Moradores lembram os fatos mais marcantes da história do bairro de Imperatriz (MA)
Antonia Santana
Em 1973, José Aceno Alves, conhecido como Pernambuco, pai de família com dez filhos e fazendeiro que morava no sertão pernambucano, decidiu fugir da seca e convidou um de seus irmãos. “Joaquim, vamos mudar pra um lugar que tenha água, o Maranhão é um lugar de muita água”. Mesmo tendo o convite recusado, ele veio e já comprou sua primeira fazenda em Santa Maria. Encantado, voltou para casa levando a grande notícia e certo de sua decisão, se estabeleceu no estado, inaugurando um período de fartura.

Em sua mudança definitiva, adquiriu 14 hectares de terra, área onde hoje se localiza o bairro da Vila Fiquene, trazendo consigo sua família, um caminhão de bois e muitos sonhos. Pernambuco chegou aqui com 57 anos de idade e faleceu aos 86, em 2002. Ao longo de 29 anos, tornou-se muito conhecido por seus negócios, promover empregos e, também, por ser rezador de crianças. Por esse motivo, recebia visitantes de toda região de Imperatriz.
Surgimento da Vila Fiquene
Dez anos se passaram, os negócios prosperaram e José Aceno conseguiu providenciar o futuro de toda família. “Ele organizou a vida de todos os filhos que quiseram vir pra cá”, relata Terezinha Aceno de Carvalho, nora e sobrinha. Com o tempo, porém, surgiram problemas, como roubo de gado e o abate ilegal para retirada de carne. Desgostoso com a situação, ele abandonou a criação, vendeu parte das terras e doou outra parcela ao poder público municipal.
Na época, o então prefeito Carlos Gomes de Amorim (gestão de 1977 a 1983), realizou a distribuição de terrenos aos primeiros moradores, dando origem ao bairro Senador Larroque. A principal via de acesso recebeu o nome de Avenida Pernambuco. Na gestão municipal seguinte, sob o mandato do prefeito eleito José de Ribamar Fiquene (governo de 1983 a 1988), o bairro passou a levar seu nome, mantendo-se a política de distribuição de lotes e expansão urbana.

No início, o bairro era totalmente isolado, com acesso feito apenas por veredas abertas pelos próprios pioneiros. Homens e mulheres desbravavam o caminho diariamente, como relata Pedro Gomes, morador desde aquela época e que também fazia esse trabalho. “A gente ia com enxadas, pá e todos participavam, porque a gente sabia que era nós mesmo”, relembra. Por um lado, chegava-se à Vila Nova, e, pelo outro, à Vila Davi, localidade que mais tarde se tornaria o município de Davinópolis.
Nesse período inicial, as propriedades que Pernambuco manteve representavam a única fonte de renda da região, empregando a maioria dos pais de família nos barreiros de extração de cascalho, barro e areia, utilizados na construção da cidade de Imperatriz. A atividade movimentava, em média, 30 caçambas por dia e permaneceu ativa até 2000, impulsionando também o comércio informal, com a venda de produtos como geladinhos, panelada e outras iniciativas conduzidas por moradores.
Progresso local
Desde os primeiros anos, um grupo de moradores passou a se reunir para discutir e encaminhar as principais necessidades da comunidade. Em 1988, ao saberem da visita do então presidente da República, José Sarney, à Imperatriz, conseguiram entregar-lhe um documento solicitando a implantação de energia elétrica no bairro. A mobilização marcou um momento importante de organização comunitária e reforçou a busca coletiva por melhorias estruturais para a região.
Cerca de um mês após o pedido veio a resposta positiva, trazida por Edson Lobão, que mais tarde se tornaria governador do Maranhão (1991–1994). Em pouco tempo, foram instalados os postes e a iluminação pública, impulsionando o comércio local e possibilitando a chegada do primeiro telefone público comunitário. Na sequência, vieram o transporte coletivo e o asfaltamento de algumas ruas, ampliando o acesso e a integração do bairro à cidade.
No decorrer dos anos o bairro passou a contar com uma praça, creche, água encanada e posto de saúde. Chegou a ter três estabelecimentos de ensino, mas atualmente, mantém apenas uma em funcionamento, a Escola Municipal Pedro Abreu, que existe desde os primeiros anos da comunidade. Também houve uma associação de moradores, hoje extinta, além de um polo do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), posteriormente transferido para outra localidade e o Clube de Mães, atualmente desativado. Apesar disso, ainda permanece entre algumas moradoras o desejo de quem sabe, retomar as atividades do grupo.
Cultura
Na década de 1980, surgiram os clubes de festas: Forró da Túia e depois o Forró do Bigode. Apesar dos nomes, os espaços eram marcados pelas inesquecíveis discotecas que animavam os fins de semana e agitavam a juventude local. Já nos anos 1990, ganharam destaque os bares que se tornaram referência do reggae na região, entre eles o Bar do Silas e Bar da Loura, consolidando um novo cenário cultural no bairro.

Os eventos comunitários também marcaram época. Especialmente na década de 1990, as tradicionais gincanas faziam grande sucesso e eram promovidas pelo colégio do ginásio Escola Municipal Sarah Lamarck e também pelo grupo de jovens da Igreja católica Nossa Senhora das Dores. Além de contar com a colaboração dos integrantes da Pastoral da Juventude (PJ) e do grupo Jovens Unidos em Cristo (JUC), que realizou diversas atividades culturais e religiosas, entre elas a tradicional encenação da Paixão de Cristo. O grupo atuou por mais de 20 anos com forte presença na comunidade.

Com a chegada dos anos 2000, surgiu uma nova geração de jovens e muitos dos eventos tradicionais deixaram de acontecer, ao mesmo tempo em que o uso de drogas se tornava um problema latente na comunidade. Diante desse cenário, o casal Irailde Rabelo e Pedro Gomes percebeu a necessidade de inserir a juventude na cultura e na vida comunitária, oferecendo alternativas de convivência e lazer saudável.
Foi assim que surgiu a Estrela Junina, que atuou por cerca de nove anos, com apresentações dentro e fora de Imperatriz. “Nossa quadrilha tinha mais de 50 integrantes, e o convite foi feito primeiro aos jovens da igreja e depois aos de fora. Foi muito positivo, porque, na época, o grupo JUC também cresceu”, afirma Pedro Gomes, idealizador da iniciativa.
Mais tarde, o casal também motivou e formou o grupo de dança Boi Estrela da Vila, que permaneceu ativo por pouco mais de seis anos. As iniciativas cumpriram seu papel social e cultural, fortalecendo vínculos comunitários e oferecendo alternativas saudáveis de lazer aos jovens. “A gente buscava apoio financeiro de políticos para despesas com transporte, e algumas mães e os próprios integrantes, às vezes com dificuldades, investiam no figurino”, relembra Pedro Gomes. Segundo os moradores, os projetos ajudaram a transformar a realidade de muitos participantes, levando cultura e tradição para além dos limites do bairro.
Desde 2002 até os dias atuais, existe o Bloco da Vaca, que anualmente promove uma festa de carnaval e uma tradicional partida de futebol masculina. Nela, os homens casados vestem vestidos e os solteiros saias e blusas, e isso atrai uma plateia com pessoas, inclusive, de outros bairros.
Pontos de referência
A Escola Municipal Pedro Abreu, fundada em 1979, é mais antiga que o bairro e funciona como seção eleitoral, atendendo eleitores de uma ampla área. A igreja católica matriz, Nossa Senhora Das Dores, foi fundada em 1980. Há também a Praça Davi Alves Silva, o Cemitério Jardim Betânia e o campo de futebol. E por que não citar os bares do Paranhense e do Roberto, que são pontos tradicionais de encontros, reconhecidos como ambientes tranquilos.

Ao longo de seus 42 anos, a Vila Fiquene já contou com associação de moradores, posto policial do 14º Batalhão da Polícia Militar, Clube de Mães, Centro Social e transporte coletivo com horários regulares. Com o passar do tempo, porém, o ritmo do progresso não se manteve e, atualmente, a comunidade enfrenta a falta de saneamento básico, pavimentação adequada e transporte público de qualidade.

Dias de hoje
“A Vila Fiquene cresceu, deixou de ser isolada e se tornou o centro de vários bairros. Mesmo assim, o descaso do poder público, tanto municipal quanto estadual, fragilizou muito a comunidade e continua marcando de forma negativa a vida dos moradores”, lamenta Eduardo Camberimba, morador do bairro desde 1983. Atualmente, está próxima da faculdade Facimp Wyden, de prédios de serviços públicos como Fórum Eleitoral e Ministério Público do Estado do Maranhão, entre outros. Além de integrar a área do maior shopping center comercial da cidade, o Imperial, e com fácil acesso ao aeroporto.
Atualmente a Vila Fiquene ocupa uma localização estratégica e apresenta grande potencial geográfico para expansão e melhorias urbanas. ‘No entanto, esse avanço não se reflete na qualidade dos serviços oferecidos à população”, avalia Antonio Aceno de Carvalho, morador e filho do pioneiro “Pernambuco”.
De um bairro que, no passado, já foi marcado pela violência, a Vila Fiquene tornou-se hoje uma comunidade mais tranquila. Nos últimos anos, houve crescimento populacional, surgimento de pequenos empreendedores e serviços. “Hoje a gente consegue resolver muita coisa aqui mesmo, sem precisar sair do bairro”, observa Maria José, comerciante local. O acesso dos jovens ao ensino superior e ao mercado de trabalho também aumentou, assim como houve melhoria nas condições de moradia.
Segundo alguns moradores, o surgimento de novas lideranças com pretensão a cargos políticos renova as expectativas por avanços. “A gente espera que, com essas mudanças, o bairro volte a receber investimentos e conquiste o que ainda falta”, conclui a residente Iodete Magalhães.
Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.