A transformação das primeiras experiências com a leitura em uma trajetória que articula produção literária, comunicação e ações de valorização cultural.
Eduardo Jorge
Henry Adrian

Na velocidade do dia e o vento do rio
“Abro a janela da casa e da alma, saúdo a vida e o rio, cuido do café, do filho, do marido, e no minuto seguinte passo batom, coloco salto alto e saio para a velocidade do meu dia…”. É assim, conciliando a sensibilidade doméstica com o dinamismo da vida pública, que Edna Fonseca dos Santos Ventura define sua rotina. Natural de Imperatriz do Maranhão, a escritora e gestora cultural carrega uma trajetória marcada pela disciplina e pela dedicação às letras.
Aos 15 anos, Edna iniciou sua caminhada profissional em um escritório de contabilidade. Em seguida, construiu uma sólida carreira bancária ao longo de 17 anos, percorrendo diversas funções até chegar à gerência. O rigor administrativo e financeiro, contudo, nunca a afastou da escrita. Na adolescência, dividia o tempo com a publicação de crônicas e poemas nas páginas do jornal O Progresso e de outros periódicos locais.
Raízes no chão batido e encantamento pelo cordel
A identidade literária de Edna Ventura está ancorada no cenário em que cresceu. As referências que alimentam sua poética vêm de um tempo em que Imperatriz ainda preservava hábitos rurais: “Minha identidade afetiva está profundamente ligada às memórias da infância: à casa de barro coberta de palha; ao terreiro de chão batido e limpo; à minha mãe pilando arroz na varanda; à água gelada da cacimba; ao alambique do engenho de cana-de-açúcar, movido a carro de boi; ao vento que fazia música nas palhas dos coqueiros”.
O primeiro contato com a literatura veio de casa, pelas mãos do pai. Após as brincadeiras de roda na Avenida Getúlio Vargas e os jogos de queimada perto da Igreja de Fátima, o hábito familiar da leitura ganhava vida: “Meu pai reunia os filhos e, deitado numa rede, entonava a voz na leitura dos cordéis. Aquele momento de encontro familiar transformava a leitura em encantamento. Talvez tenha sido ali que comecei a compreender a força da literatura”.
Mais tarde, o repertório começou a se expandir com as tramas policiais de Agatha Christie, os versos de Fernando Pessoa e as transmissões de rádio que tocavam de Villa-Lobos a Roberto Carlos. A bagagem acumulada culminou na publicação de seus primeiros livros, Madrugada de Novembro e Ondas de Luz. O título do segundo livro acabou nomeando o programa de rádio semanal que ela apresenta ao lado do esposo, nas manhãs de domingo, pela Rádio Terra FM, no ar ininterruptamente desde 1994.

Pioneirismo e liderança feminina na Casa de Letras
Em março de 2001, Edna Ventura foi eleita para a Academia Imperatrizense de Letras (AIL). A instituição fundada em 1991 por 14 escritores, em sua grande maioria homens, abriu espaço para sua atuação. Edna desempenhou a vice-presidência e assumiu a presidência por diferentes mandatos, o que consolidou uma gestão focada na abertura comunitária e no fortalecimento institucional.
Ela ressalta que como mulher reconhece a importância de abrir caminhos e demonstrar na prática que a capacidade de contribuir para uma instituição não depende de gênero, mas sim da dedicação, seriedade e qualidade do trabalho realizado. “Cada mulher que ocupa um espaço de liderança também contribui para tornar esse caminho mais possível para outras mulheres”.
A visibilidade na cena cultural desdobrou-se também na gestão pública municipal, onde atuou como Secretária Municipal de Políticas para Mulher (2017-2020). Na área educacional e comunitária, coordenou a implantação de três bibliotecas na zona rural de Imperatriz em parceria com o Instituto Ecofuturo e a Prefeitura, além de receber da Câmara Municipal a Comenda Barão de Coroatá pelos serviços prestados à cultura.
Desafios estruturais, o Prêmio Literário e o resgate do SALIMP
À frente da Academia Imperatrizense de Letras no marco de celebração dos 35 anos da instituição, Edna Ventura aponta que a preservação do espaço exige esforço contínuo e cooperação pública. Embora a sede funcione por cessão de uso do município na Rua Urbano Santos, ela pontua que a manutenção rotineira de conservação do prédio, folha administrativa e organização do acervo da biblioteca, demanda fontes permanentes de custeio.
Entre as ações de fomento, a AIL promoveu o Prêmio Literário Academia Imperatrizense de Letras, premiando obras locais publicadas com valores em dinheiro, o Selo do Mérito Literário e o recolhimento de exemplares para a biblioteca. “O reconhecimento financeiro é importante, mas o valor do prêmio não se esgota nele. Quando uma obra passa a integrar o acervo da Biblioteca da AIL, ela ganha uma possibilidade concreta de permanência e acesso”.
Outra bandeira central de sua atuação é o Salão do Livro de Imperatriz (SALIMP), maior evento literário da região tocantina, do qual coordenou seis edições. Após um hiato de quatro anos na realização do evento, Edna defende a união de forças entre o setor público e privado para a retomada do projeto. “Para o futuro, desejo um SALIMP cada vez mais estruturado, acessível, inclusivo e capaz de ampliar seu alcance”.
Uma Mensagem para o futuro
Ao projetar o papel da Academia para as próximas décadas, Edna Ventura redigiu uma mensagem simbólica direcionada ao futuro presidente da Academia. A escritora defende que a instituição jamais se distancie da sociedade e que faça da biblioteca um lugar de encontro para que as reuniões gerem oportunidades de construção coletiva e use os projetos literários como instrumentos de transformação. “Uma instituição cultural não pertence a uma pessoa ou a uma diretoria. Ela pertence à sua história, aos seus membros e à sociedade que justifica sua existência”.