Pessoas em situação de rua relatam medo da Covid-19 em São Luís

Ações buscam evitar a propagação do coronavírus na capital. Foto: Joedson Silva.

Isabelle Gesualdo

“Eu sinto muito medo. Tento me proteger de todas as formas quando estou muito perto de outras pessoas, nos ônibus, na feira e vigiando carros. Eu tento me preservar, porque do jeito que tá indo, é uma tristeza”, diz Antônio, 56 anos, morador de rua. “Eu nunca ganhei nenhuma máscara aqui, as que tenho compro com o trocadinho que ganho vigiando carros”, acrescenta.

Em São Luís, as equipes do Centro Psicossocial Álcool e Drogas (Caps) vai ao Centro da cidade realizar testes para tentar evitar a disseminação da Covid-19 entre as pessoas em situação de rua.

O Caps realiza ações de testagem na praça Antônio Lobo, região central de São Luís, área de maior concentração da população de rua. Os testes variam entre igG e igM (para detectar a existência do coronavírus ou anticorpos) e testes de HIV, sífilis e hepatite. Além dos exames, a equipe médica dá orientações para prevenção de doenças, tais como: lavagem das mãos, uso de máscara e preservativo.

Caso a pessoa teste positivo para a Covid-19, “se for sintomática, recebe medicação e é orientada a ficar em isolamento social, porque o paciente está em risco de contaminar outras pessoas. É feito um abrigamento, se ele quiser. Ou, pode ser orientado a ficar com a família”, diz Marcelo Costa, diretor do Caps.

Diante de um contexto social em que muito se fala sobre ficar em casa, é impossível para esta parcela da população que vive à margem da sociedade cumprir as recomendações de isolamento social da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Eu já fui pra UPA quatro vezes, porque sou hipertenso e tenho pressão alta. Já perdi quatro amigos aqui [na rua], morreram dessa doença. A gente convive com muitas pessoas, começamos trabalhar uma hora da manhã, e a gente nunca sabe quem tá com ela [Covid-19]”, relata José de Ribamar, 54 anos, vendedor de peixes.

“Outro dia minha mãe foi ao Mercado Central, eu disse que iria visitar ela, mas ela respondeu ‘meu filho, não vai’. Isso me doeu tanto. Minha mãe é minha vida, mas eu entendo o lado dela. Ela tem 74 anos e eu vivo aqui na rua”, lamenta José de Ribamar.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 222 mil pessoas vivem em situação de rua no Brasil. Pesquisa, realizada entre 2012 e março de 2020, indica um aumento de 140% no número de pessoas nestas condições. Com a pandemia do novo coronavírus e a crise econômica instalada no país, os números devem crescer ainda mais, apontam os estudos.

Sem segurança e possibilidade de isolamento social, os moradores de rua se agarram à fé para vencer o temor de serem contaminados com o vírus. Quando ficam doentes, alguns recorrem a cuidados médicos no hospital Socorrão, no Centro de São Luís, ou nas unidades de atendimento mais próximas. Pessoas portadoras de vírus ou que possuem transtornos mentais, fazem uso de medicamentos, semanal ou mensalmente, no Caps.

“Nunca fiquei doente, não senti nada. Tenho fé que Deus nunca vai deixar eu pegar esse vírus, rezo todo dia. Sempre uso minha máscara, e só tenho essa. Mas dá muito medo ficar aqui [na rua] sabendo que tem tanta gente morrendo”, afirma Jorge, 26 anos, morador de rua.

 

:: Texto produzido para a disciplina de Redação Jornalística, semestre 2020.2, sob orientação da profa. Yara Medeiros.

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