"Percebo que uma geração totalmente conectada não viveu a materialidade, uma galera que não está ligada na importância de parar um tempo, cortar, colar, montar e produzir, e isso é novo pra eles, o grande lance nessa questão é que o zine é novo, e encanta no primeiro momento"

“Percebo que uma geração totalmente conectada não viveu a materialidade, uma galera que não está ligada na importância de parar um tempo, cortar, colar, montar e produzir, e isso é novo pra eles, o grande lance nessa questão é que o zine é novo, e encanta no primeiro momento”

Texto e fotos de Giuliana Piancó

 

 

Jornalista por formação, repórter na empresa TV Mirante, comunicadora popular na Rádio Poste Caema e “zineira” por paixão. Assim se autodescreve em seu perfil no Facebook  Lanna Luiza, ex-aluna do curso de Comunicação Social-Jornalismo e uma entusiasta e pesquisadora da arte da Educomunicação, uma área de conhecimento que propõe métodos de ensino/ ações planejamento no qual a comunicação e a mídia em geral são utilizadas como elemento de educação.

O tema que guiou seu Trabalho de Conclusão de Curso deu o pontapé inicial para um projeto realizado na escola estadual Professor Edinan Moraes, “Zine Itinerante”, onde usou como ferramenta de construção do alinhamento entre comunicação e educação o Fanzine, revista manual e artesanal de corte e cola com o intuito de incentivar o desenvolvimento crítico e cidadão dos alunos.

“Foi uma sementinha plantada”, afirma Lanna. Uma semente que na verdade representa muito no sentido de alfabetizar midiaticamente os jovens para uma leitura mais crítica do que é veiculado na mídia, bem como uma forma de discutir seus próprios anseio por meio da produção jornalística. Confira a seguir entrevista completa e muito mais sobre o assunto:

 

Imperatriz Notícias: O que despertou seu interesse pela Educomunicação já que não é um tema presente na grade curricular de Comunicação Social?

Lanna Luiza: O meu primeiro contato com essa área do conhecimento foi no Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação Social (Enecos), encontros que acontecem anualmente e são promovidos por estudantes de Comunicação Social de todo o país. Foi um mergulho num universo que até então a universidade não havia me proporcionado, pois você percebe que existe uma tendência ao tecnicismo, as disciplinas são um pouco engessadas. Os professores que eu tive, sem exceção, fizeram seu melhor, e contribuíram muito para meu processo de formação, mas foi nesse encontro que eu tive a primeira experiência. O meu encontro prático foi no assentamento Santo Antonio, em que ouvimos a comunidade e começamos a pensar em como trabalhar a comunicação.

I.N: Incluir esse tema no curso seria importante para o desenvolvimento profissional do jornalista?

L.L: Foi essa proposta alternativa de pensar comunicação após a Enecos que faz compreender o nosso real sentido, a nossa sensibilidade, e o despertar da nossa função social no mundo. Nós jornalistas temos uma função social importantíssima, guiamos a vida de pessoas, e isso requer uma responsabilidade enorme. Então eu acho que a educomunicação deve estar, sim, na grade do nosso curso porque assim estaremos dando a contrapartida para sociedade. Vejo que dentro do curso essa proposta formaria jornalistas responsáveis com uma função social.

I.N: A Educomunicação pode ser considerada uma ferramenta de resgate do papel social do jornalista?

L.L: Acredito que sim, a educomunicação vai criar métodos e procedimentos pra formar nossa competência comunicativa. É incrível, fascinante, claro que faço aqui uma fala de fascínio porque sou muito envolvida nessa área do conhecimento, mas a Educomunicação pode proporcionar isso para os estudantes de jornalismo sim, fazer com que ele planeje e veja o caráter educativo do jornalismo. A Educomunicação liberta essas amarras de “o que é fazer o jornalismo hoje”. Paulo Freire disse que ensinar não é transferir conhecimento, mas é criar possibilidades para sua própria construção, e o jornalismo faz isso, dá ao leitor, telespectador, a capacidade de produzir seu próprio raciocínio. O barato disso tudo é poder escolher por qual viés educar e entender essa prática, criando uma sociedade muito mais cidadã. Eu acho que o Sibita, (revista artesanal produzida na UFMA) faz isso, mesmo que não vá pra escola, é um laboratório, por isso é um projeto fantástico, a gente repensa nossa função.

I.N: Esse trabalho de aproximar a comunicação da escola contribui de alguma forma para mudar a visão da sociedade e combater o analfabetismo midiático?

L.L:. O combate ao analfabetismo midiático é exatamente isso, a Educomunicação semeia a autonomia para o individuo entender o porquê das coisas, o que essa mídia está querendo dizer. Não basta ser letrado na escola, isso não lhe dá suporte pra compreender como funciona essa conjuntura e entender que um jornal segue uma linha editorial e que a imparcialidade está um pouco distante do que a gente almeja para o jornalismo. É importante a emancipação humana.

 

 

I.N: Na prática, o alinhamento da comunicação com a educação age de maneira mais individual em cada estudante, quais foram as mudanças mais perceptíveis nos alunos que tiveram acesso a esse projeto?

L.L: Ao produzir o zine, notei a capacidade de ler e escrever com mais vontade e sem amarras, os meninos escreviam e criavam poesias sobre as aulas, essa liberdade de criação foi uma das coisas que posso dizer que foi o destaque do trabalho. Colocar dentro de um ambiente em que eles precisam cumprir normas e esperar notas, uma forma de liberdade de expressão foi crucial, assim como o desenvolvimento do pensamento critico. É importante ler, escrever, se expressar e, mais que isso, é importante entender. Tanto o material didático das escolas, como os jornais, emitem uma opinião, então por que não ler um livro de literatura e emitir sua própria opinião sobre ele? Esse despertar foi uma das coisas mais fantásticas que observei.

I.N: Como afirmou, sua ferramenta para levar a Educomunicação até a escola foi o fanzine, mas porque escolher utilizar o zine, que é uma revista artesanal de corte a cola, em uma geração totalmente tomada pela tecnologia?

Que pergunta incrível, eu sempre quis responder isso! (risos) então, porque zine? Primeiro que partiu de algo que me deu motivação, algo que eu sentia segurança em passar. Percebo que uma geração totalmente conectada não viveu a materialidade, uma galera que não está ligada na importância de parar um tempo, cortar, colar, montar e produzir, e isso é novo pra eles, o grande lance nessa questão é que o zine é novo, e encanta no primeiro momento. Fiz oficinas e percebi que mesmo os que não eram muito ligados ao trabalho manual se envolviam, porque estão distantes disso atualmente, no decorrer do processo alguns ficaram mais habilidosos ou apenas despertaram isso.  O zine trabalha essa materialidade perdida com as redes sociais, outra coisa interessante é que trabalhar com o fanzine não fez com que eu deixasse de trabalhar as outras mídias, tiveram textos, por exemplo, que foram construídos através do whatsapp. Uma das propostas criadas através do “Educazine”, que foi a revista criada na escola, é que ela também vá para o meio digital futuramente.

I.N: A Educomunicação dentro das escolas, garantida pelo Estado, colaboraria para uma educação com maior espaço definitivo de formação crítica e cidadã?

L.L: Sim, uma das propostas do meu trabalho é isso, que esse seja um projeto exemplo, além de todos esses ganhos, no Educazine, cada matéria da escola tinha uma página, essa é uma produção que envolve a escola como um todo. A Fapema, por exemplo, é uma instituição que poderia receber isso como projeto e desenvolver em longo prazo.

I.N: E o que você levou de toda essa experiência para o seu mercado de trabalho atual como jornalista?

L.L: Essa experiência me ensinou a ser uma profissional humilde. Minha área não é superior a outra, estamos na terra enquanto pesquisadores, jornalistas, estudantes, para lembrar que não saber é o ponto de partida pra saber. Aprendi com Paulo Freire que não devemos ter vergonha de dizer que não sabemos, estamos no universo para aprender a trocar experiências, então o que levo pra minha vida é essa responsabilidade de que eu me formei com uma função social de trocar conhecimento e apresentar possibilidades vendo o jornalismo como processo educativo. Me tornei uma pessoa mais “gente”.

Quer saber mais sobre Fanzine e Educomunicação? Confira as dicas:

 

Para ouvir:

 

Pink Floyd – Another Brick In The Wall

João do Vale – Minha História

Gilberto Gil – Parabólicamará

 

Para ler:

 

Eduardo Galeano – “As vias abertas da América Latina” e “Livro dos Abraços”

Paulo Freire – “A pedagogia da autonomia” e “A África nos ensinando”

Ismar de Oliveira – “Educomunicação – O Conceito profissional”