O uso de literatura, serigrafia e pintura na busca pela manifestação artística em Imperatriz
Gabriel Cruz
Nicole Bianca

Antônio Alexandre Rodrigues de Oliveira, 57, é artista há 39 anos e ao longo dos anos explorou diversas vertentes, como as artes plásticas, a cultura geek e a literatura, sendo inspirado pelo que foge do óbvio por meio da estética figurativa-abstrata e de movimentos artísticos como o dadaísmo, que é uma reação de protesto contra o caos, a irracionalidade e a violência.
O primeiro con(tato) com a arte
Alexandre Rodrigues nasceu na cidade de Itaguatins, Tocantins, em 1969. Com quatro anos de idade, foi com sua família de barco para Bela Vista, e no fim dos anos 70 veio para Imperatriz. Desde criança, Alexandre teve uma vida marcada pelo que chama de “situações orgânicas”, marcadas por vivências táteis e sensoriais. Pescarias com tios e primos e brinquedos feitos de materiais naturais fizeram parte essencial de sua trajetória como indivíduo e como artista. “Eu toquei para poder aprender”, relata.

No início dos anos 80, ele se deparou com uma obra que atraiu sua atenção. Uma imagem plana, mas que parecia possuir altura, comprimento e largura. Esse desenho em 3D fascinou o jovem Alexandre pelas artes visuais. Alguns anos depois, no Instituto Federal de Educação (IFMA, antigo CEFET-MA), um grupo de amigos apresentou outro aspecto da arte a Alexandre: a poesia. Por meio de artistas do MPB raiz, como Itamar Assumpção, Jorge Mautner e Xangai, Alexandre mergulha nas profundas águas da arte.
Sobre (não) estar só
Em 1987, Alexandre conhece a serigrafia, uma técnica de impressão em que a tinta é forçada através de uma tela preparada, e o estêncil, que usa um molde recortado. Ambas criam imagens duráveis e vibrantes, características que tornaram possível a sua principal fonte de renda. Além disso, ele também se conectou com movimento literário e cultural dos anos 1950, a geração beat, que explorava liberdade individual, espiritualidade, experimentação e contestação dos valores tradicionais.
No decorrer de sua vida, esses aspectos da busca pelo fugir do óbvio se entrelaçaram com seu interesse por simplicidade e brevidade, levando Alexandre à poesia marginal, marcada pela produção autobiográfica, linguagem coloquial, ironia e crítica social. “A poesia, em quatro palavras, desmonta você todinho”, ressalta. Essa curiosidade o levou à criação da agenda poética marginal, em 1989. Nela, Alexandre compilou frases de poetas desse movimento literário, como Paulo Leminski, Cacaso, Chacal e Chico Alvim. A agenda fez sucesso, e por esse motivo ele resolveu criar um pequeno produto, o bloquinho estampado com referências da cultura geek, um conjunto de interesses que incluem filmes, séries, quadrinhos, videogames, ficção científica, entre outros.



O bloquinho fez tanto sucesso que Alexandre manteve a estrutura do produto até hoje em dia e o vendeu por mais de 30 anos em escolas e universidades. Porém, mesmo com o resultado positivo, o artista ainda enfrenta desafios ao viver de arte em Imperatriz. Alexandre menciona a recusa da venda de suas mercadorias e relembra quando um diretor comunicou que ele apenas poderia vendê-los do lado de fora da escola, o que deixaria os produtos expostos ao sol e à chuva. “Imperatriz é uma prostituta abandonada por um caminhoneiro às margens da BR-010”, lamenta ao refletir sobre o sentimento de desamparo e a falta de valorização da arte na cidade.
“Imperatriz é uma prostituta abandonada por um caminhoneiro às margens da BR-010”
Nesse contexto, Alexandre descreve a vida adulta como uma fase em que os sonhos dão lugar a uma racionalidade excessiva. Entretanto, em meio a momentos de baixa autoestima e desilusão Alexandre encontrou, em seus clientes, uma fonte de ânimo para continuar. Como seu foco de venda é produtos relacionados à cultura geek, seu público é formado, em grande parte, por crianças e adolescentes. A espontaneidade, a energia e, sobretudo, os laços de amizade construídos ao longo dos anos alimentam sua vontade de persistir na arte como meio de subsistência. “Eu fui infectado por essa alegria”, afirma.
O humano por trás da arte
Alexandre revela em sua obra “O Homem Herrático e a Câmara Criogênica”, uma profunda conexão com a vivência artística e a expressão subjetiva. Para ele, as artes plásticas ocupam um lugar de destaque em relação a outras formas de expressão, pois possuem a capacidade única de transpor o eu interior existente em cada indivíduo por meio de suas obras. Diferente de outras produções artísticas, a grande particularidade das artes plásticas reside na maneira como a personalidade e os afetos dos indivíduos conseguem se materializar de forma concreta em imagem.
Essa materialização visual serve como um espelho da alma, transformando sentimentos abstratos e angústias cotidianas em formas tangíveis. Essa visão artística reflete-se diretamente na própria construção de sua narrativa literária e poética, na qual o autor utiliza metáforas visuais e sensoriais para guiar o leitor. “O Homem Herrático e a Câmara Criogênica”, não são apenas personagens e alegorias de uma história de resistência, mas sim extensões do olhar do próprio Alexandre sobre o mundo.
Além disso, a trajetória descrita na obra traduz a descida de um artista por caminhos áridos e desafiadores em busca da verdadeira expressão de sua arte. A literatura marginal e as artes visuais funcionam, dessa forma, como ferramentas de sobrevivência espiritual e estética. Alexandre demonstra que o fazer artístico exige coragem para lidar com escombros, silêncios e com o peso da própria existência, subvertendo a lógica utilitarista e consumista que tenta padronizar tanto o comportamento quanto a sensibilidade humana.
Dessa forma, o autor consolida seu legado na figura do andante que prefere o silêncio, o ócio contemplativo e a verdade dos seus próprios passos. Ao unir a literatura à materialidade das imagens plásticas, ele reforça a crença de que a arte é o canal definitivo para resgatar a essência e a singularidade do ser. Para Alexandre, aquele que ousa romper com as cópias impostas pela sociedade automatizada alcança a originalidade e a liberdade absoluta de ser dono de sua própria história e de seu próprio destino.
Planos futuros
Alexandre fará a inauguração de um espaço novo dedicado às suas produções artísticas. O local receberá o nome de Oficina Carbono e será inaugurado no dia 20 de novembro de 2026, na rua Pará, 963, entre as ruas Tamandaré e Monte Castelo. As expectativas para a inauguração é de que o local seja destinado às obras e produções não comerciais do artista, mostrando produções antigas e recentes. O local será aberto ao público e a qualquer momento do dia.
