Voz Literária · Quem vive conta

✦ ❦ ✦

22 de Janeiro de 2021: Quando pari uma criança

Isabella Da Hora

Existem dias que mudam a nossa vida devagar. Outros chegam
arrombando a porta sem pedir licença. Aquele foi um deles, 22 de janeiro
de 2021. Nada tinha a ver com mudar o cabelo, comprar roupa nova ou
conhecer uma cafeteria bonita no centro da cidade. Era uma mudança sem
volta. Dessas que arrancam uma versão inteira da gente e colocam outra
no lugar.
Meu dia começou as 4h40 da manhã, depois de inúmeras idas ao
banheiro e não era para o número 2, era só a vontade absurda de fazer
xixi que acompanha o fim do terceiro trimestre e eu sabia: o próximo
destino não seria apenas ir ao banheiro. Horas depois, eu estava ali. Luz branca. Corredores. Pessoas
visivelmente felizes. Outras assustadas. E eu, sinceramente, só conseguia
pensar na fome que sentia por não ter tomado café. Convenhamos
ninguém fica feliz às seis da manhã.
A ficha demorou um pouco para cair. Talvez porque a vida inteira a
gente ache que grandes mudanças fazem barulho. Mas não. As vezes elas
chegam silenciosas. E ali estava eu, naquela sala, e comecei a entender
que não sairia dali rapidamente. Muito menos sozinha. Foi estranho
perceber isso, que durante 40 semanas fui morada, lar e, ainda assim
muitas vezes me senti sozinha. Como se só eu entendesse o tamanho do
que estava acontecendo.
Como ninguém pudesse realmente compreender o medo absurdo que
existia em deixar de ser quem fui durante dezenove anos.
Porque era isso.
Eu estava me despedido de mim, das saídas sozinha para tomar café,
comer sem precisar correr. Do silêncio. Da liberdade despreocupada dos
dezenove. E pior é que não existia escolha, não dava para levantar e ir
embora. Eu estava ali, apenas ali. Então, às 15h04, renasci e ela nasceu.
Sem choro desesperado. Sem escândalo.
Ela veio silenciosa, calma, com olhos enormes e atentos, como quem já
conhecia aquele lugar antes de mim. Enquanto todos tentavam entender
aquela criança, eu tentava entender o que tinha acabado de acontecer
comigo. Porque naquele instante eu percebi uma coisa assustadora. Eu
nunca tinha conhecido a minha verdadeira versão até aquele momento.
Nada no mundo tinha sido tão intenso, tão fascinante. Nada tão assustador
e bonito ao mesmo tempo.
Hoje, cinco anos depois, ainda paro para pensar em como tudo
mudou naquele dia. E às vezes me pego encarando o silêncio da casa,
olhando para ela, e pensando, quase sem acreditar:
“Meu Deus… Eu pari uma criança”.

22 de janeiro nunca será apenas um
dia qualquer.

(Acervo Pessoal)

Produto jornalismo literário Quem vive conta. Crônica desenvolvida por acadêmicos da turma 2026.1 do curso de jornalismo UFMA/Imperatriz na disciplina de Produção textual I. Coordenado pelas professoras Camila Rodrigues e Milena Silva. Edição por Nathalia Monteiro.

Leia também