Diretor da associação de terreiros do Sul do Maranhão fala sobre religião de matriz africana e resistências

Repórteres: Clara Teles, Elenir Castro, Venilson Sousa

Fotos: Kelly Costa

 

Diretor cultural da Associação de Terreiros do Sul do Maranhão, Astecma, em entrevista para o Imperatriz Notícias, fala sobre religiões de matriz africana, luta e resistência pela liberdade de cultuar em Imperatriz. Davi Brandão de Jesus é diretor cultural da Astecma. Graduado em Pedagogia, tem bacharelado em Direito e possui três pós-graduações: Psicopedagogia clínica institucional, Direito previdenciário e Metodologia do trabalho científico, na qual ele atua. Em Imperatriz atua como professor/diretor do Colégio Getúlio Vargas, juntamente com James de Oxalá administram a casa religiosa de matriz africana Ilé Asé Navegantes de Odoyá, também é militante do Centro de Cultura Negra, Negro Cosme.

A associação foi fundada há dois anos, mas somente em 2021 passou a ter visibilidade legal. É uma instituição voltada para todas as religiões que são descendentes dos cultos afro-brasileiros e africanos, que lutam pelo direito e pela liberdade de cultuar. Além da questão religiosa, a Astecma também tem como finalidade trazer mais assistência à educação e à cultura com o intuito de levar mais visibilidade para os povos tradicionais de terreiros, povos pertencentes de todas as religiões de matriz africana, sendo o terecô o mais comum na região sul do Maranhão e em São Luís o tambor de minas e candomblé são os mais conhecidos.

“Aqui no Brasil as pessoas usam o termo macumba de forma pejorativa, a macumba não é a religião, a macumba é a árvore que faz o tambor que representa o orixá”. Essa fala de Davi mostra o preconceito enraizado nos brasileiros quando se trata das religiões de matriz africana, e que desde sempre há essa errônea perspectiva da população sobre quem cultua ou busca a liberdade de cultuar suas crenças.

É ressaltado também que às vezes os indivíduos de matrizes africanas defrontam-se com pessoas que acham que a África é um país e não um continente. “Às vezes nós de matriz africana nos deparamos com pessoas que acham que a África é um país e não um continente, então quando a gente fala de ‘matriz africana’ estamos falando que cada povo que veio para o Brasil escravizado, eles vieram de regiões distintas do continente africano. Então, cada país como Ketu, Angola e Jeje tem uma cultura religiosa diferente, quando chegaram no Brasil teve a miscigenação.” Neste contexto, percebe-se que a intolerância religiosa por parte da sociedade se dá pela falta de conhecimento.

No decorrer da entrevista o diretor afirma que a sociedade maranhense não sabe usar a representatividade e isso fica mais explícito quando olhamos para a Câmera dos Vereadores e não vemos uma mulher negra, por exemplo. Como modelo mais explícito, temos os 21 vereadores da câmara municipal de Imperatriz, em que a maior parte deles estão na classe privilegiada, são homens, brancos e fazem parte de grupos religiosos bem “aceitos” na sociedade. Evidencia-se, portanto, o fato de que essa visibilidade do povo afro brasileiro e suas religiões ainda não são uma realidade na região sul maranhense.

Imperatriz Notícias: No artigo 5º da Constituição Federal, que descreve os direitos fundamentais dos cidadãos, especifica que a liberdade de consciência e de crença não pode ser violada. No entanto, é de conhecimento, que as religiões de matriz africana ainda são marginalizadas, por exemplo a umbanda, o candomblé e o terecô são vítimas de preconceito e, atualmente, ainda acontecem muitos ataques aos terreiros. Como você vê os casos de intolerância religiosa hoje e o que o poder público pode fazer para mudar isso?

Davi Brandão: Os casos são uma agressão, uma ignorância muito grande. Até porque já estamos aí há praticamente 400 anos. A sociedade, como bem colocou a pergunta, ela marginaliza. Precisamos junto com os órgãos públicos, com os três poderes, estaduais, municipais e federais, políticas de reparação social. Se não existir essas políticas, infelizmente essa equidade não vai acontecer. Se formos pensar no Maranhão, 72% dos eleitores são negros, segundo pesquisa do G1 de 2020. Em Imperatriz, na Câmara de vereadores temos 21 vereadores e apenas uma mulher negra, então assim a sociedade ainda não aprendeu a ter essa representatividade. Além do desenvolvimento das políticas de reparação, tem que ser efetivadas leis que já existem, como por exemplo a lei 10.630/ 2003, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro brasileira, e a inclusão desse ensino na educação básica.

IN: Voltando à pergunta anterior, em relação aos ataques por conta do extremismo religioso. Qual é o impacto desse fanatismo dentro do território imperatrizense para as religiões afrodescendentes? Isso acaba fazendo com que as pessoas se afastem dos terreiros com receio de serem vítimas de intolerância?

DB: Os nossos próprios irmãos de fé fazem isso. Quando vamos em um evento público, as pessoas têm medo de mostrar a cara e dizer: que sou de matriz Africana. Eu, quando me apresento, sempre procuro dizer que sou de orixá, sou de cultura africana, mas nem todas as pessoas têm essa coragem. O praticante da religião de matriz africana muitas vezes não admite porque é uma vida inteira de preconceito. Na escola você ser chamado de “filho da macumbeira”, muitas crianças, jovens que estão dentro do terreiro são analfabetos, porque não suportaram o bullying dentro das escolas. Por isso é muito comum as pessoas procurarem a casa/terreiro para um determinado trabalho, mas na rua não querem nem que a mãe/pai de santo fale com ele.

 

IN: Vivemos em um Estado laico, ou éramos para viver, porém, sabemos que só é laico para alguns grupos religiosos. Outros, ficam afastados dessa realidade. Então, a partir do momento em que você escolheu seguir uma religião de matriz africana que sofre preconceito diariamente, o que mudou na sua vida (emprego, amigos e família)?

DB: Já sofri preconceito da minha família, no trabalho, entre amigos. Nós aprendemos a lidar com essas situações preconceituosas e com essas situações que vivi e vivo decidi estar à frente de um cargo na associação de terreiros, porque pela minha vivência dentro da religião da podem ajudar muitas pessoas. Por isso eu não poderia ficar com essas experiências guardadas pra mim, decidi participar da associação para poder ajudar outros.

 

IN: Nas escolas de ensino fundamental é ensinado sobre religião, mas na maioria das vezes é mais voltada para ensino da religião católica, pouco se fala sobre religiões africanas. Qual sua opinião sobre esse modelo de ensino?

DB: Tem que haver mudanças nas bases, temos que eleger representantes dentro dos órgãos públicos, pessoas que nos representam, seja nas câmaras de vereadores, casas legislativas, assembleias, porque lá existem as bancadas evangélicas são muito fortes, dentro. Então, temos que cobrar a implantação das diretrizes culturais e nacionais da cultura afro-brasileira, que já existem, já é um documento elaborado pelo MEC há mais de 10 anos e nunca foi implantado. O ensino religioso tem que trabalhar do ponto da história e não da visão dogmática.

 

IN: Você acha que quando as pessoas não têm muito conhecimento sobre religiões africanas, elas tendem a ter pensamentos mais preconceituosos quanto ao assunto?

DB: Com certeza. Tudo que se não conhece, infelizmente, acaba as vezes julgando e não é diferente em relação a religião de matriz africana. Até porque a mídia divulga um culto totalmente diferente da forma como nós trabalhamos. É tanto que eu, como diretor cultural da Astecma, entendo que todo nosso culto tem que ser levado para a rua, justamente para quebrar esse preconceito. Assim como tambor de crioula lá em São Luís do estado do Maranhão se tornou um patrimônio imaterial, então assim, as religiões de matriz africana também tem que buscar essas vertentes culturais, porque temos vários elementos, pontos culturais trabalhados dentro da religião, para poder quebrar esse preconceito e assim conseguir espaço dentro da sociedade, para mostrar pro povo que a nossa religião não existe essa magia negra, não existe esses feitiços como as pessoas pensam.  Essa tua pergunta é tão oportuna, porque se você for analisar todos os terreiros do Brasil, eles estão no fundo da casa do pai de santo, não existe no Brasil, na Bahia, Maranhão que são os dois estados que surgiram os primeiros terreiros do Brasil, não existe nenhum terreiro no centro da cidade, não existe um terreiro em uma praça pública como temos igrejas evangélicas e católicas. Todos os terreiros estão nos quintais das casas, por conta da marginalização que sofremos.

 

IN: A ignorância machuca e pode matar. As pessoas que não conhecem as religiões de matriz africana, associam elas com “magia negra”, qual a explicação para a origem dessa palavra e por que ela é relacionada com as religiões afro descendentes?

DB: Na verdade, tudo que é negro existe um preconceito muito grande. Essa questão da magia negra é porque quando se fala de religiões pentecostais, são religiões que são cultivadas nas praças, nas avenidas. Tem os eventos de grandes nomes que não vou citar, mas quando por exemplo na igreja católica temos o corpus christi, acontece em um estádio, nós também temos a marcha para Jesus, evento evangélico, acontece nas ruas, vê isso de forma positiva, mas quando se traz religiões de matriz africana já vincula diretamente ao nosso tom de pele, a cor negra.  Assim, não tem dentro da nossa religião só homens ou mulheres negras. Tem muitas pessoas brancas que também fazem parte do nosso culto. Me surpreendi quando assisti uma reportagem em um canal fechado, onde a apresentadora pergunta pra uma modelo de algum lugar da África o que mais surpreendeu ela aqui no Brasil, e ela respondeu que o preconceito racial, por conta que por ser um país que tem muitos negros e uma cultura mais próxima da deles ela achava que aqui não tinha preconceito de raça, porque lá não tem e eu me surpreendi porque eu achava que lá também tinha. Então está vinculada a questão cultural mesmo.

 

IN: Na sua opinião, por que as outras religiões rotulam as de matriz africana como coisa ruim?  E quais as religiões menos e mais receptivas com as religiões afro descendentes?

DB: As menos receptivas são as evangélicas, isso aí já é bem claro, inclusive tem umas pessoas que pertencem aquele fanatismo que você perguntou anteriormente, tem pastores que chegaram a ir na frente dos terreiros com carros de som, levantar a Bíblia, é algo bem forte e já aconteceu em Imperatriz. Infelizmente presenciei há poucos dias uma situação dessa, nós estávamos no terreiro do pai Rafael, no mês de novembro, quando aconteceu uma cena dessa, o pastor chegou no carro de som, desceu levantou a Bíblia e começou a orar, aí quando nós aproximamos ele entrou no carro e foi embora. E o outro ponto da pergunta da pergunta que você sobre o rótulo de coisa ruim, esse rótulo de coisa ruim sempre vai tá vinculado ao preconceito racial, infelizmente, como falei a você, quem mais morre nas favelas são os negros, nos guetos quem está é o negro, a classe carcerária a maioria são negros, quem mais morre de feminicídios são mulheres negras e as mulheres negras trans, infelizmente, então é mais voltado ao preconceito. O preconceito é muito forte e tudo que é ruim eles vão tá vinculando ao tom de pele, a nossa cor, esse preconceito é estrutural, ele já vem desde de quando a família portuguesa chegou aqui no Brasil.

 

IN: Durante anos, muitos mitos sobre as religiões de matriz africana foram sendo espalhados, como o de magia negra que você falou antes. A sociedade vê o pai de santo de maneira negativa, como vocês lidam com isso para desmistificar e conscientizar?

DB: O pai de santo é um líder religioso, isso é algo que tem que ser trabalhado dentro dos próprios terreiros, assim como o sacerdote, o padre e o pastor também são líderes religiosos, o pai de santo também é. Nós devemos trabalhar entre os irmãos a importância dessa liderança. As religiões de matriz africana têm uma liberdade muito grande e o pai de santo tem essa errônea nomenclatura utilizada, que na verdade o termo correto é zelador de orixá, mas pai de santo porque ele realmente figura como um papel de um pai de todos aqueles filhos da casa. Então, para poder desmistificar essa questão é ver o zelador de orixá como o líder religioso que ele é, para isso, tanto a casa religiosa quanto o próprio pai de santo tem que estudar. Antigamente tudo que eles sabiam era aprendido pela questão da oralidade, hoje nós temos grandes referências a nível nacional, David Umbanda, Rodrigo Queiroz, Alexandre Cumina. Eu, pelo fato de estar na associação, frequento todos os terreiros e vejo que tem terreiros que tem evoluído mais que outros, porque se o pai de santo não buscar aprender ele vai chegar no momento que não vai conseguir mais estar no cargo que ele alcança, pois nós estamos vivendo neste momento, no mundo, uma revolução muito grande na questão governamental, hoje não são os adultos que educam as crianças, hoje são as crianças que nos educam e dentro da religião não é diferente.

 

IN: Em Imperatriz a resistência das religiões tem ganhado mais força ou tem enfraquecido? Por que?

DB: Em Imperatriz nós estamos num processo de organização religiosa. E isso me deixa muito feliz porque nós estamos conseguindo unir os terreiros na mesma causa. Não é fácil lidar com pessoas, mas a partir do momento que foi fundada essa associação nós conseguimos fazer uma audiência pública, que nunca tinha existido em Imperatriz, e essa audiência tem nos dado uma visibilidade muito importante, muito positiva. Nós já conseguimos fazer dois eventos públicos em 2019 e agora na Beira Rio, então foi um marco para a gente e depois da audiência e dos eventos nós não paramos mais, toda semana nós temos um evento. Estamos nos organizando através de uma organização civil, se não for assim a gente não consegue chegar lá.

 

IN: Você falou mais cedo de uma questão das redes sociais, mas a mídia jornalística também passa uma imagem de vocês. A imagem representa de fato vocês ou apenas contribuem para mais intolerância?

DB: Dependendo de como ela for colocada ela contribui para a intolerância. Imperatriz teve um caso muito triste que um programa televisivo mostrou, que foi quando teve um culto aberto ao público que acontece no Santa Rita, e aí chegou a blitz da polícia e prendeu o pai de santo dentro do camburão. Então foi algo extremamente agressivo para nós e nada foi feito, ficou por isso mesmo. Então assim, a mídia televisiva não contribui. Não existe uma série na Globo, que é referência para a dramaturgia nacional, falando de cultura africana. Essa evolução dentro da dramaturgia claramente ainda não evoluiu, mesmo a gente agora tendo uma Maju Coutinho no fantástico, Então a televisão em si não ajuda porque ela não nos dá esse poder de fala, nós só estamos conseguindo ter essa visibilidade em decorrência das redes sociais.

 

IN: Você falou mais cedo sobre a câmara de vereadores que não tem uma mulher negra. Você já fez ou pensou em fazer parte de algum cargo público/político para poder tentar mudar essa situação?

DB: Eu já trabalhei para o município de Imperatriz, mas pedi a exoneração do cargo há alguns anos. Eu não tinha esse pensamento tão empoderado em relação a religiosidade como eu tenho hoje. Mas o centro de cultura negra, CCN, contribui muito para várias instituições, escolas, a gente faz vários trabalhos gratuitos. Então assim, esses cargos são eletivos, de indicação, nós estamos aí pleiteando na secretaria de educação a criação da coordenação de educação de igualdade racial e se ela for criada é para ser escolhido pessoas do centro de cultura negra, então, caso isso aconteça, nós vamos ficar muito felizes em saber que tem uma pessoa lá que realmente tem uma bagagem, uma história, um currículo que está apto a alcançar o cargo e fazer uma política diferente.