Vila 21 de Maio tem trajetória de luta por permanência

Famílias pioneiras transformaram um simples terreno baldio em um lar seguro

Livia Freitas

A Vila 21 de Maio, hoje conhecida como um dos interiores de Buriticupu (MA), sempre foi lembrada pela simplicidade de seu povo, boa convivência e receptividade. No entanto, poucos conhecem a verdadeira história por trás do nome que marca esse povoado. Sua origem está profundamente ligada à luta, resistência e ao desejo de pertencimento de dezenas de famílias que ali encontraram um lar.

Em 1990, 88 famílias carentes e sem-terra receberam a permissão para residir em um determinado terreno. Sem um lugar para viver, elas chegaram ao local justamente no dia 21 de maio, data que mais tarde daria nome ao povoado. Pouco depois de iniciarem o trabalho na terra, receberam uma ordem de despejo, tentaram expulsá-las, mas a comunidade resistiu. Por meio de ações judiciais, conseguiram garantir o direito de permanecer, firmando um acordo com o proprietário original da  terra e com o governo, assegurando que não seriam removidas novamente.

Com essa conquista, os pioneiros passaram a trabalhar com a certeza de que aquele lugar lhes pertencia. “Assim que chegamos aqui, a convivência era boa, eram 80 e poucas famílias, mas era todo mundo junto e unido”, afirma  Manuel, um dos primeiros moradores. A região, apesar de simples, já contava com um poço que foi essencial para a sobrevivência das famílias. “Fizemos muitas coisas boas pra cá, mas fizemos coisas ruins também. Passamos muitas necessidades”, lembra Chico, outro desbravador.

A realidade era dura. Para conseguir itens básicos, as pessoas precisavam se deslocar até outras cidades, já que o acesso era difícil e os recursos locais escassos. “Era uma situação muito complicada, porque tinha que buscar coisas em outro lugar longe”, afirma seu Chico. Uma pequena escola funcionava como ponto de encontro e, mais tarde, se tornaria o clube onde eram realizadas as festas e as comemorações do aniversário da Vila 21 de Maio.

Atual clube de festas, onde as pessoas do povoado e de outros locais se reúnem para festividades (foto: Livia Freitas)

Com o tempo, a comunidade começou a crescer. Novas famílias chegaram, surgiram pequenos comércios, como mercearias que forneciam alimentos e itens básicos, e também campos de futebol. Ainda assim, o povoado permanecia pouco conhecido e enfrentava abandono: estradas quase intransitáveis, ruas estreitas e esburacadas e falta de serviços essenciais.

Mas a população não se calou. Vieram questionamentos, cobranças, protestos e greves. Pneus eram queimados na estrada principal para chamar atenção ao descaso. A luta deu resultado, pois, aos poucos, a Vila 21 de Maio ganhou voz, visibilidade e respeito. Onde antes havia apenas um pequeno clube, surgiram conquistas importantes: posto de saúde com profissionais à disposição, uma boa escola, a Santos Dumont, ruas pavimentadas e a reforma da via principal.

Árvore que está na comunidade desde o início é testemunha de muitas histórias (foto: Lívia Freitas)

“Eu me recordo como se fosse ontem, quando eu era só uma criança e ouvia a história dessa árvore. Alguns moradores locais contavam que ela estava ali desde o início, ‘quando tudo era mato’”, lembra uma senhora que preferiu não se identificar. Até hoje ela permanece de pé e floresce.

As famílias que fundaram o povoado, muitas ainda residentes, lutaram para que a Vila 21 de Maio fosse vista como um lugar com potencial e dignidade, não como um problema a ser ignorado.  “Eu acho que hoje o número até aumentou. Não sei, mesmo que entrem uns e saiam outros, aumentou muito”,  comenta  seu Manuel.

Atualmente, a vida por ali melhorou, mesmo que novos desafios tenham surgido. O fato é que a comunidade se fortaleceu, evoluiu e resistiu. Embora muitos conheçam o povoado, poucos sabem de suas origens. A marca de um nome que carrega luta, coragem e a força de quem decidiu transformar dificuldade em lar.

Esta matéria faz parte do projeto “Meu canto tem histórias”. Os (as) estudantes do primeiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, foram incentivados (as) a procurar ideias para matérias jornalísticas em seus próprios bairros, em Imperatriz, ou cidades de origem. O projeto é uma parceria interdisciplinar envolvendo Redação Jornalística (prof. Dr. Alexandre Zarate Maciel) e Laboratório de Produção de Texto I (LPT, profa. Camila Rodrigues Viana). Em 2025.2, contou com a colaboração, nas correções finais, da aluna estagiária Milena do Nascimento Silva, do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLe), da Uemasul.