Defensora do movimento de resistência LGBTQIAPN+ compartilha lembranças sobre trajetória e luta para existir.
Brenda Marques
Melissa Sophie
“Você não nasceu da minha barriga, mas nasceu do meu coração”
– Dona Rosimar, 70 anos, Mãe de Michelle.
Aos 38 anos, Michelle Costa dos Santos recorda o dia em que chegou ao mundo, em 24 de maio de 1988, no Hospital Mater Chist, hoje UBS da Vila Nova, em Imperatriz. Recém-nascida, sem enxoval e enrolada apenas em um pano de prato, foi acolhida por sua mãe adotiva Rosimar Costa dos Santos, de 70 anos. O que começou como um gesto de cuidado se transformaria, anos depois, em uma relação que ela ainda considera uma das partes mais importantes de sua história.
Por volta dos 12 anos, a ligação entre mãe e filha viveu um momento de impasse. Michelle começava a revelar sua identidade de gênero. O processo de se entender como mulher transsexual acontecia ao mesmo tempo em que era visto pela família como rebeldia. “Eu sempre gostei do cenário feminino, de roupas femininas, e brincava escondida”, relata. Durante esse período passou a tomar hormônios secretamente e aos 16 anos, decidiu sair de Imperatriz e seguir para Goiânia.
Longe de casa, iniciou o processo de transição corporal. A distância, porém, não apagou o desejo de ser reconhecida pela mulher que a criou. Aos 18 anos, Michelle voltou para sua cidade natal. A memória do reencontro com a mãe vem acompanhada de uma frase ouvida quando mais nova: “Você não nasceu da minha barriga, mas nasceu do meu coração”.
Meu nome
O retorno ao lar e a afirmação pública de sua identidade deram a Michelle forças para enfrentar as barreiras burocráticas e ser reconhecida pelo nome que escolheu para si. Na época, alterar o título civil não era um processo simples para pessoas trans. Em Imperatriz, ela encontrou resistência com cartórios e juízes. Compartilha que chegou a passar por uma série de constrangimentos. “O pior é estar com o seu nome morto e a foto feminina. A pessoa fica sem entender, como se você estivesse fazendo falsificação ideológica”. Sem dinheiro para contratar um advogado, procurou assistência jurídica gratuita pelo Centro Universitário UniFacimp. Foi só em 2018 que conseguiu garantir seus direitos e ter a certidão retificada.
“A gente faz confusão e nem sabe que é militância”
A conquista foi um fruto da mudança nacional no Supremo Tribunal Federal que autorizou a retificação de prenome e gênero diretamente em cartório, sem a necessidade de laudos ou cirurgias. Nos primeiros cinco anos da norma, o Maranhão registrou 171 alterações civis. Em Imperatriz, o Núcleo da Defensoria Pública do Estado (DPE/MA) realizou, em 2021, o primeiro mutirão voltado à alteração dos documentos de pessoas trans, atendendo na época 15 pessoas. Um movimento contínuo que contribuiu para que o estado ultrapassasse a marca de 1,4 mil alterações extrajudiciais até 2026, de acordo com dados registrados pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Maranhão (ARPEN/MA).
A vida de Michelle não ficou restrita às mudanças que conseguiu fazer em seus documentos. Antes de voltar definitivamente para Imperatriz, trabalhou em São Paulo e Goiânia. “Eu viajava de um canto a outro. Trabalhava para manter minha comida e mandar algo para a minha mãe. Isso sempre deu certo”, conta. No entanto, este tempo também lhe faz recordar as situações de violência que viveu.
Em uma noite de Finados, em São Paulo, ela foi atacada por um grupo de skinheads. Surgido na Inglaterra em 1960, o movimento chegou ao Brasil entre as décadas de 1970 e 1980 e se ramificou em vertentes extremistas e neonazistas, marcadas pela violência urbana. A agressão deixou nove pontos em sua cabeça e a levou à Santa Casa, hospital central de São Paulo, onde recebeu o atendimento médico de emergência. Com a lesão enfaixada, presenciou outro episódio que não esqueceu. Um homem soropositivo, ferido pelo grupo, teve atendimento médico negado. “Fiz barraco no hospital para atenderem ele. A gente faz confusão e nem sabe que é militância. É você brigar no banco, no hospital, na rua para ajudar quem precisa”, reflete.
Pela minha existência

Com a chegada da pandemia de Covid-19, Michelle decidiu permanecer em Imperatriz para não se distanciar da mãe. “Eu voltei para ficar perto dela e não me desgrudo mais. Sei que se estiver fora e ela se for, vou me sentir culpada”, desabafa. Na cidade, a ativista tornou-se servidora pública municipal e passou a vender cosméticos para complementar a renda, uma rotina de trabalho que se mistura a uma realidade que vai além de sua história pessoal.
Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Mapeamento sobre Trabalho e Renda do MPT-MA de 2023, apenas 25% da população trans no Brasil possui emprego formal. No Nordeste, o percentual é menor com 17,8%. Em Imperatriz, iniciativas como a Feira de Empreendedorismo LGBTQIAPN+, organizada pela Defensoria Pública, procuram ampliar as possibilidades de geração de renda para essa população.
Foi também em Imperatriz que Michelle passou a participar mais diretamente do ativismo dentro do movimento Queer. Ao lado de militantes como Jean Pierr Figueredo, Amanda Cristina Alves e Breno Falcão, participou de panfletagens, distribuição de testes rápidos de ISTs e preservativos na Avenida Beira-Rio. Entre as reivindicações do grupo está a criação de um Ambulatório Social Trans, com atendimento médico e multidisciplinar. Michelle também defende a implementação da entidade civil Mães pela Diversidade para a cidade. “Queria muito trazer porque o apoio da família fortalece demais”, afirma.
A falta de um serviço público especializado é uma das questões que preocupam Michelle. Segundo ela, sem acompanhamento endocrinológico pelo SUS em Imperatriz, muitas pessoas trans recorrem à hormonização por conta própria. Um estudo da Revista Brasileira de Epidemiologia, periódico da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), publicado em 2024, revela que 72% das mulheres trans e travestis no Brasil fazem uso de hormônios sem acompanhamento médico. Para a ativista, a criação de um ambulatório especializado garantiria mais segurança no atendimento e ajudaria a combater a automedicação na região.

Quero ser lembrada
Fora da militância, ela também pensa em pessoas que vivem outras situações de vulnerabilidade. Entre seus planos está a criação de um sopão comunitário para pessoas em situação de rua e famílias que buscam sustento no lixão de Imperatriz. “Fazer o mínimo por quem não tem nada”, declara.
Hoje, os estudos ocupam boa parte de sua rotina. Ela se prepara para concursos públicos, entre eles, os do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão e de Goiás. A estabilidade financeira é um dos caminhos que imagina para realizar outro projeto: comprar uma chácara, com o objetivo de construir um lugar seguro, acolher pessoas em situação de fragilidade e cuidar de animais abandonados.
Entre as lembranças da infância, as mudanças, o trabalho e a militância, Michelle construiu uma história que não se resume às dificuldades que enfrentou. Quando questionada sobre o que quer deixar como marca, a resposta acompanha um sorriso e olhar distante, com vista para um futuro que vê claramente. “Quero ser lembrada pela minha alegria, minha força e por nunca ter deixado de lutar pela nossa existência”.