Hospital Regional de Imperatriz reforça protocolo de acolhimento para famílias em luto gestacional e neonatal

Texto e fotos de Yanna Carmo

O Hospital Regional de Imperatriz (MA) reforçou, em 2026, o protocolo de humanização voltado a famílias que enfrentam perdas gestacionais e neonatais, estruturando um cenário de luto com sala reservada para acolhimento e despedida. A iniciativa busca reduzir traumas emocionais de pais e mães no momento do óbito e garantir suporte multiprofissional, em um município que registra taxa de mortalidade infantil de 13,92 óbitos por mil nascidos vivos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O espaço, conhecido pela equipe como Sala da Família, funciona como suporte para que familiares recebam a notícia com orientação e acompanhamento, além de possibilitar rituais de despedida conforme a vontade dos pais. A criação do espaço está alinhada à Lei nº 15.139/2025, que institui a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental e orienta o acolhimento de famílias em casos de perda gestacional, óbito fetal e neonatal.

Sala da Família, espaço de acolhimento do Hospital Regional de Imperatriz (MA)

Segundo a assistente social do Hospital Regional de Imperatriz, Luísa Frazão, o protocolo já existia na rotina do hospital, mas tem sido reforçado com novas perspectivas e com maior integração entre setores como enfermagem, psicologia, medicina e serviço social. “A Lei nº 15.139/2025 veio reforçar algo que já acontecia. É um protocolo que já existe para qualquer atendimento de óbito”, explica. Com o reforço, o hospital passou a organizar de forma mais estruturada o acolhimento às famílias, garantindo um ambiente reservado e acompanhamento multiprofissional desde o momento da confirmação do óbito até as orientações finais. Segundo Luísa, o procedimento é aplicado não apenas em casos de óbito neonatal, mas também em perdas gestacionais, óbitos fetais e maternos. Ela destaca ainda que a atuação ocorre de forma integrada entre médicos, enfermeiros, psicologia e serviço social, com profissionais distribuídos por setores como UTI, enfermarias, UTI neonatal e ambulatório.

O fluxo começa quando o médico confirma a morte e aciona o serviço social, responsável por entrar em contato e solicitar a presença do familiar no hospital. “O serviço social não dá a notícia, ele convida o familiar a comparecer. Quem dá a notícia e as explicações da causa é o médico. Depois disso, a gente entra para acolher”, afirma. Após o comunicado, o serviço social orienta sobre documentação, sepultamento e, em casos de baixa renda, sobre o auxílio funeral, além de esclarecer que a entrega do corpo à funerária só ocorre mediante reconhecimento do familiar.

A equipe psicológica também participa diretamente do acolhimento e atua para garantir que a dor seja tratada com respeito e sem pressa. A psicóloga Aline Richely Silva, que trabalha há cinco anos no hospital, explica que o atendimento pode acontecer na própria sala reservada ou no leito, dependendo do estado emocional da família e da dinâmica do setor. “A gente transforma a dor através do acolhimento. Às vezes é um copo de água, um lenço. A gente evita falar muito naquele momento, porque é uma dor da família”, relata. Segundo ela, quando os pais desejam, a despedida pode incluir registros simbólicos, como fotografias e lembranças físicas do bebê. “Eles podem tirar fotos, filmar, eternizar o pezinho do bebê. É uma forma de guardar essa memória. Mas isso só acontece quando a família quer”, diz. Para a psicóloga Enza Karolina Rodrigues Cordeiro, há três anos na unidade, permitir essa despedida pode ser decisivo para o início do processo de luto. “Isso é primordial. Se a mãe precisa passar por essa dor, ela precisa entender que aquilo aconteceu. Algumas não querem, mas é opcional”, afirma.

Roupas pequenas no varal lembram que, no luto neonatal, o que fica é a ausência e o acolhimento

Além de acolher os pais, as psicólogas destacam que a ausência de suporte pode gerar consequências emocionais profundas, como depressão, ansiedade e isolamento social. Aline alerta que o sentimento de culpa é comum, principalmente nas mães, e que a forma como a notícia é dada pode intensificar ou amenizar o sofrimento. “Uma notícia mal conduzida, ao invés de melhorar, piora. O jeito que o profissional fala impacta na vida daquele casal”, explica. Entre os casos que marcaram a equipe, Aline relata o atendimento a um pai indígena que, diante da morte do bebê, realizou o ritual de despedida conforme sua cultura e idioma. “Ele começou a falar a língua dele e chorou muito. Foi bem impactante”, conta. Enza também relembra um episódio em que a postura humanizada de um pediatra foi decisiva para amparar pais que não esperavam a perda. “Ele acolheu de uma forma tão humana que me marcou. Às vezes tu não precisa dizer nada. Apenas a tua presença gera um suporte”, diz. Após o atendimento inicial, o hospital ainda realiza encaminhamentos para acompanhamento posterior, principalmente por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS), garantindo continuidade ao cuidado psicológico.

Ao resumir o objetivo do atendimento, Luísa Frazão destaca que o acolhimento não elimina a dor, mas impede que ela seja atravessada em silêncio. “A dor ninguém tira. Mas é um atendimento humanizado: estar presente, respeitar o tempo da pessoa, ouvir e orientar quando ela estiver pronta”, afirma. Para ela, o protocolo reafirma o lugar dos pais mesmo diante da perda. “No hospital, pai e mãe não ocupam o lugar de visitas. Permanecem no papel que nunca se interrompe: o de amar, cuidar e estar — sem hora marcada, sem despedidas impostas.” O Hospital Regional de Imperatriz não possui dados públicos atualizados sobre o número de perdas gestacionais e óbitos neonatais registrados anualmente na unidade.

Serviço:

  • O que?
    Protocolo de acolhimento e humanização para famílias em luto gestacional e neonatal.
  • Quando?
     Reforçado em 2026.
  • Onde?
     No Hospital Regional de Imperatriz (MA), na Sala da Família.
  • Como participar?
     O atendimento é acionado automaticamente após a confirmação do óbito, com apoio do médico, serviço social e psicologia. Depois, a família pode ser encaminhada para acompanhamento nas UBS.