Artista plástico de Imperatriz, Ton Neves dedica sua trajetória à pintura regionalista e à formação de novos artistas
Emanuely Victoria
Lauanny Alencar
Entre pincéis, tintas e telas, a natureza ganha novas formas pelas mãos do artista plástico Ton Neves. Nas paisagens, nos frutos e nas pessoas que retrata, se encontra elementos que revelam sua ligação com o sul do Maranhão. José Antonio Neves da Silva, conhecido artisticamente como Ton Neves, pintar também é registrar aspectos da realidade que o cerca. Essa relação entre arte e território atravessa mais de quatro décadas de sua trajetória e aparece no minidocumentário Lágrimas Verdes: O Legado, em que a natureza assume também o sentido de resistência, transformação e renovação.
Nascido em 8 de agosto de 1963, em Pedreiras, no Maranhão, Ton Neves chegou a Imperatriz em 1969, ainda criança. Foi na cidade que construiu grande parte de sua trajetória profissional, dedica-se à pintura e, posteriormente, à formação de novos artistas. Ao longo dos anos, sua atuação passou das telas para as oficinas, os projetos culturais e os espaços educativos, amplia o alcance de seu trabalho para além da produção artística individual.

Trajetória artística
A trajetória profissional de Ton Neves começa na década de 1980, com 17 anos, trabalhando com pinturas de paredes, e em seguida, se dedicou exclusivamente às telas até hoje. Com ensino médio completo e cursos técnicos relacionados à pintura e artes plásticas, construiu sua carreira de maneira autônoma, desenvolvendo uma linguagem artística marcada pelas referências de sua região.
Especialista em óleo sobre tela, o artista define sua produção como regionalista. A natureza, as trilhas em meio à mata, os frutos típicos do Cerrado, os costumes e as pessoas do cotidiano sul-maranhense estão entre os elementos que compõem suas obras. Em vez de se limitar às paisagens, ele incorpora aspectos da vida cotidiana, incluindo objetos, alimentos e hábitos locais. Ao explicar suas escolhas, afirma: “ “Eu uso óleo sobre tela, é minha especialidade, e sou muito regionalista. Então, fico um pouco eclético sobre a questão da temática, mas gosto muito de retratar a natureza”.
A partir da década de 1990, suas obras passaram a alcançar outros países, como Japão, Itália e Estados Unidos, além do Vaticano, conforme informações de seu portfólio. A circulação internacional ampliou o alcance de sua produção, mas as referências locais ocupam um lugar central em seu trabalho. A região sul-maranhense é a maior fonte de inspiração para a maneira como o artista observa e representa as relações entre as pessoas e o ambiente em que vivem.

A arte em Imperatriz
Construir uma carreira artística em Imperatriz significava enfrentar dificuldades que vão além do processo criativo. Ton Neves relata que a escassez de materiais e a falta de confiança na profissão dificultaram o desenvolvimento da pintura na cidade. Naquele período, telas, pincéis e tintas não eram encontrados com facilidade, o que exigia dos artistas alternativas para manter a produção.
O próprio pintor participou desse processo de adaptação. Segundo ele, os artistas precisavam orientar comerciantes locais sobre os materiais que poderiam disponibilizar para atender às necessidades de quem trabalha com pintura. “A gente mesmo foi se infiltrando no meio da situação e indicando material para algumas lojas comprarem: telas, pincéis, tintas, enfim, os aglutinantes da tinta”, conta. A dificuldade de acesso aos instrumentos de pintura causava a descredibilidade enfrentada por quem escolhia a arte como profissão. “As pessoas não acreditavam muito no projeto; sempre achavam que o cara ia morrer de fome porque é artista”, recorda.
Ao longo dos anos, exposições, oficinas e iniciativas coletivas ajudaram a movimentar o cenário artístico local. Ton Neves avalia que Imperatriz passou por mudanças importantes desde o início de sua carreira, com o surgimento de novos artistas, espaços de exposição e pessoas interessadas em adquirir obras. Em sua percepção, o ensino e a articulação entre profissionais contribuíram para esse desenvolvimento. Sua trajetória, nesse sentido, está ligada também às transformações que ele acompanhou no ambiente cultural da cidade, “E eu acho que tenho a felicidade de dizer que, através dos meus ensinamentos, mudei esse panorama. Depois vieram alguns outros colegas e a gente se juntou. Estamos trabalhando juntos para melhorar cada vez mais”.
Avanços artísticos e culturais

A ligação do artista com a natureza também aparece em uma de suas exposições: Lágrimas Verdes: O Legado, feita no Centro Cultural Tatajuba, foi produzido um minidocumentário onde Ton Neves relaciona os ciclos naturais à experiência humana, refletindo sobre a capacidade de transformação e renovação mesmo diante da destruição. A preservação da vida e a natureza como suporte para a existência atravessam suas reflexões, aproximando a produção artística de questões que ultrapassam os limites da pintura.
Apesar de seus avanços, o artista mantém uma visão crítica sobre o incentivo à cultura. Ele aponta a insuficiência de investimentos públicos, a escassez de patrocínios privados e as dificuldades para acessar recursos por meio de editais. A burocracia desses processos, segundo ele, representa uma barreira adicional para profissionais que nem sempre dispõem de preparação técnica para elaborar projetos e concorrer aos financiamentos. “Então, o apoio, de uma forma geral, é precário, é muito ruim”, afirma.
Ton Neves também questiona a consolidação de uma identidade cultural própria de Imperatriz: “O Maranhão, de uma forma geral, tem Bumba Meu Boi. Imperatriz não tem. No Nordeste, há as festas juninas; em Imperatriz, participam esporadicamente. Enfim, nós não temos uma cultura ainda firmada para dizer: “Essa é nossa.” Espero que, lá no futuro — no futuro próximo —, a gente tenha isso” Em sua avaliação, a cidade ainda precisa fortalecer manifestações que a representem de maneira mais consistente. Essa percepção está relacionada à sua preocupação com a continuidade da produção artística e com as condições necessárias para que os profissionais permaneçam atuando. Para ele, ampliar o espaço da arte depende de apoio, parcerias e oportunidades que permitam à cultura se desenvolver.
Histórico Artístico
Paralelamente à produção artística, Ton Neves construiu uma trajetória ligada ao ensino e à promoção da cultura em Imperatriz. Em 1989, foi nomeado diretor do Setor de Conservação do Meio Ambiente da prefeitura municipal. Anos depois, em 1997, ministrou sua primeira oficina de pintura na Casa do Artesão, iniciando formalmente essa etapa de formação de novos artistas. Posteriormente, atuou na Fundação Cultural de Imperatriz, onde participou da promoção de concursos e oficinas de pintura, incluindo atividades direcionadas a professores da rede municipal de ensino. Em 2002, passou a integrar o Conselho Municipal de Cultura como conselheiro titular representante das artes plásticas.
Atualmente, seu trabalho educativo está ligado ao Centro Cultural Tatajuba, em Imperatriz, e à Sala de Artes Maria Cândida Portinari, localizada no povoado Bom Lugar, em João Lisboa. Nesse último espaço, atua em parceria com a Biblioteca Comunitária Poeta Ângelo Natanael e o padre Hernandes, desenvolvendo atividades voltadas à comunidade. O projeto tem importância especial para o artista por alcançar crianças, jovens e pessoas de baixa renda, aproximando a formação artística de públicos que nem sempre encontram oportunidades de acesso a cursos e oficinas.

Seus diversos projetos artísticos
Entre as iniciativas registradas em seu portfólio artístico, estão o projeto Caminho das Artes, que proporcionou a estudantes da rede municipal, incluindo alunos da zona rural, contato com atividades culturais no Teatro Municipal Viriato Corrêa; a exposição educativa As Cores das Joaninhas, com trabalhos de alunos de pintura a óleo inspirados no estilo de Cândido Portinari; e ações de Arte Inclusiva, voltadas à expressão, à comunicação e à interação social de crianças com autismo. As experiências mostram diferentes possibilidades de utilização da arte na educação e na participação cultural.

Em relação aos projetos atuais, Ton Neves destaca a parceria desenvolvida em Bom Lugar como uma das iniciativas mais importantes de sua trajetória recente. O trabalho permite que o ensino de pintura e desenho chegue a uma comunidade rural e a pessoas com acesso limitado a oportunidades culturais. Nesse contexto, a formação artística deixa de ser apenas o aprendizado de uma técnica e passa a representar uma possibilidade de experimentação, expressão e descoberta de novas habilidades.
Projeto de ampliação à cultura
Os planos de Ton Neves para os próximos anos seguem a preocupação de aproximar a arte de mais pessoas: “Eu pretendo, nesses próximos anos, abrir uma escola permanente de arte, que já está em curso, para atender todas as pessoas da nossa cidade, com preço acessível e condições para incluir pessoas de baixa renda nesses projetos, principalmente crianças carentes e pessoas que têm vontade de fazer um curso, mas não conseguem”. A proposta é ampliar o atendimento a crianças, pessoas de baixa renda e outros interessados em desenvolver habilidades na pintura e no desenho. Para viabilizar o projeto, ele trabalha na organização do Ateliê Tonneves e na formalização de uma associação ou instituto que permita captar recursos e estabelecer parcerias, para criar condições para que a formação artística tenha continuidade, em vez de depender apenas de oficinas pontuais.
Outro objetivo é promover capacitações para professores de Arte das redes públicas municipal e estadual. Ton Neves considera que a formação específica desses profissionais precisa ser fortalecida para que o ensino de pintura e desenho seja desenvolvido com mais consistência nas escolas para ampliar as possibilidades de aprendizagem dos estudantes e contribuir para a presença das artes visuais na educação básica: “Geralmente, oficialmente, nossos professores de arte são de matemática ou português; migram como um quebra-galho para ser professor de arte. E isso empobrece muito o quadro da educação no nosso município.” comenta.
Ao projetar o futuro do ateliê, o artista associa seus planos à possibilidade de ampliar as oportunidades culturais na cidade. “O Ateliê Toneves em breve vai estar com as portas abertas para mudar, de fato, a história dessa cidade no contexto de produzir mais artistas e dar oportunidade às pessoas de crescerem artisticamente”, afirma.
Depois de mais de quatro décadas dedicadas à pintura, Ton Neves continua encontrando na natureza e na realidade sul-maranhense referências para suas obras, mas sua trajetória também se constrói nas oficinas, nas salas de aula e nos projetos que aproximam outras pessoas da arte. Entre a criação individual e o trabalho coletivo, o artista procura ampliar o espaço da pintura em Imperatriz e fazer com que novas gerações encontrem oportunidades para desenvolver suas próprias formas de expressão.