sem se dar conta que o que as mulheres querem é serem respeitadas como qualquer cidadão”, argumenta Lívia Cirne.

Para a professora, vivemos em um momento político que estimula a pregação do ódio contra as causas das mulheres, porque, atualmente, o acesso aos meios digitais reforçaram o preconceito e as falsas informações. Ela destaca a conquista do voto feminino. “Hoje a gente vota, tem direito a escolher também representante, mas as pessoas esquecem que é fruto de luta. Até pouco tempo, as mulheres não votavam. Depois, só poderiam votar com base em amarras patriarcais, se os pais permitissem ou se seus maridos autorizassem, se fosse casada. Em seguida, só poderiam votar as mulheres caso trabalhassem. Só há pouco, mais de 50 anos, que foi equalizado esse processo e homens e mulheres assumiram o mesmo direito de votar. Nossas avós devem lembrar disso. É muito recente na história democrática do Brasil”.

Lívia Cirne: é um grito universal a luta por igualdade

As causas feministas, conforme a professora, não são  uma causa partidária ou local, isto é, somente no Brasil e que tem pouco tempo. “Hoje, as pautas foram renovadas. Não se pode aceitar que mulheres ganhem menos porque engravidam ou porque são mulheres, por exemplo. É indefensável. As reivindicações dos movimentos feministas são por conquista de espaços que lhes foram negados, por práticas e pensamentos misóginos (com aversão ou ódio às mulheres). Por isso, é importante que homens e mulheres compactuam essa luta. É uma questão de justiça. E é uma atuação mundial. Não é ‘invenção’ do Brasil ou de um partido. É um grito universal. Em todos os lugares se clama por igualdade”, acrescenta.

Cargos políticos

Uma das pautas do movimento feminista é aumentar a representatividade na cena político-partidária. Na eleição para os cargos de senadores, deputados estaduais e federais, concorreram 29.090 candidatos, destes, apenas 9.206 eram mulheres (que corresponde a 31,6% dos candidatos). O que é bastante contestado, pois mesmo sendo a maior parte do eleitorado,  as mulheres são 52,5%, o número de candidatas que se elegem ainda é ainda distante do esperado.

Mesmo sendo obrigatório que 30% das candidaturas de cada partido seja composta por mulheres, a presença delas na política ainda é baixa. A lei que destina essas vagas para as mulheres tem se mostrado pouco eficiente. Em relação à postura das 37 coligações, há reclamações de recrutamento dessas mulheres para cumprir o preenchimento previsto em lei, a chamada “mulher laranja”, como o próprio termo indica, somente para “completar” aquilo que deveria ser um direito.

A professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão, do campus de Imperatriz, Michele Goulart Massuchin, analisa as dificuldades encontradas por mulheres para que possam ingressar na política atualmente. “Há uma preocupação em dar espaço para as mulheres, porque, colocar uma mulher ali e mostrar que há representação passou a ser uma preocupação para o eleitor. Logo, os partidos precisam se adaptar a isso. Não era algo considerado e, passou a ser , exatamente a partir de 2014. Agora, por que é que não aumenta? A primeira é que, historicamente, a política vem sendo considerada um espaço masculino”.

Michele Massuchin: desigualdade nasce no espaço privado

A pesquisadora detalha que as dificuldades começam no ambiente da família, com a sobrecarga de tarefas para a mulher. “As mulheres têm muita dificuldade de entrarem na política, de construir uma trajetória política, porque essa desigualdade nasce no espaço privado e vai para o espaço público. Então, por exemplo: sempre falamos que as mulheres precisam cumprir várias jornadas, elas têm muitas dificuldades, porque essa divisão do trabalho não acontece no espaço privado. O homem que faz campanha, vai para rua e passa o dia inteiro na rua, a mulher precisa colocar o filho na escola, tirar o filho da escola, colocar o filho na atividade, tirar o filho da atividade e fazer campanha. Então, não há um equilíbrio”, explica.

*Reportagem produzida na disciplina Jornalismo Político (2018.2), do Curso de Jornalismo (UFMA Imperatriz). Crédito/foto da manifestação: Nacho Doce /Reuters. Foto/Profa. Michele: Michele Souza e Pedro Teixeira. Foto/Profa. Lívia: acervo pessoal