Escritor transforma em livros-reportagem histórias que apurou para imprensa e precisavam ser mais aprofundadas

Texto: Andréia Liarte

Fotos: Divulgação

Jornalista e escritor alagoano defende concentração e objetividade no ato da escrita

O jornalista e escritor alagoano, Jorge Oliveira Araújo, 71 anos, natural de Maceió, é autor dos livros O curral da morte, Muito prazer, eu sou a morte e Máfia das Caatingas. Muitas das histórias que apurou não puderam ser aproveitadas pelos jornais em que estava trabalhando na ocasião, por isso surgiu a necessidade de transformá-las em livros-reportagem. “Em uma reportagem você infelizmente nunca consegue abordar tudo. Passei a investigar mais a fundo os conteúdos, entrevistei outras pessoas e dei um toque literário”, explica. Jorge Oliveira acrescenta que um fato impulsionador para ele começar a trabalhar com livros-reportagem foi ter presenciado, em sua experiência como jornalista, “colegas de profissão mais antigos compartilharem histórias reais incríveis que eles tinham vivenciado com os anos de carreira. Histórias até mesmo inimagináveis’’.

Em um dos seus livros, Muito Prazer, eu sou a morte, o autor entrevista um homem que foi pago para matá-lo. Por meio das confissões do assassino, Jorge resolveu escrever a obra contando como seria esse assassinato, misturando ficção com realidade. Já O curral da morte e Máfia das Caatingas detalham os horrores causados pelo denominado “sindicato do crime” alagoano.

Livro-reportagem Curral da Morte relaciona uma história de sangue, poder e política

Para o escritor, o jornalista tem mais liberdade quando está escrevendo um livro-reportagem. “Nas redações você também é assalariado, dessa forma teu produto é pago para ser feito. No livro, você se isola para pesquisar e faz no seu tempo. Não tem ninguém para cobrar o produto, determinar o tempo em que você deve começar ou terminar. Por isso é mais fácil a criatividade fluir, porque você não trabalha sob pressão’’.

O processo do livro-reportagem

Jorge Oliveira conta que um dos motivos para entrar no mundo do livro reportagem foi investigar os vários lados da mesma questão. “Eu não me conformava com o óbvio, o simples não servia pra mim. E a partir disso foi mais fácil fazer livros. Eu pesquiso bastante, sou muito curioso nas coisas que gosto de fazer. E o livro-reportagem é minha válvula de escape. O escritor, quando inicia um livro, a imaginação dele fica muito mais fértil’’. Mas, de acordo com o escritor alagoano, nem todo jornalista tem habilidade para entrar no mundo do livro reportagem. “Porque escrever é acima de tudo você ter concentração e objetividade. Nem sempre um jornalista é fértil o suficiente para escrever um livro.  Talvez seja bom somente no factual. Infelizmente uma coisa não está obrigatoriamente ligada à outra’’.

Para Jorge Oliveira, a tecnologia facilita muito na hora das investigações. “Antigamente, pra você fazer um livro, tinha muito trabalho em relação às pesquisas. Você tinha que se deslocar, ir atrás das fontes em suas casas, pesquisar informações em livros. Mas, hoje em dia você tem a facilidade do Google. Tudo você encontra lá”. Ele dá como exemplos o perfil de uma fonte, a data de algum acontecimento, nomes. “Ele facilita muito e é usual em praticamente tudo. Hoje, por meio dele, você pode acessar uma biblioteca no conforto da sua casa’’.

O repórter argumenta, ainda, sobre a necessidade de mais leitura no Brasil. “Conquistar leitores no Brasil é complicado, porque infelizmente a cultura do país não é muito de ler. Então posso dizer que o nicho dos meus leitores é de um tamanho razoável, se levarmos em consideração o péssimo hábito do brasileiro não ser muito fã de leitura’’, desabafa.

A entrevista original com o jornalista foi feita no contexto da pesquisa Jornalistas escritores de livros-reportagem no Nordeste, desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo de Fôlego, do curso de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, pelo estudante e pesquisadora Ana Carolina Campos Sales.