Muito além de um penteado, Didi comenta sobre o uso de tranças por pessoas brancas

Repórter: Brenda Caroline e Denise Pereira

Fotos: Acervo pessoal da entrevistada

 

Dilena Baldé, mais conhecida como Didi, saiu de Guiné Bissau 11 anos atrás para fazer intercâmbio na Universidade Federal de Pernambuco em Recife. Na época estudava Economia, mas logo perdeu o interesse e mudou para Administração. Entre a comunidade de intercambistas africanos conheceu seu esposo e pai de seus dois filhos, também guineense.

Embora, já nessa época, seus cabelos chamassem atenção e despertassem pedidos de amigas que queriam andar iguais a ela, demorou para que enxergasse uma possibilidade de carreira como trancista. Até porque durante a faculdade não havia necessidade financeira, pois era mantida pelos pais. “Para mim era como se fosse terapia. Inclusive, eu fazia nas pessoas sem cobrar nenhum centavo, inicialmente”, apenas para lembrar de casa e daquele comportamento tão comum no velho continente africano, em que as mães trançavam as filhas, as amigas, desde muito cedo, como uma espécie de troca natural de demonstração de afeto e expressão cultural.

Mas a medida em que sua habilidade como trancista saltava aos olhos e, mesmo as colegas, insistiam em pagar pelo serviço, surgiu o interesse em abrir seu próprio espaço profissional e deixar de atender na sala de seu apartamento. Entretanto, na época, o mercado ainda não dispunha de uma gama de produtos necessários para manter um salão voltado para cabelos afro. Foi então que com a ajuda do esposo, o economista e doutor em estudos estratégicos internacionais, passou a buscar por fornecedores de cabelos sintéticos, unindo a ideia do salão à loja de cabelos.

Hoje, aos 31 anos, e tendo aberto seu salão há pouco mais de três anos, já coleciona um currículo admirável e um número cada vez mais alto de clientes fiéis e soma mais de 17 mil seguidores nas redes sociais. No Instagram (@didi.cabelos e @diditrancas) os funcionários reproduzem dublagens e outros desafios de vídeos famosos para divulgar os produtos. Essa estratégia de marketing também reflete a identidade da dona e da empresa como um todo: jovem, divertida e muito receptiva.

Em Imperatriz há quatro anos, Didi se divide entre o cuidado dos filhos pequenos e a administração de duas lojas, um salão de beleza e um e-commerce. Na entrevista a seguir ela comenta sobre o choque cultural que é se perceber mulher preta em um país com tantas questões raciais problemáticas, fala sobre apropriação racial e outras pautas relacionadas aos cabelos afro no Brasil.

Imperatriz Notícias: O Brasil tenta vender uma ideia de povo hospitaleiro com estrangeiros. Você sentiu essa hospitalidade quando chegou no país?

Dilena Baldé Sanca Rodrigues: Quando cheguei em Recife a gente tinha uma comunidade de intercambistas, então não sentíamos muito isso porque a gente se juntava e um confortava o outro na questão de ausência, saudade. Mas assim, o povo de Recife é muito fechado e a gente não sentia receptividade. Até brincávamos que com negros americanos eles dão atenção e brincam, mas com a gente não, porque pensam “são todos pobrezinhos”, entendeu?

 

IN: Então você sente que é uma hospitalidade seletiva?

Didi: Eu acho. Pra ser muito sincera, do fundo do meu coração. Eu falo de Recife, porque morei lá mais tempo, mas aqui [em Imperatriz, as pessoas] são mais abertas, você conhece uma pessoa hoje e já convida pra casa. E nós africanos somos assim também, muito receptivos.

NI: Quando você começou a trabalhar com cabelos aqui em Imperatriz, já tinha visão de ter uma rede especializada em comércio de cabelos sintéticos ou esse desejo surgiu de uma necessidade que você sentia no mercado?

Didi: Surgiu de uma necessidade. Quando comecei a fazer cabelo eu usava o cabelo que minha mãe mandava da África para meu uso pessoal, porque quando ela vê que alguém vai viajar já faz uma mala de cabelos (risos). Então eu usava esses cabelos também nas outras pessoas. Quando começou a acabar esses produtos eu pensava “onde que eu acho? Onde eu caço?”, aí que entrou a necessidade de montar uma loja porque eu via que aqui não tinha. Falei com meu esposo e começamos a pesquisar fornecedores e assim surgiu a loja.

IN: E quando falam que uma pessoa negra que coloca tranças ou aplique por sentir vergonha da própria raça? O que você acha disso?

Didi: Eu não vejo vergonha nenhuma nisso. Mas esse assunto eu ainda entender direito, é novo para mim, porque na África a gente não tem isso. Lá a pessoa usa o cabelo do jeito que quiser, seja trança ou cabelo natural. Quando eu cheguei aqui no Brasil, foi que comecei a aprender essa questão de vocês, porque como aqui é um país miscigenado, então eu não senti o que vocês sentem desde pequenos na escola, de falar que o cabelo de vocês é ruim, é feio… Eu não vivi isso. Lá na África a gente já nasce tendo orgulho do nosso cabelo. Ainda tô aprendendo a lidar com isso, a buscar uma resposta pra cada situação. Enfim, não vejo vergonha nenhuma nisso, porque a pessoa é livre. Não acho que [ao colocar trança] a pessoa tá escondendo o cabelo, ela está optando pela cultura, entendeu? Faz parte da cultura.

IN: Branco pode usar trança?

Didi: No meu ponto de vista pode. Não vejo problema nenhum, desde que a pessoa conheça a história. Não é só carregar uma coisa na cabeça sem saber pra que é e achar que é moda porque está na moda.

IN: E você coloca tranças/apliques em pessoas brancas?

Didi: Eu aplico cabelo em seres humanos. Em pessoas humanas.

IN: Mas e se esse ser humano for da raça branca e vier aplicar tranças com você… Você explica sobre a história que essa trança carrega? Tenta falar alguma coisa?

Didi: Olha, hoje em dia como a equipe aumentou, não consigo mais fazer agendamentos. Mas há muito tempo atrás quando era eu quem fazia os agendamentos, sempre mandava a pessoa pesquisar sobre a história da trança antes de colocar. Hoje quando uma pessoa branca vem no salão ela já vem ciente. Nunca vi uma pessoa branca entrar aqui falando alguma coisa ruim sobre tranças. A gente sempre tenta discutir coisas legais falando sobre a história e a cultura [das tranças]. Hoje em dia a pessoa tem que estar ciente, tem que pesquisar. Tem dias que tenho vontade de dar aula de História (risos), aí eu conto, mas tem dias que não estou a fim de explicar.

 

IN: O que você acha quando pessoas negras falam sobre o uso de tranças por pessoas brancas ser apropriação cultural, e são respondidas com o argumento de que da mesma forma o uso de alisamento em cabelo crespo ou o uso de aplique de cabelo liso é apropriação cultural branca?

Didi: Um absurdo. Porque a gente, pretos, podemos fazer o que bem entendermos no nosso cabelo. Eu conheço pretos de cabelo liso, é da natureza. Aqui [no Brasil] não sei, porque quando falo desse assunto estou falando mais de África, que é onde nasci, onde conheci a cultura bem direitinho. Tem pessoas que já nascem com o cabelo liso sem usar nenhum tipo de química. E se quiser usar produto químico não tem problema nenhum, não tem nada de apropriação aí. Agora, branco usando trança tem que saber pra quê está usando aquela trança. Tem alguma história de branco passando por alguma situação no passado usando química? Não tem. Agora trança tem uma história aí, uma cultura.

IN: E qual é a história?

Didi: Trança antigamente era muito usada pelo povo escravizado que sinalizavam os caminhos para chegar… Como é que vocês falam? numa rota de fuga, nos quilombos. Aí eles usavam aquelas tranças desenhadas como um mapa para chegarem no quilombo. As vezes até colocavam arroz pra poder explicar o mapa. [Essa prática] era feita em todo país onde existiam pessoas pretas escravizadas. Tem até estudos a respeito.

IN: Muito obrigada pela entrevista. Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Didi: Não, não, acredito que é só isso. A questão da apropriação eu não aprofundo muito porque é uma coisa que estou conhecendo agora, como te falei. Na África não tem essas coisas porque a gente já nasce negro, convive com pessoas negras, a gente não sofre preconceito. Inclusive eu vim saber o que era preconceito de raça aqui no Brasil, lá a gente não sente.

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