Mulheres negras têm pouca representatividade no campo das ciências tecnológicas

Repórteres: Basiliano Neto, Elenir Castro e Venilson Cordeiro

Foto: Basiliano Neto

Steffane de Oliveira Castro segurando o simulador de games para jogos.

 

As mulheres negras ainda têm pouca visibilidade no meio tecnológico. Conforme a pesquisa realizada pelo PretaLab, em 2019, essas mulheres têm o pior índice de emprego no mercado tecnológico, uma vez que ocupam somente um terço do espaço para profissionais de tecnologia e inovação.

Um reflexo do machismo e racismo enraizados são os resultados do levantamento realizado pela Instituição de Ensino Superior e Pesquisa Sem Fins Lucrativos (INSPER), feito em setembro de 2020. De acordo com a investigação, homens brancos tem um salário médio de 159% maior que mulheres pretas com o mesmo nível de escolaridade. Assim, a pouca representatividade desse grupo de mulheres, contribui para a escassez delas no ramo da tecnologia e até mesmo nas universidades.

Alguns projetos como o Olabi, uma organização social com sede no Rio de Janeiro, lançada em março de 2017, tem estimulado a inclusão de meninas, mulheres negras e indígenas no universo das novas tecnologias. No Instituto Federal do Maranhão (IFMA), o projeto de extensão Mermãs Digitais, administrado por Steffane de Oliveira Castro, é voltado para meninas maranhenses brancas ou negras, que estudam tecnologia. É uma ramificação do grupo nacional Meninas Digitais.

Steffane de Oliveira Castro, 24 anos, moradora de Imperatriz, é estudante do oitovo período do curso de Ciências da Computação no IFMA.  Além de administradora do grupo de ramificação maranhense e fazer parte do PretaLab, também possui um canal no YouTube. O seu canal é voltado para criação de tecnologias, chamado Derivada de Constante.

Leia a seguir, a entrevista realizada com ela, acerca da sua visão sobre o cenário feminino e tecnológico vigente:

 

Imperatriz Notícias: Na sua concepção, a pouca representatividade de mulheres negras nos meios tecnológicos contribui para que o público feminino tenha pouco interesse na área?

Steffane Castro: Sim, contribui demais. Quando eu entrei na área de tecnologia, não haviam mulheres negras. Para mim, ter mulher na tecnologia já me faz sentir abraçada. Quando vemos uma pessoa parecida, ou seja, que curte as mesmas coisas que você, acaba te inspirando e atraindo. Principalmente, a mulher negra, até porque nós somos poucas nesse cenário.

IN: Quais os outros aspectos que contribuem para a falta de mulheres no mercado tecnológico?

SC: O principal, é que é uma área muito masculina. Quando pensam em alguém que é da área da computação, pensam em na imagem de homem branco, de classe média alta, que faz parte da tecnologia. Raramente imaginam uma mulher. E pensar em uma mulher negra é mais difícil ainda. Outro ponto principal, é que as pessoas acham que a mulher tem menos capacidade que o homem de fazer determinada coisa relacionada à tecnologia. Sempre pensam que a mulher é inferior ao homem.

IN: O mercado da tecnologia seria mais promissor caso investisse nessa minoria?

SC: Com certeza. Ultimamente, tem-se investido muito na questão da diversidade. Uma empresa que vejo que atrai muito nesse âmbito, é a Magazine Luiza. Ano passado, eu participei de um projeto dela, o ‘LuizaLab’, faz parte do meio tecnológico da empresa. Eles criaram o ‘Luizacod’, um programa que incentiva as mulheres a aprender uma determinada linguagem de programação. Tivemos dois meses de curso, e no final, eles separaram os grupos e tivemos que criar um site, lá eu entendi o que era o mercado de trabalho para a mulher na área da tecnologia.

IN: De modo geral, as mulheres negras estão entrando no mercado tecnológico?

SC: Estão aumentando, inclusive, eu faço parte de dois coletivos de mulheres, um em Goiás e o outro em Minas Gerais, em que eles selecionam meninas negras de todo Brasil para participar e treinar. Toda semana, é postado no feed de notícias em suas redes sociais, os relatos das meninas que conseguiram emprego na área. Esses coletivos visam ajudar umas às outras, porque quando estamos sozinhas, é meio difícil de se firmar e continuar na área. Porém, quando vem outra pessoa para ajudar, é muito bom. Com o meu projeto Mermãs Digitais quero atrair mais meninas para a área e negras também.

IN: O que incentivou você a criar o canal no YouTube Derivada de Constante?

SC: Na verdade foi criado pelo meu irmão, ele gosta muito de criar coisas, inovar. E então, ele fez um vídeo, e começou a dar muitas visualizações. Logo, ele disse para mim: “vamos fazer um canal, nós gostamos disso, podemos tentar”, assim, não foi uma coisa planejada. Agora que estamos planejando direitinho a postagem e os conteúdos.

IN: Entre todos os projetos publicados em seu canal do YouTube, qual foi o mais interessante para você?

SC: Gostei de uma para aula EAD, que é um sensor que colocamos na frente do computador e com um visor de led, assim, se sair da cadeira antes da aula acabar, ele começa a apitar até voltar para a cadeira.

IN: Os projetos elaborados para no canal Derivada de Constante, criados por você e seu irmão ficam disponíveis para seus seguidores refazerem, mas também vocês vendem os projetos?

SC: As pessoas sabem que fomos nós que criamos, então eles podem pegar a ideia, reproduzir ou transformar de acordo como acharem melhor para sua finalidade. Tem pessoas que entram em contato com a gente para criar projetos específicos, então fazemos e vendemos para aquela determinada pessoa.

IN: No que se trata de incentivar meninas negras a entrarem no campo tecnológico, quais são as suas dicas?

SC: Minha dica para incentivar as meninas negras na área de tecnologia é: Pesquise sempre por referências que as façam se sentir representada. Existem poucas mulheres negras nessa área e eu sempre procuro me espelhar nelas para seguir firme.

IN: Quais os principais desafios para a entrada das mulheres negras no mercado de trabalho tecnológico e quais processos poderiam mudar essa realidade de desigualdades de oportunidades e salários?

SC: O principal desafio é o fator estereótipo. Muita gente ainda vê essa área como sendo 100% dominada pela presença masculina. É fato que os homens são maioria, porém as mulheres estão ganhando seu espaço tanto na tecnologia quanto nas Ciências Exatas. A mulher negra tem o dobro da dificuldade porque ela tem que além de lidar com a questão do estereótipo ainda tem que lidar com o preconceito também.

SAIBA MAIS

PretaLab – Projeto do Olabi trabalha para incluir mais mulheres negras na inovação e tecnologia.

Site: www.pretalab.com

Instagram: @pretalab_

Mermãs Digitais – Projeto de extensão que tem o objetivo de incentivar meninas do ensino médio da rede pública a desenvolver interesse no campo da tecnologia.

Instagram: @mermas.digitais

Derivada de Constante – Canal no Youtube voltado para criação de dispositivos de uso doméstico utilizando microprocessadores.

YouTube: Derivada de constante

Instagram: @derivada.de.constante

Meninas Digitais – O projeto tem como objetivo divulgar a área da Computação e suas tecnologias para despertar o interesse de meninas estudantes do ensino médio.

Site: www.meninas.sbc.org.br

 

 

 

 

 

 

 

 

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