-Thaina Ramos
Não foi combinado, o plano de ir para Pedreira era história velha no grupo, todos tinham
sido convidados, poucos queriam mesmo ir. O sol de setembro, no interior de São Paulo,
estava insuportável naquela manhã e o pequeno ventilador da sala apenas contribuía para
piorar a trilha sonora. Uma parcela do eufórico grupo de amigos decidiu que naquele dia
iriam. A decisão foi impulsiva, típica de adolescentes, mentiras para mãe, omissão ou a total
falta de satisfação.
Eram quatro, ainda com os uniformes e medo que poderiam descobrir. O objetivo era ver se
a trilha ainda existia, para que depois todos os amigos pudessem visitar. A mais sábia
acalmava os ânimos dos outros três, afinal a trilha poderia ter sido devorada pela mata. Ela
alimentava os anseios dos amigos com cuidado e uma maturidade sobrenatural para a sua
idade, não tinha o dever, mas não cuidar iria contra sua humanidade. Os amigos seguiram
com o plano, contavam os segundos para a aula terminar. Estar no terceiro ano não os
isentou da emoção, que seguia o fim do dia letivo.
Estudavam em tempo integral, a maioria não residia na cidade em que a Pedreira ficava,
por isso foram de van. A viagem curta foi o momento de descanso pré-aventura. Muitos
acham que em momentos assim, o único sentimento é a adrenalina. E talvez devesse ser
mesmo, porém estudantes estão acostumados com ela. Vestibular, empregos e futuro,
esses pensamentos corroem a mente dos jovens e o último ano do ensino médio é o palco
onde isso mais ocorre.
Alguns perdidos em pensamentos, outros dormindo, eles chegam no destino. A placa recém
reformada da cidade, que tinha ao lado uma mata densa e fechada. Os companheiros foram
juntos até a entrada, um velho portão de ferro, enferrujado com a tintura saindo, deslocado
no ambiente. Tentaram abrir, a corrente decorativa deslizou para o chão quando tocaram.
Não foi fácil empurrar, mas a determinação ou a simples constatação de que já estavam ali,
fez com que atravessassem.
Seguiam um atrás do outro, cada barulho externo virava uma pausa apavorada, olhos
arregalados e coração na mão, ficavam imóveis por alguns segundos, esses que
rapidamente eram substituídos por brincadeiras e risadas altas. A caminhada foi longa e o
sol castigava a cabeça daqueles que não deveriam estar ali. Adentraram muito na mata,
quase desistiram muitas vezes, porém o momento de maior tensão ainda estava por vir.
Quando se depararam com arames farpados, a mente do mais medroso nublou, havia
meios de passar, complicados e perigosos, mas a possibilidade existia. Ele queria voltar,
tinham tentado e não deu certo, tudo bem, a história para contar depois estava repleta de
emoções, não precisavam se arriscar.
Os amigos tiveram o primeiro lapso de consciência, estavam no meio do nada e ninguém
fazia ideia daquilo, a localização deles, junto ao sinal, tinha se perdido há tempos. A
esperança de que chegariam na Pedreira começou a ruir. Nossa vida está cheia desses
momentos, acreditamos não conseguir e a vontade de desistir é imensa. Sobre esses
momentos, um dia saberemos como lidar, assim como eles souberam. Obteve grande
suporte e incentivo dos amigos, fazendo assim com que todos passassem por debaixo do arame. Eles não perceberam ou não quiseram comentar, mas aquela atitude foi humana, não era só ele com medo.
Estavam mais perto do que imaginavam, deixando o peso do mundo para trás, viram aquela
água toda há alguns passos. Houve um consentimento mútuo de se sentar e apreciar.
Deviam ser quatro da tarde, o sol e as nuvens se fundiam em todos os lados e o lago
refletia todo esse esplendor. Não houve choro ou grandes exclamações. O suor escorria de
suas peles. As pernas clamavam por descanso. Percebiam a mente agora limpa, recheada
de boas lembranças.
Tiveram um longo impasse ao decidir entrar. Para a mais sorridente dentre eles aquilo era
muito especial, ela sabia que por mais que voltassem, nunca seria igual. Naquele dia
nadaram, nadaram muito, até os ossos desmancharem. A liberdade de estarem sozinhos
jamais vai ser retirada do peito deles. O mais corajoso se aventurou por todos os cantos do
lago, ele deu aos outros coragem para se livrarem das amarras da sociedade. Ao menos ali
seriam jovens, sem preocupações, sem deveres ou conceitos pré estabelecidos por seus
pais. Conversaram sobre tudo e não se lembram de nada, a bolha que rodeia essa memória
está muito bem protegida. As inseguranças, sonhos e promessas foram despejadas na
água e irão permanecer lá, após a placa da cidade, depois do portão de ferro embaixo do
arame farpado.
Produto jornalismo literário Quem vive conta. Crônica desenvolvida por acadêmicos da turma 2026.1 do curso de jornalismo UFMA/Imperatriz na disciplina de Produção textual I. Coordenado pelas professoras Camila Rodrigues e Milena Silva. Edição por Nathalia Monteiro.