Nathalia Monteiro
Aos nove anos uma miçanga me fez ir para o hospital.
O episódio aconteceu na escola, o que só piora a minha situação. Circunstâncias incomuns já
costumam ser envergonhantes por si só, com uma plateia de cerca de vinte crianças
curiosas, o drama triplica. Eu tinha cerca de nove anos, e como a maioria das meninas dessa idade, estava
completamente obcecada por acessórios de miçanga. Minha mochila parecia um estoque
de armarinho. Levava os materiais para a escola e fazia pulseiras, anéis e colares para
trocar com minhas amigas.
Foi em um desses dias que a miçanga foi parar no meu ouvido. Não me perguntem como,
pois realmente não lembro, e é esse o argumento que até hoje sustenta minha defesa. Só
lembro de perceber o objeto e chegar pertinho da professora, que se desesperou, acabando
com minha tentativa de manter a discrição. Primeiro ela tentou retirar o objeto usando suas próprias unhas postiças, porém só conseguiu afundar ainda mais a danada. Depois, inclinou minha cabeça de um lado pro
outro como se a gravidade fosse resolver a situação. Não resolveu. Por fim, ligou para
minha mãe.
Mamãe é uma pessoa ansiosa, que sempre acha que ligações de escola significam
tragédia. Gosto de imaginar o desespero dela recebendo uma ligação urgente e
descobrindo, minutos depois, que a emergência em questão era uma bolinha de plástico no
ouvido da filha. Ela me buscou na escola e o interrogatório começou enquanto o taxi nos levava ao
médico. Vendo minha mãe e a professora desesperadas, eu entendi que a situação era
mais grave do que imaginei e o medo tomou de conta. Foi quando minha mãe perguntou
como aquilo tinha acontecido. Meu cérebro entrou em parafuso, olhei para o teto do carro,
fechei os olhos e só falei:
— Foi a Carla.
Em minha defesa, a Carla tinha antecedentes. Meses antes, nós duas tínhamos brigado no
intervalo depois que ela destratou a tia da cantina e eu resolvi tirar satisfação. A situação
terminou comigo e Carla rolando no chão do pátio enquanto outras crianças assistiam igual
briga de galo. Foi a primeira vez que eu tinha parado na diretoria e nunca tinha perdoado
Carla por isso. Quando a apontei como autora do incidente, minha mãe não demonstrou a
mínima surpresa.
No consultório, a médica, que provavelmente já tinha visto de tudo, deu uma risadinha da
situação, fez alguns testes de audição comigo e colocou um aparelho no meu ouvido para
sugar a miçanga. Desconfio até hoje que o vácuo daquele aparelho me deixou com
sequelas.
No fim, a miçanga foi removida e meu ouvido sobreviveu. Minha mãe ainda lembra dessa
história como “A vez que a coleguinha da Nathalia colocou uma miçanga no ouvido dela”. A
Carla, naturalmente, sempre negou todas as acusações. E eu sinceramente não sei dizer com absoluta certeza o que aconteceu naquela manhã de 2009. A memória infantil é traiçoeira e acidentes acontecem…
O que posso afirmar é que a Carla já tinha derrubado meu lanche uma vez.
Produto jornalismo literário Quem vive conta. Crônica desenvolvida por acadêmicos da turma 2026.1 do curso de jornalismo UFMA/Imperatriz na disciplina de Produção textual I. Coordenado pelas professoras Camila Rodrigues e Milena Silva. Edição por Nathalia Monteiro.