Jornal On-line do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz

Pesquisadora de política da UFMA, Isabele Mitozo afirma que falta transparência à Prefeitura de Imperatriz

Repórteres: Árion Barbosa e Flávia Regina

Fotos: Acervo pessoal

Voto impresso, CPI, comportamento eleitoral e desinformação foram alguns dos assuntos debatidos com a doutora em Ciência Política Isabele Batista Mitozo na entrevista que se segue. Ela pesquisa comunicação e política com enfoque para o fluxo de informação no ambiente virtual. Professora, cearense, atual vice-coordenadora do grupo de pesquisa em Comunicação, Política e Sociedade (COPS) e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica), acredita que falta transparência às ações da Prefeitura de Imperatriz e que o jornalismo brasileiro precisa aprender a palavra “mentira”. Enquanto leitora de García Márquez, conhece o autoritarismo de homens como Aureliano Buendía e explica as consequências do coronelismo em solo nordestino. Seu repertório acadêmico se imprime num discurso claro, mas que não deixa de ser crítico.

Confira:

Imperatriz Notícias: Professora, o brasileiro vota mal?

Isabele Batista Mitozo: Não tem essa de votar bem ou mal, né? Depende do contexto. E falo tanto do contexto externo, quanto do interno. As pessoas também têm o voto egoísta, elas votam pensando nelas próprias, como aquilo que pode beneficiá-las. Então eu não posso dizer que o empresário, por exemplo, vota mal quando ele vota em um ator político que vai beneficiar o setor empresarial, porque ele está votando bem, para ele. Ele pode não estar votando bem para o país. Por exemplo, quando a gente tem mais de 50% da bancada do congresso nacional formada por congressistas que são ligados ao agronegócio, eu não posso dizer que essas pessoas votaram mal, porque o pessoal do agronegócio votou para eles estarem ali, investiu naquelas candidaturas porque beneficia eles. Beneficia o resto da população? Não, porque isso não é bom para o jogo democrático, quando nós temos um grupo que domina, enquanto a gente tem tantos grupos sociais que não estão representados ou estão sub representados naquele lugar que é o espaço máximo de representação no nosso país. Então não é que vota bem ou que vota mal, a gente vota de acordo com os nossos interesses.

IN: O que está por trás do movimento em prol do voto impresso?

IBM: O que está por trás desse movimento é uma tentativa de descredibilizar o sistema. Desestabilizar, também, esse sistema que já é confiável e está aí desde a metade dos anos 90. O nosso voto na urna eletrônica é auditável, ele tem cédulas impressas, não do voto individual, mas de todos os votos de todas as urnas. Os partidos políticos têm acesso a isso e eles ficam lá para fiscalizar o processo. Assim que acaba, todas as coligações recebem cópias da votação de cada urna eletrônica. Essa é a auditabilidade da urna, e nunca houve caso de fraude e de invasão direta, porque a urna eletrônica trabalha com caráter offline, ou seja, ela fica desconectada durante todo o processo. Depois que tudo é computado, já vai levado para sistema do TSE, e aí há uma contagem. Não tem como invadir um sistema que está offline, porque ele não está em rede.

E eu acho que o que está por trás disso é essa tentativa de descredibilização, para desestabilizar o sistema, porque o voto impresso do indivíduo só beneficia a quem compra voto, por exemplo. Hoje, constitucionalmente, nosso voto é secreto e, se eu imprimo esse voto, alguém que achar meu papel, ou que me pedir esse papel, vai ter acesso ao meu voto. Então a tentativa de pedir o voto impresso é primeiro inconstitucional. E segundo, ela só beneficia a quem quer reforçar práticas de voto de cabresto. No tempo de voto de cabresto era assim. O voto impresso só beneficia esse tipo de prática escusa.

“O eleitorado de Imperatriz é conservador, e esse eleitorado fez com que determinados discursos fossem utilizados na eleição”

IN: Que avaliação você faz da política municipal?

IBM: Eu sou muito leiga, ainda, em relação à política local, porque não sou daqui. Mas de um modo geral, eu avalio que, como toda política municipal, ela é muito ligada às pessoas. Ela é muito personificada. E nós temos grupos na cidade que dominam esse espaço político. Nós vimos, no ano passado, uma eleição que foi muito apertada, então houve um benefício.

O eleitorado de Imperatriz é conservador, e esse eleitorado fez com que determinados discursos fossem utilizados na eleição. Por exemplo, chamar o principal candidato de oposição ao governo de “comunista” já dá o tom de que isso seria algo que poderia prejudicar a campanha daquele candidato. Como em uma medida deve ter prejudicado, porque ele perdeu, mesmo que apertado.

E em relação à gestão municipal, eu acho que teve bons projetos no primeiro plano de governo, mas muita coisa não foi cumprida. Especialmente as coisas que foram prometidas acerca de transparência. A Prefeitura prometeu dois planos: o primeiro plano para eleição do Assis Ramos e o plano de reeleição do Assis Ramos. O que eu vi nesses dois planos foi que, de um pro outro, as ações de transparência desapareceram. Assim que ele já estava no cargo, essas ações de transparência, muitas, não foram cumpridas. E esse foi o principal tom da campanha dele há 4 anos e meio atrás, fiquei sabendo. Tava lá no plano de governo, mas essas coisas não foram cumpridas. Não foram nem escritas no novo plano de governo. Então, pelo que eu vejo, no tom da política municipal, falta muita transparência. Era um discurso anti-corrupção e pró-transparência que não foi pra frente. Pelo menos essa é a deficiência que eu vejo.

E acho que a cidade tem certos problemas de infraestrutura urbana, principalmente quando chega janeiro e a gente fica alagado. Raras são as partes da cidade em que isso não acontece. Acho que isso é algo que caracteriza muito a política da cidade. Além da influência do agronegócio na política municipal, já que a gente tem muita essa prática aqui nos arredores de Imperatriz.

IN: O uso da internet em campanhas políticas foi institucionalizado em 2008 com o Obama. Em 2018, tivemos o fenômeno do WhatsApp no Brasil. Quais são as estratégias de comunicação viáveis para as próximas eleições?

IBM: Eu acho que essas ferramentas de comunicação interpessoal e trocas de mensagens privadas, como o WhatsApp e Telegram, vão continuar de alguma forma. A gente já viu que elas continuaram em alguma medida em 2020. Mas é isso, nada se repete numa campanha. Nem a campanha do Obama em 2012 repetiu a campanha de 2008. O sucesso da campanha, a novidade, o formato, isso é sempre um grande ganho.

Embora o WhatsApp tenha sido utilizado em 2020 (e eu acredito que vai continuar no ano que vem), pode aparecer outra ferramenta, ou outro tipo de utilização de determinadas ferramentas que nós já temos. Porque o que aconteceu em 2018, já não aconteceu em 2020. O uso foi muito diferente.

Quando você faz isso, você dribla um pouco a justiça eleitoral. Porque a justiça eleitoral só prevê e regula determinado uso quando ele acontece, ela não consegue ver isso antes. O WhatsApp teve esse sucesso em 2018 porque foi uma ferramenta que não tínhamos fiscalização nenhuma. Não tinha nada previsto na legislação eleitoral que punisse a utilização, que regulasse o uso daquele tipo de serviço. Então isso ajudou muito pra que aquela campanha se utilizasse dessa ferramenta e tivesse tanto sucesso nessa utilização como teve e como continua tendo.

IN: O que você espera da CPI?

IBM: Eu quero esperar muito, eu quero esperar que haja resultados. Eu acho que as instituições precisam disso. Especialmente o parlamento, que é a instituição que abriga a CPI, precisa dar uma resposta à sociedade. Ela precisa mostrar que tá funcionando. Acho que tudo tem que girar em torno de ações e resultados e, de fato, gerar investigações criminais, prisões, pra que se reforce a credibilidade no funcionamento das instituições.

Muito mais do que fazer bravatas, muito mais do que fazer essa governança, essa representatividade de redes sociais, dar bons jargões e no final das contas sair o resultado em um relatório que não vai prender ninguém, que não vai iniciar um processo criminal, de fato. O que não é exatamente o cerne da CPI, eles não têm poder de judiciário, é o parlamento. Mas eu acho que é uma coisa que precisa subir, de fato, para instâncias do judiciário, haver julgamento e punição para esse tipo de negligência.

IN: Quais são os métodos mais eficientes que um jornalista tem hoje para contornar a desinformação política?

IBM: Acho que a coisa mais importante que o jornalista tem hoje é o espaço que ele já tem consolidado. Por mais que o jornalismo passe por um período de instabilidade, por que até figuras oficiais tentam descredibilizar o discurso do jornalismo, eu acho que o jornalista ainda tem um espaço.

Muito mais do que criar agências de checagem, de fato, o jornalismo tem aquele espaço ali já garantido de falar uma notícia de que alguém mentiu.

O jornalismo brasileiro tem uma dificuldade muito grande de dizer que uma figura pública mentiu, e isso precisa ser dito com todas as letras, com a palavra certa: mentira. Não precisa falar “fake”, em inglês. Tem que dizer: mentira, em português.

Eu acho que a gente tem um espaço oficial, e esse espaço precisa ser usado. Porque as pessoas não vão atrás da agência de checagem. Eu não tenho pesquisas sobre isso, mas tenho certeza que os acessos a esses produtos que são feitos pelas agências de checagem são muito menos acessados, certamente, do que as notícias que saem no feed dos jornais.

Então eu acho que esses espaços precisam ser aproveitados dessa forma, e não criarem-se novos recursos que as pessoas talvez não vão acessar. As notícias precisam dizer, elas precisam ser a própria checagem de fatos.

IN: Quais são as diferenças entre o eleitor maranhense e o eleitor cearense?

IBM: Eita! Acho que não vou saber responder essa não. A gente tem histórias parecidas a longo prazo. Histórias parecidas de coronelismo nos dois estados. Os nove estados do nordeste tem essa característica em comum, a gente foi muito marcado pelo coronelismo, pelos currais eleitorais, pelo voto de cabresto. E a gente foi marcado, também, pela presença de interventores políticos famosos que, digamos assim, se renderam à ditadura militar para sobreviver politicamente e exerceram esse papel de interventores, como foi no caso do Carlos Jereissati no Ceará, e do José Sarney aqui. Os dois foram indivíduos que estavam ali no PMDB. E eu acho que a gente tem essa história que vai influenciar muito, lógico, como esse eleitores se comportam a médio e longo prazo.

E a gente tem esse histórico de ter virado a chave e ficado um pouco mais progressista, no sentido de eleger partidos mais ligados ao espectro político mais de centro esquerda, esquerda em algum momento. Então, nacionalmente, a gente vota parecido, embora o Ceará tenha tido isso de uma maneira mais extensa. No estado todo, por exemplo, em 2018, não houve regiões em que se ganhasse o Jair Bolsonaro. E aqui, nessa região próxima de Imperatriz, ele ganhou com folga.

Mas aí nós temos a diferença dessa região, é que no Ceará não tem essa cultura de latifúndio e desmatamento do jeito que aqui tem. Mesmo que haja, ali no sul do Ceará,  alguma coisa, ainda não tem a proporção que tem aqui.

 

BATE-BOLA:

IMPERATRIZ NOTÍCIAS: Um livro que mudou sua vida.

Isabele Batista Mitozo: “Cem Anos de Solidão”, do Gabriel García Márquez.

IN: Um livro que você gostaria de ter escrito.

IBM: “A Sibila”, de Agustina Bessa-Luís.

IN: Uma música para tocar na sua playlist.

IBM: “These days”, do Bon Jovi. Acho que tem tudo a ver com esse momento.

IN: Uma série que você indicaria.

IBM: Grace and Frankie.

IN: Uma dica para quem quer pesquisar comportamento eleitoral.

IBM: Você tem que ler notícias diariamente, você tem que fazer seu clipping pessoal pra acompanhar as notícias diárias. Depois, você precisa fazer as leituras acadêmicas pra conhecer o que que a gente já tem de resultado na área. E a partir desses resultados, o que a literatura já encontrou hoje e já estabeleceu, como, por exemplo, variáveis analíticas. Aí você pensa, a partir do seu objeto de pesquisa que você definir, nos seus problemas que ainda precisam ser resolvidos, ou se aquele objeto de pesquisa traz desafios a essas variáveis que já foram estabelecidas.

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