Há mais de duas décadas, a festa impulsiona o desenvolvimento do município
Nicolle Santos
Criado em 2003, o Arraiá do Nosso Sítio consolidou-se como a principal festa junina e uma das maiores tradições culturais de Sítio Novo do Tocantins. Ao longo de 23 anos, o evento tornou-se um importante atrativo turístico da região do Bico do Papagaio, movimentando a economia local e reunindo moradores e visitantes em torno da cultura popular. Ao mesmo tempo em que cresce em estrutura e visibilidade, a festa também enfrenta o desafio de preservar elementos tradicionais que marcaram sua origem.
Realizado no Espaço Cultural Alcides Moreira Neto, o evento transforma o local em um grande “quadrilhódromo”, reunindo apresentações culturais, concursos de quadrilhas, shows musicais e barracas de comidas típicas. A programação atrai visitantes de diversos municípios da região do Bico do Papagaio, como São Miguel, Axixá, Itaguatins, Araguatins e também de Imperatriz (MA), fortalecendo o turismo e o comércio local. Segundo a Polícia Militar, cerca de 20 mil pessoas costumam frequentar esse evento.

Atrações
Durante os dias de programação, o Arraiá do Nosso Sítio reúne apresentações culturais, concursos de quadrilhas juninas, barracas de comidas típicas e shows musicais. As quadrilhas das escolas municipais e estaduais, além de grupos convidados, fazem parte da programação e mantêm viva uma das principais tradições da festa.

Entre as opções gastronômicas oferecidas ao público estão pratos típicos como canjica, milho cozido, caldo, galinha caipira, jantinha (carne assada, arroz, vinagrete e macaxeira cozida), bode ao leite de coco e panelada. A programação também inclui apresentações de artistas regionais e nacionais dos gêneros forró e sertanejo.
Ao longo de sua história, o Arraiá recebeu nomes conhecidos da música brasileira. Entre os shows que marcaram o evento, o secretário municipal de Cultura, Pablo Junior Dias, e a prefeita de Sítio Novo do Tocantins, Dora Farias, destacam as apresentações da dupla Simone e Simaria, na XVI edição da festa, e do cantor Amado Batista, na XXI edição.
Segundo a prefeita Dora Farias, esses dois shows ficaram entre os momentos mais memoráveis da história do evento. Ela relembra que a grande presença de público transformou as apresentações em marcos para a população. “Todos os shows foram importantes, mas dois ficaram marcados na história: o das Coleguinhas e o do Amado Batista. Foram apresentações que mobilizaram a cidade e reuniram um público tão grande que já não havia espaço para estacionar tantos veículos”, relembra a prefeita.

Segundo o secretário municipal de Cultura, Pablo Junior Dias, o show das “Coleguinhas”, apelido da então dupla sertaneja Simone e Simaria, que se separou em 2022, permanece na memória da população por ter reunido um dos maiores públicos da história do evento.
“Uma lembrança que me marcou muito foi quando o arraiá ainda acontecia na Praça da Prefeitura. Naquele ano aconteceu o show das Coleguinhas, que reuniu um dos maiores públicos de toda a região do Bico do Papagaio”, relembra o secretário.

A tradição
Embora o Arraiá do Nosso Sítio tenha ampliado sua estrutura e conquistado maior visibilidade ao longo dos anos, alguns moradores acreditam que a festa passou por mudanças que alteraram características presentes em suas primeiras edições. Entre os aspectos mais citados estão a redução do espaço destinado às manifestações culturais tradicionais e a maior valorização dos shows musicais.
Moradora de Sítio Novo do Tocantins há mais de 30 anos, Maria Irismar dos Santos avalia que a programação passou a priorizar atrações nacionais em detrimento de manifestações culturais que marcaram a história do evento.
“Eu acho que, com o tempo, o Arraiá está perdendo a sua verdadeira essência cultural. Atualmente, a gestão está mais preocupada com as atrações musicais do que com as atrações culturais. A organização também precisa melhorar. É importante voltar a valorizar as verdadeiras raízes da festa”, afirma.
A percepção é semelhante à de Joselice Pereira, moradora do município desde 1977. Para ela, a preservação da cultura junina depende de ações permanentes de incentivo às tradições que deram origem ao evento. Segundo Joselice, é necessário investir em iniciativas que fortaleçam as danças, as manifestações culturais e a forma tradicional de celebrar o período junino.
Sem esse incentivo, ela acredita que parte da identidade cultural da festa pode se perder com o passar dos anos. “Se não houver um trabalho de valorização da cultura, das danças e das tradições juninas, existe o risco de essa identidade se perder. É preciso incentivar as pessoas a manterem vivas essas raízes”, comenta.
Os depoimentos mostram que, embora o Arraiá continue sendo uma das principais festas da região, parte da população defende que seu crescimento seja acompanhado de ações voltadas à preservação das manifestações culturais que marcaram sua origem.
Caracterização
As transformações ocorridas ao longo dos 23 anos do Arraiá do Nosso Sítio também podem ser percebidas na forma como o público se veste. Se antes predominavam trajes inspirados no universo caipira, como vestidos de chita, estampas floridas, chapéus de palha e roupas tradicionais, hoje é cada vez mais comum a presença de vestimentas associadas a festas agropecuárias e cavalgadas. A mudança reflete novas influências culturais incorporadas ao evento ao longo dos anos.
Para a moradora Joselice Pereira, essa alteração representa uma das mudanças mais significativas na identidade da festa. Segundo ela, a caracterização típica, que antes era uma marca registrada do Arraiá, vem perdendo espaço.
“O que mais mudou foi a caracterização das pessoas. As roupas da roça, os vestidos de chita, as estampas coloridas e os chapéus de palha foram sendo substituídos por um estilo mais voltado às cavalgadas e exposições agropecuárias, como a Expoimp.”
Na avaliação de Joselice, preservar as vestimentas tradicionais também significa preservar a história da festa. Para ela, elementos como vestidos rodados, chapéus de palha e botas fazem parte da identidade cultural das festas juninas e não deveriam desaparecer com o passar do tempo.

Os depoimentos reunidos ao longo desta reportagem mostram que o crescimento do Arraiá do Nosso Sítio é reconhecido pela população e contribui para o fortalecimento do turismo, da economia e da cultura local. Ao mesmo tempo, moradores defendem que esse desenvolvimento seja acompanhado por iniciativas que preservem manifestações culturais, danças, vestimentas e tradições que deram origem ao evento.
Mais do que promover grandes atrações, o desafio do Arraiá do Nosso Sítio é manter vivas as raízes que fizeram da festa uma das mais importantes expressões culturais do Bico do Papagaio, conciliando crescimento, visibilidade e preservação da identidade cultural.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Dra. Camila Rodrigues Viana). Em 2026.1, contou com a colaboração, nas correções finais, da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul, Milena do Nascimento Silva, em estágio-docência.